A Putalhaçaria das Dez Graças


Ítalo Rui[1]

Pensar e praticar o teatro como um lugar de festa, um lugar feito para o extravasamento do ser, um lugar que festeja os diversos corpos, que ironiza a proibição dos desejos, que satiriza os poderes que determinam quais corpos devem compor a paisagem urbana de uma sociedade heterogênea é o que compõe a poética da trupe de artistas chamada As Dez Graças de Palhaçaria com o espetáculo Cabaré da Desgraça.
Somos recebidos pelos artistas num ambiente que remete à um cabaré, à uma festa brega. Uma iluminação colorida preenche o espaço de atuação, globos de luz projetam as diversas cores pelo ambiente. Estamos imersos em um ambiente extremamente convidativo. Ficamos confortáveis. Os atores servem cachaça para o público, até todos estarem sentados, prontos para o que virá. Na verdade não estamos prontos, e nem é para estarmos. Ou melhor, só estamos prontos até essa parte.


Fotografia de Vinicius Gomes

  
Fotografia de Vinicius Gomes
Cabaré das Desgraças apresenta uma série de ações que tem o humor como seu fio condutor. Me parece que cada ação/quadro tem um artista que é seu dono, seu criador, tal como os números circenses. Aqui, cada ação que se apresenta tem um ou dois artistas criadores. Não há uma narrativa linear, uma história a ser contada. O que vemos em cena são composições dramatúrgicas independentes, quadros distintos e que se interligam pela putalhaçaria. E sendo assim, gostaria de destacar alguns quadros apresentados que me parecem merecer uma observação mais cuidadosa:


Começo pelo quadro do “Casal”: um homem e uma mulher realizam números básicos de circo, se desafiando e desafiando a plateia a realizar algumas ações que aparentemente são difíceis. A plateia compra a ideia do casal e participa ativamente, já estamos seduzidos pelos atores. Não há nenhum tipo de negação, o público embarca com muita facilidade. No entanto, há um elemento presente na cena que faz o público rir e enojar-se: o asco. O exercício é simples, uma atriz morde um pedaço de banana e tenta lança-lo dentro da boca de seu colega. Quando a cena acontece apenas entre os dois, a plateia, ainda um pouco enojada consegue rir, agora quando os atores invadem público se movimentando pelas cadeiras, cuspindo banana pra todos os lados tentando cumprir o desafio, a reação muda instantaneamente. Aquele riso dá lugar a uma clara sensação de desconforto. Somos desestabilizados o tempo inteiro e essa sensação perpassará toda a obra.

Fotografia de Vinicius Gomes


Fotografia de Vinicius Gomes
Há uma cena que denominarei aqui como “Quadro do Waldemar”, onde um personagem bufão desse cabaré carrega em si uma imagem profundamente cômica e também abjeta. Waldemar é um homem sujo, com cheiro forte de cachaça, sem os braços e as pernas. Um coxo que é ridicularizado pelos outros e até por ele mesmo. Waldemar fala com Deus, que aparece para ele a partir de uma voz misteriosa e que o faz realizar “atos de fé” para alcançar seu desejo: ter seus braços e suas pernas de volta. Tais “atos de fé” vêm carregados de situações que ironizam a igreja e a relação desta com os mais necessitados. Spoiler: nunca mais ouvirei a canção “Hallelujah”, do falecido compositor Leonard Cohen da mesma maneira. O que poderia ser revisto era o fim dessa cena, que é a última cena do espetáculo. O fim dela sugere que algo em seguida vai acontecer, mas nada acontece. O espetáculo acaba e fica no ar uma sensação de “incompletude”. Não que o trabalho não possa sugerir isso, mas da maneira como terminou, deu-se a entender que as cenas continuariam.  

  

Em Cabaré nada é explicado, nada é defendido. Não há um posicionamento político apresentado ao espectador que o conduza nas interpretações dos quadros, as situações são colocadas diante do público. Os artistas, por exemplo, não se declaram opostos aos atos de violência simbólica da instituição religiosa cristã, não criticam as vaidades artísticas, não dizem absolutamente nada, no entanto, a força desse “silêncio” está exatamente nas ações apresentadas diante de nós, tal como na cena da pseudo-cantora à procura da fama. Cabaré das Desgraças é uma obra profundamente política, e é exatamente nessa não autodeclaração que o trabalho se mostra até mais político.
Há um elemento explorado no trabalho: as relações entre o cômico e o desconforto a partir das ações dos personagens/artistas. Não conseguimos rir de tudo sem ao mesmo tempo nos sentirmos enojados e espantados com determinadas situações provocadas em cena. Seja através do show de excrementos salivares que o “casal” realiza, ou de um cadeirante que utiliza sua perna já inutilizada para quebrar cocos. Estamos o tempo inteiro entre o conforto e o desconforto. Os artistas conseguem conduzir muito bem a instabilidade do público e o tempo inteiro somos desestabilizados.
Cabaré das Desgraças não teve seu nome escolhido à toa, creio que a decisão pelo nome da obra tenha sido bastante assertiva (longe de mim querer definir o que é bom ou não para o nome de um trabalho, a questão não é essa), pois o nome carrega a sensação que o trabalho mobiliza no espectador. É uma festa, é um evento único, mas é repleto de situações desconfortáveis, desestabilizadoras e incômodas.
Um brinde à festa, ao teatro e à putalhaçaria! 


Ficha Técnica:
Criação: As Dez Graças de Palhaçaria
Elenco/Desgraças: Alysson Lemos, Caroline Holanda, David Santos, Edivaldo Férrer Igôr Cândido, João Victor e Rayane Mendes.
Fotografia: Vinícius Gomes






[1] Ítalo Rui é ator, formado em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas. É mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará, além de ser colaborador e responsável pela sessão de críticas na Revista Arte Documenta.


Texto completo em PDF


_________________________________________________________________________________

#PUBLICIDADE: Que tal aprender sobre Desenho Realista com o artista Alexandre Porto? Dá uma conferida clicando aqui!