Fetiches Tombados



Marllon Tamboril[1]

Neste texto-experimento escrevo com fragmentos, com partes minhas e de outros, com pedaços de paisagens que junto para dizer da cidade em que aporto para conhecer e fico para viver conhecendo,


O rio que corre ao lado deste velho porto já trouxe e já levou diversas coisas grandes e pequenas, admiráveis e abomináveis, vivas e mortas, estranhas e amigáveis, ciclos de des-envolvimento, eldorados, gringos e arigós, esperançosos e empresários. Ele oferece a quem o observa com olhos fechados a impressão de haver palavras que escorrem junto aos troncos de madeira levados pela correnteza, palavras com as quais são escritas uma história, diferente à dos historiadores que remontam o passado a partir de relatos vitoriosos, esta história que o rio nos conta é a mais verossímil deste lugar, é a história que a poesia da beira nos motiva a contar.
 
A forma: uma metodologia de montagem literária benjaminiana encontrada em um caderno-estudo-texto-trovão que utiliza “os farrapos, os resíduos” históricos para fazer-lhes justiça, apontando para a necessidade do rompimento com o naturalismo histórico vulgar, ressaltando a parte conclusiva de um pensamento construção/destruição que se contrapõe aos processos historiográficos totalizadores. 

Ter a poesia como possibilidade de um caminho outro: senda da margem que nós percorremos em direção às implosões necessárias, adentrando paisagens, transpassando-as e nos deixando como narrativa-ato-olhar-sensível.

Nesta cidade onde a mitologia amazônica é tão forte quanto o folclore imbuído nos empreendimentos que se fazem pioneiros em demolição da região e no apagamento de outras narrativas deste lugar desde o início dos adentramentos por parte das empresas colonizadoras a partir do século XVII (AMARAL, 2017) no território. Mas em seus traçados, do ocorrido e do agora, estão as marcas e memórias que sobrevivem e contam outras histórias.     
    
“Assim, nasce Porto Velho, às margens do Rio Madeira, segregada e irregular: segregada na medida em que por uma linha divisória era possível visualizar as diferenças entre seus habitantes. De um lado, Porto Velho feito imagem e semelhança de seus criadores norte-americanos como símbolo de progresso e do outro, a Porto Velho de todas as cores e nacionalidades, composta pela escória que buscou sobrevivência ou exílio. Separados por uma fronteira intransponível baseada no preconceito e exploração, em contradição entre o discurso do progresso e da modernidade.”    (TAMBORIL e SILVA, 2017, p. 303)

Um porto pode ser destino de chegada, ponto de partida ou área de passagem. Este é por causalidade própria o lugar de encontros, convergências, despedidas e apartações.

Consideremos o nome de um local como uma potência subjetiva que suscita nele mesmo relações e significados. Somemos a isto os discursos e intentos dos que vêm, vão ou passam. Tal como nas Cidades Invisíveis de Calvino onde percebemos as imbricações entre modos de vida, costumes, normas, convenções, estados de espírito e comportamentos dos habitantes com as identidades e sentidos de lugar.  

“É possível encontrar no argumento da psicoesfera, de Milton Santos, os sentidos que sublinham essas experiências dos sujeitos na relação com o espaço. A psicoesfera, segundo Santos, é o resultado das crenças, desejos, vontades e hábitos que inspiram comportamentos filosóficos e práticos, as relações interpessoais e a comunhão com o Universo (1994, p. 20).” (ZUIN, 2013, p. 71)

“[...] Supunha-se inicialmente que permaneceria sempre somente local de transbordo das cargas entre a estrada de ferro e os vapores que faziam a linha de Belém do Pará. Isto é, supunha-se que Porto Velho nunca seria mais do que um local de grandes armazéns, oficinas e residências para o pessoal empregado da ferrovia. E por isso mesmo, criavam-se dificuldades para que residissem em Porto Velho os que não estavam diretamente ligados à ferrovia.” (FERREIRA, 2008, p.331)

A partir destes apontamentos poderíamos afirmar que Porto Velho, enquanto espaço relacional que é, está fixada como lugar de trânsito e decadência no imaginário coletivo. Seria esta então a leitura de cidade que muitos (de dentro e de fora) têm e que por isso encontra-se completamente atada aos vários ciclos econômicos – de exploração – que a retumbam? Provavelmente sim. Porém existem ainda outros assentamentos de significados surgidos das ocupações em terrenos e zonas periféricas que produziram sentidos diferentes para este território, embora tenham chegado junto aos movimentos de colonização e dominação, eles distinguem-se pelo sentimento de pertencimento.  

Paisagem cálida: Da beira do rio assistimos o sol que sessa ao entardecer descendo suavemente entre as nuvens rosadas por trás de um além verde. É sempre tão bonito que quase nos faz esquecer que aquele mesmo círculo quente e luminoso quando a pino no céu insistia em derreter nossos corpos.

“Mormaço na flor, na pele, no suor, nos olhos, no corre daquela senhora que anda pra cima e pra baixo com sua filha encaixada no colo, mormaço na fila dobrando a esquina da Caixa Econômica, o olhar que se perde numa lembrança de não sei o que, aqui pro rumo do norte é bem forte o troço, dizem que somos terceiro mundo, mal educados, mal falados, esquentados, criadores de caso e sem memória, dizem que a cidade é de todos só pra gente acreditar que ela é de ninguém, mormaço no pneu da bike encostando no asfalto quente, mormaço naquele tempo fora do ar do escritório, pra pegar uma marmita e um suco de graviola, mormaço no rosto do pedreiro velho que conhece a cidade como as marcas da mão, mormaço do suor escorrendo, evaporando, um horizonte quente subindo do chão. Quem escuta a voz da cidade? Quem ainda acredita nas lendas dos deuses colonizadores? Quem se senta para escutar os contadores de história do desenvolvimento? Demolidores que confundem lucro com sustento. Eles que nem vivem aqui, eles que nem moram aqui, ficam de longe por que não aguentam nosso mormaço. Escuta aqui, ta me ouvindo? Esse corpo aguenta é cachaça, a minha coragem não fica de ressaca, esse calor me leva pra água, os meus olhos enxergam o rio, meus ouvidos escutam os pássaros, eu sou daqui, bem daqui, onde a minha memória costura, como essa gente acolhedora e cheia de esperança, que quando precisa sabe enfrentar o sol.” (Elizeu Braga, 2017)[2]
Paisagem terrena: A poeira avermelhada que sempre aparece nos meses de estiagem forma uma fina camada nos vidros dos ônibus. É como um filtro fotográfico com efeito envelhecido nas janelas por onde olhamos as ruas durante os trajetos por esta cidade que até o próximo inverno ficará cada dia mais encoberta deste tom de ferrugem. O que a terra quer nos dizer com isso
Figura 02 - Título: Patrimônio II [Série: Paralém] Fonte: Acervo pessoal

A mitologia férrea: “Seu principal produto repousa, adormecido, sobre os trilhos e vagões abandonados da famosa estrada ferroviária, mesmo que pouco daquela época possa ser visitado. Conhecida como Ferrovia do Diabo, por conta do número elevado de trabalhadores que morreram durante a construção dos seus 366 km de extensão, essa estrada foi construída, entre 1907 e 1912, para ligar a cidade à Guajará-Mirim, e escoar a borracha extraída na região.
Aquela obra, de proporções exageradas para a época, chegou a contar com o esforço de 20 mil trabalhadores caribenhos, norte-americanos e europeus. Mas o que ninguém havia comentado era que, a mesma região que proporcionava novas oportunidades de trabalho, oferecia também um cenário adverso que incluía perigosas cachoeiras, o risco de contrair doenças tropicais, como a malária, e até violentos ataques de índios locais.” (FERREIRA, 2008, p. 158)

“As paisagens naturais, tais como as do norte do país, estavam identificadas à barbárie, ao vazio, à selvageria, justificando a elaboração de projetos e a concretização de uma série de ações políticas “civilizatórias” que justificavam o papel que aquela elite letrada reservava para si mesma naquele contexto: o de civilizadora, tal como se entendia. Portanto, se necessário fosse para civilizar a região amazônica a construção de uma estrada de ferro, por mais cara e dificuldade que tal empreitada se apresentasse, ela deveria ser construída. E assim foi, mesmo que logo em seguida a sua conclusão, posta em desuso, transformada em sucata, em ruína de um futuro.” (MARTINS, 2013, p. 14)

Ao contrário do que afirma Martins, as construções que fizeram parte deste empreendimento colonizador, não estão completamente desativadas, elas são hoje fetiches tombados. 

“Contar a história dos detentores de poder faz parte da gênese dos monumentos. Desde os tempos mais remotos monumentos são erguidos para comemorar a versão dos vencedores e o espaço urbano tem sido o locus por excelência desta prática. [...] Os Monumentos e arquitetura (e a monumentalização da arquitetura), ao longo dos tempos, têm servido para solidificar a versão dominante da história, seja pelo investimento em materiais duráveis e grandiosidade nas obras de Estado, seja, a posteriori, na política de preservação pautada na fisicalidade do objeto arquitetônico. Importa lembrar que o ambiente construído é um sistema semiótico revelador dos povos. O discurso arquitetônico não é indiferente às instituições que conformam cada sociedade. Em outras palavras, a arquitetura produz discurso, atribui sentido e constrói realidade: é um dispositivo de produção de verdades. [...] Assim como as estátuas e monumentos, a ocupação dos territórios e a sua demarcação simbólica é, de per se, estratégia de dominação.” (MOASSAB, 2013, p. 25)

Figura 03 - Título: PATRIMÔNIO (2014). Fonte: Acervo pessoal.
Há em Porto Velho um demasiado fetichismo pelos monumentos da época da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, a exemplo As três Caixas D’água, utilizadas como símbolo da cidade por órgãos públicos, presente na bandeira oficial do município e expressamente representadas em pinturas expostas na Casa da Cultura. Em nossa compreensão este fetiche é, como propõe Andréia Moassab, uma monumentalização da História Oficial,

“[...] os monumentos escultóricos ou arquitetônicos compõem o ambiente urbano, inscrevem-se na paisagem da cidade e são, sobretudo representações simbólicas dos diversos momentos da história [...]” (AZEVEDO, 2003, p. 74)

Contrapondo-me intencionalmente à hegemonia androcêntrica consagrada através de monumentos como As três Caixas D’água[3], do qual ressalto o aspecto do formato fálico para caracterizar esta lógica fetichista (MOASSAB, 2013) no desenho PATRIMÔNIO (ver fig. 03, pag. 08), produzido em 2014 e exposto na Coletiva de 2014 da Casa de Cultura Ivan Marrocos, em Porto Velho, ao lado de pinturas que retratavam romanticamente o mesmo objeto em questão.

REFERÊNCIAS

AMARAL, José Januário do; OLIVEIRA, Valéria; ALBUQUERQUE, Herbert Lins de; (Org.). Território, Identidade na Amazônia e Outras Reflexões. São Carlos: Pedro & João Editores, 2017.
AZEVEDO, Néle. Monumento Mínimo. 2003. Dissertação (Mestrado em Artes) – Universidade Estadual Paulista, São Paulo. 
BENJAMIN, Walter. As passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.

FERREIRA, Manoel Rodrigues.  A Ferrovia do Diabo. Ed. 10ª.  São Paulo: Melhoramentos, 2008.

MARTINS, Marcelo Sabino. A Estrada de Ferro Madeira Mamoré como marco da “civilização” em Porto Velho: Perspectivas de uma História do/no Tempo Presente. PDF. Disponível em: < http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364712959_ARQUIVO_SABINOMARTINS,MarceloAEstradadeFerroMadeiraMamorecomomarcodacivilizacaoemPortoVelho.pdf>. Acesso em: 05.05.2018

MOASSAB, Andréia. O patrimônio arquitetônico no século XXI para além da preservação uníssona e do fetiche do objeto. PDF. Disponível em: < https://revistas.unila.edu.br/index.php/sures/article/viewFile/71/92>. Acesso em: 04.05.2018 

TAMBORIL, Francisca A. B.; SILVA, Ricardo G. C. A cidade de Porto Velho e a questão fundiária. In:  José Januário de Oliveira Amaral; Valéria Oliveira; Herbert Lins de Albuquerque. (Org.). Território, Identidade na Amazônia e Outras Reflexões. São Carlos: Pedro & João Editores, 2017.      

ZUIN, Aparecida L. A. Porto Velho - RO: na beira, na linha, na fronteira. In: Edgar Cézar Nolasco e Vânia Maria Lescano Guerra. (Org.). O sol se põe na fronteira: discursus, gentes e terras. São Carlos: Pedro & João Editores, 2013.




[1] Artista Visual e mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará.
[2] Transcrição do poema ‘Mormaço’, gravado no Mercado Central de Porto Velho. Disponível em: <https://soundcloud.com/elizeu-braga/poema-mormaco>.  Acesso em: 03.07.2018. 
[3] [...] Localizadas na Av. Carlos Gomes c/Av. Rogério Weber, no bairro Caiari. Foram projetadas e construídas pela Chicago Bridge & Iron Works, de Chicago-Estados Unidos. Esta informação consta em placa de ferro cravada nas pilastras de cada uma delas. As Três Caixas D’Agua vieram dos Estados Unidos para cá, desmontadas em kits, no começo do século XX para servirem as obras da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e à população da época. A primeira foi instalada no ano de 1910 e em 1912 as outras duas. Funcionaram até a década de 1950. Cada reservatório possui capacidade para armazenar duzentos mil litros d’agua. Os tanques são de forma cilíndrica, cobertos com chapas de metal de forma cônica e a base em formato côncavo. São elevadas do chão por quatro colunas de ferro. Circundadas por uma passarela com parapeito metálico, por onde se chega através de uma escada. Elas são vistas de vários pontos. São símbolos da cidade e estão estampadas na bandeira do município, por serem o memorial histórico do surgimento desta cidade e numa justa homenagem à construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Nas comemorações natalinas e de final de ano, recebem iluminação colorida passando a ser um lindo cartão postal. Ponto obrigatório para fotografias de visitantes/turistas (FEITOSA, 2007). Disponível em: <http://www.gentedeopiniao.com.br/noticia/voce-sabia-que-as-tres-caixas-dagua/23445>. Acesso em: 03 de julho de 2018.

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