Urubus: Um teatro de invasão


Ítalo Rui[1]
   
Na noite do último dia do mês de abril, no Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), na cidade de Fortaleza-CE, apresentou-se o espetáculo Urubus, trabalho realizado pelas Cias Pavilhão da Magnólia e Prisma das Artes. As observações que aqui serão feitas tratam de um olhar particular, de uma apreciação que se deu em um momento específico a partir de um único ponto de vista. Meu aviso será justificado mais a frente.  
Uma corte invade a Praça do Centro Cultural Bom Jardim. Todos os personagens estão felizes, vibram e regozijam a morte do rei. Viva, o Rei está Morto! Somos convidados a escolher três lugares e cada lugar debaterá aspectos relevantes da nossa sociedade. Escolho o Lugar da Violência, talvez porque até poucas horas atrás eu estava conversando com uma amiga sobre nosso sentimento de insegurança na cidade de Fortaleza. Escolhas feitas, o público é conduzido para cada área de debate. O trabalho tem como espaço de atuação a rua e é na rua que esses temas urgentes serão debatidos, pelo menos é o que se espera. Urubus acontece em três espaços distintos ao mesmo tempo, no entorno do CCBJ, pelas ruas do Bairro Bom Jardim. Para saber o que aconteceu e o que foi debatido teria que assistir ao trabalho no mínimo três vezes. Infelizmente não pude, então essa crítica tentará dar conta de uma apreciação parcelada.
A “obra” satiriza as heranças contemporâneas de nossa dominação colonial. Em nossa frente há três figuras caricatas, três senhoras representantes da corte, de uma elite branca e europeia que goza da cara do público. Mesmo que o figurino remeta a uma época diferente da nossa e destoe do local em que a cena está sendo realizada (uma rua semi asfaltada, ao lado de um rio poluído), é muito claro perceber que os resquícios do projeto colonial ainda estão fincados em nossa sociedade e latentes em nosso modo de vida. A obra aponta para essas questões. As jovens senhoras falam do pobre, das suas inseguranças, do crescimento da violência, do medo de sair nas ruas e morrer, de todas as causas realizadas por um projeto de governo que beneficia o progresso de uma elite e torna a pobreza uma abjeção. Isso fica muito claro em uma determinada cena em que são representados os programas de tv que tratam o homem pobre como uma figura abjeta, um asco, um coitado que precisa de ajuda. Silvio Santos que o diga, MÁ ÔÊ, HAHA.   

Foto de Carol Veras
Num dado momento, o espetáculo “se une”, as cenas, antes separadas se organizam em uma só e todo o público acompanha tudo ao mesmo tempo. Somos levados pelo trabalho, caminhando pelas ruas do bairro, invadindo as ruas, calçadas, parando o trânsito, subvertendo a dinâmica daquele lugar. Antes estávamos em um único espaço, agora a obra percorre o bairro, e sai solta pela rua, interagindo com os transeuntes desavisados e o público acompanha o trabalho. Vale fazer uma pausa na descrição e falar sobre o público. As pessoas são tomadas por alguma catarse coletiva e saem festejando, gritando, pulando, rindo, pelas ruas, imitando os atores, tomados por alguma força que o espetáculo imprime. O público fica fora de si e essa energia coletiva ganha proporções maiores. Crianças e adultos gritam pelas ruas, festejam a morte do rei (que rei?), vibram a submissão de uma índia que os membros da corte apresentam à todos. Uma índia, personagem que contrasta com toda aquela energia coletiva. Ela não está feliz. Ela claramente está perturbada. Foi explorada, vendida como mercadoria, tratada como selvagem. E mesmo que as reações dela sejam contrastantes com a daquela plateia fora de si e dos personagens da corte, ninguém a ajuda. Existe um momento bastante cruel em que somos direcionados à uma banca de churrasco e os atores em alto e bom som gritam oferecendo a carne da índia como a mais barata do mercado, a plateia vai a loucura, vibra. É uma reação que fala muito de nós, muito da nossa total desumanização. De uma violência pós-colonial que está pulverizada nas relações sociais e que ainda pulsa no seio das sociedades contemporâneas. Urubus são os outros, urubus somos nós.

O tempo todo somos fisgados pelo trabalho. Quando pensamos que já acabou, surge uma nova cena, uma nova potência que reconfigura a plateia, a (des)organiza, não existe mais espaço que separa obra e público, tudo está imbricado, tudo está no mesmo bolo. Um globo terrestre enorme e branco invade a cena e os personagens da corte lutam, brigam entre si e com a plateia para possuir o controle do mundo, para lutar pelo seu pedaço de terra/mundo. As reações são as mais diversas. Há repulsa de poucas pessoas, felicidade em outras, estagnação em uns, incômodo em outros, mas o que impera ali é uma vibração da grande maioria.
O trabalho finaliza onde começou: dentro do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ). Os atores descaracterizam-se e ganham outras configurações. Retiram seus figurinos, ficam quase desnudos, banhados com tinta preta e vermelha e realizam uma dança coletiva marcada por um discurso proferido por dois atores. A felicidade e exacerbação até minutos atrás dá lugar para um discurso altamente político e crítico acerca dessa vida pós-democrática. As palavras do discurso se repetem. A obra tem pulsão de emergências temáticas. Ela não dá conta de tudo.
Há em Urubus outra lógica de apreciação da obra. Aqui, o público não acompanha tudo sentado, ou em pé na rua vendo o trabalho acontecer. É preciso se deslocar, percorrer trajetos que não serão feitos ao mesmo tempo. Não basta simplesmente sentar e apreender os signos, os elementos, as energias. É preciso se descolar com o trabalho, caminhar e escolher o que queremos ver. Subvertendo a lógica de apreciação, a obra estimula no espectador a própria percepção do espaço onde ela se realiza, coloca o público diante de uma realidade cotidiana que é ressignificada pelo trabalho. A rua deixa de ser apenas uma rua. A obra reconfigura a paisagem urbana, deixa ali marcas, marcas no espaço, marcas nos moradores de Bom Jardim e em seus transeuntes.


Ficha Técnica:
Direção: Héctor Briones
Dramaturgia: Criação Coletiva
Colaboração Dramatúrgica: Orlângelo Leal e Luisete Carvalho
Figurino: Joaquim Sotero
Adereços: Beethoven Cavalcante
Direção Musical: Orlângelo Leal
Elenco: Beethoven Cavalcante, Denise Costa, Edivaldo Batista, Eliel Carvalho, Gabi Gomes, Gal Saldanha, Jota Júnior Santos, Luisete Carvalho, Nelson Albuquerque, Raimundo Moreira, Silvianne Lima e Wallace Rios.
Realização: Pavilhão da Magnólia e Cia Prisma das Artes




[1] Ítalo Rui é ator, formado em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas. É mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará, além de ser colaborador e responsável pela sessão de críticas na Revista Arte Documenta.


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