Ainda bem que não tivemos filhos, só cicatrizes

Por Ítalo Rui[1]

“Um encontro sobre os desencontros, amores e desamores. O que passa e o que fica. Uma peça sobre as marcas dos nossos afetos em nós”. Este trecho foi retirado do perfil no Instagram do Grupo Garagem, divulgando a nova montagem do coletivo que se apresentou dentro da programação do evento Mostra Por Elas, realizada no espaço Ateliê 23, em novembro de 2019. Ainda bem que não tivemos filhos é quase um solo de teatro, escrito e executado pela atriz Priscilla Conserva. Digo que é quase um solo, porque em cena, também está Elson Arcos, musicista de formação, e que realiza algumas intervenções sonoras na cena.
A obra flerta com a linguagem do teatro performativo para falar sobre amor. Um tema tão clichê e tão gostoso de ver nas salas dos espetáculos que não cansa jamais. Aqui, apesar da temática levantada pelo grupo ser muito recorrente desde que o mundo é mundo, há certas preciosidades que fazem de Ainda Bem que não tivemos filhos uma obra melosamente gostosa e dolorida de assistir.
As preciosidades que me refiro, dentre tantas, são a cerveja rotulada com os dizeres “NO CU”. Afinal, quem nunca, simbolicamente tomou NO CU quando se trata de amores e desamores? Quem nunca tomou NO CU quando acumulamos expectativas em relação alguém que não nos corresponde, porque a construção social do que deve ser homem e mulher acaba prejudicando o possível match? A atriz tomou NO CU muitas vezes, em cena e na vida! Tomou tanto que escreveu um texto que narra suas vivências amorosas. Mas a encenação não cairia no equívoco de falar apenas de uma única pessoa, ela universalizou as vivências de Conserva, fazendo-nos mergulhar nessa história e compartilhar das delícias e dores do amor.
Mesmo que a grande maioria das cenas vá para o lugar do riso, a temática também dá contornos doloridos e nos pega, às vezes, de surpresa, como na cena em que a atriz se direciona em cada pessoa da plateia com uma flor enquanto canta a música “Amor, meu grande amor”. É quase como um pedido, uma necessidade em ser amada por alguém, ou “alguéns”. A atriz, ali, praticamente mendiga afeto. Creio ser esse um dos pontos mais altos da peça.


Apesar das preciosidades construídas em cena, existem alguns cuidados que precisam ser (re)pensados com mais cautela. Exemplifico isto na cena das quedas. O ato de cair em Ainda bem que não tivemos filhos é um símbolo extremamente forte e que evidencia nossas próprias quedas amorosas, nossas derrotas pessoais. No entanto, a excessiva repetição, sem um apuro técnico da atriz pode acabar indo de encontro ao que fora proposto pela cena. As quedas, deveriam, teoricamente, nos pegar de surpresa e nos machucar. Só que a ausência de um cuidado técnico que reforçariam esses efeitos no público, produziu apenas o reconhecimento do símbolo, e não a produção dos efeitos dele no espectador. Ou seja, reconhecíamos ali o significado das quedas, entendemos que reforçava as desilusões e desamores vividos por ela, e por nós também, mas o efeito das constantes quedas não nos alcançou, nos arrebatou. Creio que se esses efeitos nos alcançassem, a cena ganharia muito mais, com fôlego e força.
Gostaria de retomar para o início do texto quando me referi às intervenções sonoras produzidas ao vivo pelo musicista Elson Arcos. É notório a força que as cenas ganham quando existe uma execução feita ao vivo, e que dialoga com o que Priscilla faz em cena. O ruído das notas do cello, às vezes descompassados, às vezes ritmados, acompanham todo o gráfico de cenas proposto pela encenação de Lu Maya. A produção desses ruídos é quase como os próprios ruídos internos da persona de Priscilla Conserva. Ruídos, ruinas, marcas do que ainda ficaram neste ainda bem. Ainda bem que só ficaram as cicatrizes, não ficaram os filhos. O espetáculo é claro no nome e na temática, a sensação que saímos ao término da peça é exatamente essa: ainda bem que não tivemos filhos.

Ficha Técnica:
Dramaturgia e atuação: Priscilla Conserva
Direção e iluminação: Lu Maya
Sonoplastia: Elson Arcos
Elementos visuais da cena: Frank Kitzinger
Fotografia: Larissa Martins
Ass. Produção: Andreza Afro Amazônica.      



[1]  Ítalo Rui é mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará e ator pela Universidade do Estado do Amazonas, além de ser colaborador e responsável pela sessão de críticas na Revista Arte Documenta.



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