Crítica: Helena

 

 

Helena

 

Por Ítalo Rui[1]

 

Luz em penumbra, um amontoado de corpos próximos uns dos outros. A luz de contra intensifica-se lentamente e esses corpos movimentam-se, ainda em conjunto, abrindo espaço para uma voz masculina que toca sanfona num tom meloso e que diz: Helena não é nem de longe uma figura mitológica. Helena nasceu ali, naquele exato momento. A partir desse início é que Helena vai ganhando massa, ossos, membros, textura, corpo e voz. Helena não pode falar por ela, mas fala através de oito corpos no palco.

Helena é, na definição do grupo Ateliê 23 mulher-mãe-professora-brasileira-resistência. E essa nomenclatura é revisitada em vários momentos durante a narrativa da peça. Neste novo trabalho, a companhia, que foi contemplada através do projeto Sesc Residência[2], buscou inspiração na história de vida de Helena, mãe de Taciano Soares, diretor da peça, e de acordo com o coletivo ela é também as bases de sustentação da própria trajetória do grupo, que fez cinco anos em 2018.

Trata-se de um espetáculo que faz uma homenagem à progenitora de Taciano, que direta e indiretamente também é progenitora da companhia na qual ele trabalha. A mulher-mãe-professora-brasileira-resistência é, na verdade, uma mulher comum, presente em cada lugar desse país. A universalização da Helena de Taciano fica muito clara na obra. Não vemos ali no palco, um espetáculo que trata exclusivamente da história de vida de um único indivíduo, o trabalho teve o cuidado de apresentar uma Helena real, concreta e muito presente na história de vida de muitos brasileiros. O espetáculo apresenta de forma fragmentada e não cronológica mais camadas dessa Helena, e aqui tomo a liberdade de criar mais uma nomenclatura, a de mulher-mãe-oprimida-silenciada-dolorida. Essa outra Helena também é iluminada na obra, não apenas uma vez, mas várias. A trajetória de vida da figura-inspiração do coletivo já nos tira o ar, nos coloca em lugares de desconforto e admiração. Sua trajetória é potente e me interessa analisar como o grupo articula todas essas informações no desenvolvimento do trabalho.

Comecemos pela relação palco plateia estabelecida na apresentação do Teatro Amazonas. Creio que a obra convoca o público o tempo inteiro à uma relação de maior proximidade, quase como um grande festejo, uma celebração. No entanto, essa convocação se perde em alguns momentos devido ao formato palco italiano. Penso que o trabalho poderia articular e potencializar essa relação através do formato arena, ou semi arena, aproximando mais o público da obra. Creio que assim seríamos mais capturados em cenas importantes à peça, já que capturar é uma estratégia que Helena realiza o tempo inteiro.

            Refletindo sobre a dificuldade ao me conectar com o trabalho devido à relação palco/plateia dentro do Teatro Amazonas, tentei analisar a própria trajetória do grupo, desde seu surgimento na cena manauara. Acho que vale uma observação pertinente relacionada à política cultural da cidade que acaba afetando as produções locais. Explico. O grupo Ateliê 23 possui uma sede no centro de Manaus, um teatro de bolso com capacidade para aproximadamente trinta ou quarenta pessoas. Desde o surgimento da sede do grupo, em 2015, o coletivo vem sempre apresentando seus trabalhos para este formato, já que ainda é difícil que os artistas da cidade consigam utilizar os teatros maiores num período regular para temporadas. Logo, devido à falta de espaços do próprio poder público, as companhias, coletivos e artistas da cidade começaram a abrir seus próprios espaços e a desenvolver seus trabalhos dentro deles. Isso sinaliza uma prática que tem se tornado bastante comum em Manaus: grupos apresentando espetáculos para formatos menores, com capacidade de público reduzida. Já que as condições para ocupar um espaço público, como os Teatros ainda são difíceis (hoje, essa realidade está mudando, mas ainda perdura), a alternativa encontrada e muito bem-vinda é que os próprios artistas estão abrindo suas sedes e desenvolvendo seus trabalhos nesses espaços, ocupando-os com as condições que eles oferecem. Então, penso que ao ocupar um espaço como o Teatro Amazonas, os atores do grupo que tem o costume de trabalhar na sua sede, que é um espaço menor, poderia encontrar dificuldades para dar conta de um espaço maior. O corpo se adapta às condições que se apresentam, nesse caso, não estariam os corpos dos atores (e eu, como ator também me incluo nesta observação) acostumados com um espaço reduzido e, portanto, não conseguindo dar conta de um espaço maior?

            Destaco uma cena potente feita por Taciano, mas que infelizmente não foi completamente vista, exatamente pela relação do palco italiano, na qual o ator posiciona-se no centro do palco e faz um depoimento relacionado à sua infância. O artista narra, de maneira afetiva e delicada seu desejo de ver o chão da casa repleto de cerâmicas, já que ainda naquela época, o chão da casa de Helena era de terra batida. Sabíamos que havia algo no palco, abaixo dos pés do ator e em boa parte do espaço de atuação, no entanto, a vista ficou comprometida e o cenário, desenhado no chão acabou se perdendo. Havia ali um signo que se perdeu. Ainda tenho dúvidas se só a iluminação resolveria o problema, creio que a questão resida mesmo no distanciamento promovido pela relação palco/plateia.  


 

 

            Gostaria de retomar para aquilo que chamei de captura. Há em Helena, mecanismos de captura que são tecidos pelos atores e investidos pela direção. Todas as músicas são cantadas sem a presença de nenhuma aparelhagem eletrônica, a sonoridade da cantoria aproxima o espectador, afeta e nos atinge. Devo enfatizar que não é comum uma frequência de espetáculos em Manaus com atores que cantam, no entanto, a companhia resolveu investir nisso. Em Helena todos os atores cantam, seja formando um coro ou em momentos separados, como os vários solos da atriz Krishna Pennutt que aqui precisa ser destacado com uma das estratégias de captura. Além da preciosa potência vocal de Pennnutt, a letra que sai de sua boca é simbólica, como por exemplo, quando ela diz “eu preciso voltar a andar”, repetindo a frase várias vezes, quase como um mantra, proferido por Helena e por tantas outras.  

            Finalizo meu texto reforçando o compromisso da companhia em não romantizar a trajetória da mulher oprimida. Um erro que seria cruel tanto para a homenageada como para as outras Helenas desse Brasil profundo. Mas, ao mesmo tempo, a obra também não reforçou uma Helena que é apenas superação, outro erro que também seria cruel para a inspiração da peça, já que ela estaria sendo enquadrada numa narrativa de dor ou em uma narrativa de superação, como se sua vida dependesse apenas desses dois enquadramentos. Helena é tanto mulher-mãe-oprimida-silenciada-dolorida quanto a mulher-mãe-professora-brasileira-resistência e muitas outras nomenclaturas. Para saber quais nomenclaturas ainda seriam criadas, creio que a peça e as Helenas precisam voltar a andar. Porque ela é real, é concreta. Porque Helena não é nem de longe uma figura mitológica.

 

Ficha Técnica:

Elenco: Daniel Braz, Eric Lima, Francine Marie, Isabela Catão, Jean Palladino, Krishna Pennutt, Laury Gitana e Taciano Soares.

Dramaturgia: Pricilla Conserva, Taciano Soares e Eric Lima

Cenário: Taciano Soares

Iluminação: Daniel Braz

Figurino: Eric Lima

Trilha Sonora: Number Teddie

Fotografia: César Nogueira

Encenação: Taciano Soares

Assistência de Encenação: Eric Lima.



[1] Ítalo Rui é ator e pesquisador, mestre em artes pela Universidade Federal do Ceará e bacharel em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas.

[2] O SESC Residência é um projeto no qual a instituição viabiliza a criação de um espetáculo de um grupo da cidade, previamente selecionado através de um processo seletivo público. O grupo aprovado possui todas as estruturas necessárias para a realização de uma montagem, ocupando o espaço do SESC durante quatro meses.  



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