BR TRANS: até quando precisaremos falar sobre Transfobia?


Ítalo Rui[1]

No Brasil de 2018 os números sobre homicídios de pessoas da comunidade LGBT, em especial pessoas TRANS é enorme. Também é enorme o número de pesquisas em sites pornográficos ligados ao prefixo TRANS. É curioso notar que dentro da esfera pública, do domínio social, pessoas que não correspondem aos padrões da heteronormatividade são distanciadas, passam por processos dolorosos de exclusão social e/ou são classificadas como a incorporação do demônio (dentro de determinadas religiões), e por outro lado, esse “corpo abjeto”, que não consegue dar conta de tais padrões normativos é considerado como um corpo exótico dentro do domínio privado e das subjetividades ocultas. Essas questões permeiam o espetáculo BR Trans, do Coletivo artístico As Travestidas, em Fortaleza -CE.
A obra é uma tradução sensível do artista Silvero Pereira, que coletou histórias de Travestis, transformistas e transexuais em várias cidades brasileiras. Tais histórias se entrelaçam e seguem um fluxo de emoções que perpassam o riso, a comoção, a reflexão.
Sair de BR Trans, andar pelas ruas de Fortaleza ou de qualquer cidade do país e avistar uma dessas personagens narradas na peça não seria mais a mesma coisa. Neste sentido, o espetáculo é um disparador da nossa consciência adormecida.
Essa força que o espetáculo joga no público é uma força que vem do ator. O espetáculo em si, apesar de trazer uma temática urgente, tem como sua maior potência o trabalho de ator empreendido por Silvero. Ou seja, não é uma obra que nos laça pelo o que já sabemos ou não sabemos, mas é uma obra que o ator consegue laçar o público pelo seu trabalho.
Em certos momentos, algumas projeções ao fundo tornam-se desnecessárias como aquelas em que aparecem imagens do ator, ou melhor, da sua persona andando nas ruas de uma cidade à noite, sem um sentido muito claro. Não sabemos se tal persona é de fato ele ou alguma outra narrada por ele. Tais imagens apenas aparecem, sem uma intenção muito clara.
Alguns elementos no trabalho passam um significado muito claro para o público de uma maneira extremamente visual, como a cena do abacaxi, em que o ator descasca a fruta ao mesmo tempo que narra o processo de libertação de uma pessoa Trans ao darem a ela a possibilidade de ser quem é, sem esconder suas cascas e medos construídos. Outro momento potente no trabalho são os nomes dessas pessoas marginalizadas que são escritas no corpo do ator. É uma forma poética de dizer que suas dores são sentidas por Silvero, e que essas dores humanas, também podem ser sentidas por nós.
No Brasil de 2018, de 2028, de 2038 ou de 2048 a peça ainda seria relevante Os números só comprovam isso.  Neste sentido ela não buscou seguir um viés didático, nem terminou com um tom professoral, nem de reflexão profunda sobre as transfobias, terminou com os traços da vida como ela é para essas pessoas. D.U.R.A. e C.O.N.T.Í.N.U.A. do jeito como foi ontem, do jeito que é hoje, do jeito que pode ser amanhã.


Ficha Técnica

Direção: Jezebel de Carli
Dramaturgia e Elenco: Silvero Pereira



[1] Ítalo Rui é ator, formado em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas. É mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará, além de ser colaborador e responsável pela sessão de críticas na Revista Arte Documenta.


Revisão de texto por Janaina Siqueira
Texto completo em PDF


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