De Wagner a Wilson: A ressignificação contemporânea do conceito de ‘‘Obra de Arte Total’’


Klaubert Oliveira[1]

Resumo: O presente artigo traz a reflexão de como o encenador norte-americano, Robert Wilson, ressignificou o conceito de ‘‘Obra de arte total’’, na cena contemporânea. Contribuindo para a abertura de novas possibilidades, dentro das criações cênicas, do século XX. Assim, como ocorreu no século XIX, ao ser formulada pelo compositor Richard Wagner, dando vazão a criação de vanguardas dentro da cena teatral.
Palavras-chave: Obra de Arte Total; Cena Contemporânea; Século XX; Vanguardas

Wagner, o simbolismo e a obra de arte total

No século XIX, os primeiros estudos de Richard Wagner[2], sobre ‘‘Obra de Arte Total’’[3], fizeram com que a encenação ocidental começasse a se tornar autônoma do texto dramatúrgico. A gênese dos estudos Wagnerianos, iniciaram a partir das convicções do movimento simbolista, que começara a ser fomentado na literatura, e nas artes visuais daquele período. Dessa forma, Poty (2013) afirma que graças ao compositor, a cena deixou de ser um subproduto da literatura, e se tornou um grupo de linguagens e, quando combinadas, produziriam sentido a modo de provocar reflexão ao espectador.
A união de todas as linguagens artísticas, era necessária para que a ideia de ‘‘Obra de arte total’’ se concretizasse. Wagner, argumentava que havia uma soberania na ópera, enquanto expressão artística, e que apenas esta era capaz de conseguir amparar todas as linguagens artísticas em uma obra unitária, mas a união dessas linguagens deveria acontecer de forma harmônica. Para isso o compositor sugeriu que, todas as linguagens artísticas abdicassem de suas especificidades artísticas, fazendo com que a função dessas linguagens, fosse unicamente ficar ao encargo da ópera. De acordo com Kamada (2010, p. 17):

O termo Gesamtkunstwerk, está relacionado a uma apresentação de ópera que conjuga diferentes linguagens artísticas como música, teatro, canto, dança e artes plásticas. Wagner acreditava que na antiga tragédia grega esses elementos estavam unidos, mas, em algum momento, separaram-se.


A inquietação de Wagner, para idealizar o conceito de ‘‘Obra de arte total’’, surgiu, pois, o compositor acreditava que ‘‘a pintura, a música e a poesia já haviam alcançado o fim de suas evoluções e que, para inovar, seria necessário combinar as linguagens artísticas em uma Gesamtkunstwerk.’’ (KAMADA, 2010, p. 17). O ponto de vista do compositor, era o da arte ser o espelho da sociedade, refletindo os costumes e preceitos da época. Portanto, de acordo com o compositor alemão, a sociedade daquele período estava entrando em decadência, consequentemente isso estava refletindo nas criações artísticas do período, como citado por Macedo (2006, p. 50):

A questão da decadência artística da modernidade estava correlacionada, para Wagner, à questão geral da decadência humana. Na nobreza do estilo grego, Wagner, via a possibilidade de transformação da vida moderna, de recuperação da realidade sensível e da atividade artística no sentido da instauração de um mundo mais fecundo, mais contente de si mesmo, mais pleno de sentido.

            Em virtude disso, Wagner observara a ópera como ‘‘única arte que podia juntar todas as outras: música, poesia, teatro, pintura, dança e escultura’’ (PEREIRA, 2008, p. 34). Esse pensamento vinha acompanhado da admiração de Wagner pela tragédia grega, vendo a encenação grega, como a expressão artística que melhor estabelecia diálogo com a sociedade da época, como nos é explicado por Macedo (2006, p. 51):

Toda a reflexão wagneriana sobre a arte está associada a uma apreciação de cultura grega e a uma crítica à cultura operística que vigorava na Europa desde os séculos XVI e XVII. Para não cair no risco de uma caricatura da tragédia, a proposta wagneriana era a de investigar as condições gerais da criação do drama grego, conhecer os fatores e circunstâncias que o possibilitaram não para tentar repeti-lo e restaurá-lo, mas para, a partir do conhecimento dessas condições, propor uma nova obra de arte. A obra de arte do futuro que embora, inspirada na cultura grega não era, em seu sentido estrito, uma repetição, uma restauração copiada da tragédia.
           
            Isso nos leva a crer que Wagner exaltava a tragédia grega, devido ao caráter popular que as encenações possuíam, pois eram assistidas por pessoas de todas as classes sociais. E isso, fazia com que a arte atingisse uma grande parte da população grega, porém as tragédias faziam os cidadãos atenienses tornarem-se mais reflexivos sobre si mesmo, suas escolhas, e ações – Ao contrário da comédia grega, que abordava questões coletivas e sociais.  Portanto, o papel da tragédia estava relacionado a reflexões individuais de cada um, como nos explicam Vernant e Vidal-Naquet (2002, p. 21):

Na perspectiva trágica, portanto agir tem um duplo caráter: de um lado, é decidir consigo mesmo, pensar no pró e contra, premeditar melhor possível os resultados dos meios e dos fins; de outro, é contar com o desconhecido e incompreensível, aventurar num terreno que nos é inacessível, entrar num jogo de forças sobrenaturais sobre as quais não sabemos se, colaborando conosco, preparam nosso sucesso ou nossa perda.
           
            Dessa forma, percebe-se que as ideias de Wagner, sempre estiveram relacionadas a forma dele pensar sua época. Pois de alguma maneira, o músico alemão via a arte, como uma ferramenta capaz de mudar uma sociedade. Mas para isso, era necessário primeiramente que a arte provocasse autoquestionamentos individuais, e internos, para que então houvesse uma prevalecente mudança externa. Como ele mesmo nos explica em sua analogia sobre a tragédia grega:

A tragédia grega, com o coro e os heróis, tornou o espectador parte da encenação: A figura do herói, fez com que o espectador começasse a refletir, não mais sobre a ação do personagem, mas sobre suas próprias ações – como se entrasse em um estado de meditação. Dessa forma, a tragédia expandiu as fronteiras do espaço de atuação, na medida em que o coro começara a opinar de forma mais crítica, e aconselhar com mais precisão as ações do herói. A partir desse momento, o coro abandonou o palco e passou a ser o próprio cidadão grego, deixando sobre o palco, apenas a figura dos personagens. (WAGNER, p. 44, 1893)


A junção das artes na cena contemporânea de Robert Wilson

O século XX, foi um período de mudanças para a encenação teatral do ocidente, pois com o surgimento de novas expressões artísticas e vanguardas, fizeram com que houvesse uma extensa ruptura, entre a encenação e a dramaturgia textual, que anteriormente era o elemento principal, e que conduzia a montagem das obras teatrais. Os caminhos que Wagner e a corrente simbolista abriram no teatro, durante o século XIX, foram extremamente cruciais para que as fronteiras entre as linguagens artísticas fossem ultrapassadas, possibilitando um maior diálogo entre as artes, e consequentemente gerando viabilidade para que novas expressões artísticas surgissem nos períodos seguintes.
     Em meio a isso, o encenador norte-americano Robert Wilson se firmou entre os artistas que começavam a fomentar novas práticas cênicas, sobretudo dentro da encenação teatral. O primeiro contato com as artes, sobretudo a teatral, veio ainda em sua cidade no Texas, com aulas de teatro e dança. Porém, Wilson deixou a cidade ao terminar o ensino médio, pois sentia a necessidade de experimentar novas possibilidades artísticas. Viajando para a cidade de Nova Iorque, o encenador estudou e se graduou no curso de Arquitetura e Urbanismo, e ainda quando estudante, visitava com frequência o estúdio de dança de Martha Graham[4], para observá-la ministrando aulas. Além de Graham, Wilson admirava os trabalhos de George Balanchine[5] devido a característica incomum que seus espetáculos possuíam para a época, como comentado por Wilson em uma entrevista com Lisboa (1999, s/p) ‘‘conheci o trabalho coreográfico de George Balanchine e gostei muito (ainda gosto) porque era diferente da Broadway e da ópera. Tinha espaço, mental e virtual, para a reflexão.’’
     Por volta da década de 60, o Happening[6] começava a ganhar força, sendo uma expressão artística intimamente ligada com o momento efêmero, junto do acaso, Wilson via nessa expressão, novas possibilidades para a criação cênica, segundo Galizia (2004, p. XXIII) ‘‘Wilson identificou-se imediatamente com a possibilidade do uso do acaso e da improvisação como meios de se atingir resultados artísticos’’.Desta maneira, a partir de suas vivências artísticas, junto ao seu conhecimento em arquitetura, Wilson resolveu utilizar Poles (1968), uma de suas construções em Site-Specific[7], para servir de espaço para abrigar uma apresentação de happening, organizada por ele mesmo. Nessa união de manifestações artísticas, os artistas completamente desnudos, dialogavam com a construção feita de troncos de árvores, cortados de forma assimétrica dando alusão a uma enorme arquibancada feita com troncos – os troncos utilizados na instalação eram de árvores caídas e/ou derrubadas por tempestades, muito comuns na região de Ohio, onde foi realizada a construção.


Figuras 1 e 2 Instalação em Site-Specific, intitulada Poles (1968), percebe-se que a assimetria no corte dos troncos de árvore, foi realizada de forma decrescente. Nas fotografias também podemos observar os artistas dialogando com a construção. Fonte: http://www.robertwilson.com/poles/

Os artistas e movimentos artísticos que apareceram na trajetória pessoal e artística de Wilson, influenciaram na construção de seu projeto poético. Essas influências, ficavam cada vez mais aparentes, de acordo com os trabalhos artísticos que Wilson apresentava. Isso está inteiramente ligado ao fato do projeto poético ser uma forma do artista, de expressar a sua visão de mundo, e está muitas vezes relacionado, com a estética que suas criações possuem, como afirma Salles (2006, p. 38)

O projeto poético está também ligado a princípios éticos de seu criador: seu plano de valores e sua forma de representar o mundo. Pode-se falar de um projeto ético caminhando lado a lado com grande propósito estético do artista.

Isso fica evidente nas criações cênicas do diretor, pois nota-se como Wilson torna transparente seus conhecimentos em arquitetura através das escultóricas formas geométricas que são colocadas sobre o palco, utilizando-se também da variação de cores, e tamanhos para compor a visualidade da cena. Junto a isso, é observado como a dança, música, poesia e artes visuais integram a obra, sendo inseridas de formas justapostas umas em relação as outras.
Podemos observar esses elementos na obraEinstein On The Beach, estreada em1976,no Teatro Municipal de Avignon, na França, dentro da programação do Festival de Avignon. Fora reapresentada em 2012, em Montpellier, cidade situada no mesmo país de sua estreia. O espetáculo leva a assinatura de Philip Glass[8], na trilha sonora, e Lucinda Childs[9], na coreografia. Essas parcerias em campos artísticos distintos, começa a nos trazer a referência do ‘‘Trabalho de arte total’’, nas criações de Wilson.
Possuindo quatro atos, o espetáculo dura aproximadamente quatro horas e meia. Nesse período, centenas de artistas entram e saem de cena, realizando partituras corporais, que começam e acabam por si, sem haver necessariamente, a todo momento a necessidade de demonstrar um gesto, ou ação que remeta a algo. Sendo muitas vezes desconexas e volúveis, a execução dessas partituras é feita de maneira exaustivamente repetitiva. Diante disso, é perceptível que no teatro de Wilson, os artistas não necessitam atuar visando reproduzir emoções humanas, mas devem tentar atingir a máxima neutralidade possível, como se fossem folhas em branco.

Figura 3: Na imagem, vemos a figura de Einstein tocando um violino, duas performers realizando ações corporais em cima de mesas de vidro, e também o coro de vozes, todos dividem o mesmo palco. Como perceptível nos espetáculos de Wilson, não há necessidade de os atores-performers representarem emoções, como nos espetáculos naturalistas/realistas, apesar de muitas vezes trajarem figurinos que remetam a determinada figura, como é o exemplo do ator vestido de Einstein. A não representação de emoções acontece, pois para o encenador, os artistas devem atingir uma neutralidade cênica através das ações que executam.Isso é um contrapontoas óperas tradicionais – baseadas nos preceitos de Wagner, em que os solistas e o coro devem representar um personagem ao cantar. Fonte: ThéâtreduChâtelet

Diante disso, o texto dito pelos artistas, assim como as partituras corporais, não seguem uma definição clara, tampouco são esclarecedoras ao espectador. Isso se deve ao fato do texto ser tratado de forma arquitetônica, ao serem construídos,e muitas das frases são repetidas inúmeras vezes, outras muitas vezes são desintegradas silabicamente. Isso ocorre porque o principal objetivo da dramaturgia nos espetáculos de Wilsonnão está ligado ao peso semântico que as palavras possuem, mas sobretudo fazer com que o som delasformem uma espécie de paisagem sonora aos ouvidos dos receptores, como podemos observar em um trecho do primeiro ato:

Figura 4 Trecho da dramaturgia do espetáculo ‘‘Einstein On The Beach’’ (1976), em que observamos as inúmeras repetições nas frases, e suas construções ocorrendo de forma silábica, e sendo desintegradas da mesma forma. Fonte: CultureBox

Além da dramaturgia virar uma paisagem sonora, a música composta por Glass, se faz ininterrupta em todo o espetáculo, exceto os momentos de mudança de atos. A trilha sonora do espetáculo, leva o espectador a adentrar em um estado de concentração, tornando-o capaz de conseguir observar de forma mais detalhada, os diversos elementos que fazem parte da encenação. Dessa maneira, Wilson também utiliza da técnica do leitmotiv[10] wagneriano, nos momentos em que a dança começa a se tornar mais presente, dentro dos atos.
Porém, a música não está ligada ao tempo de execução dos movimentos que os bailarinos devem realizar, apesar das duas expressões artísticas se encontrarem no mesmo espaço, elas agem de forma autônoma uma perante a outra, assim como todos os elementos que fazem parte do espetáculo. Diante disso, enquanto a orquestra está executando uma determinada partitura, em um tempo mais rápido, os bailarinos continuam executando seus passos coreografados em um tempo distinto, em relação a música tocada.

Figura 5. Bailarinos executam sequências de movimentos, contendo giros e saltos. Na boca de cena, vemos a figura de Einstein, tocando um violino. Na parte superior do palco, podemos observar uma figura circular branca Fonte: ThéâtreduChâtelet

A justaposição nas obras de Wilson, são parte da identidade das encenações do diretor norte-americano. Wilson pensa a cena, como uma junção justaposta de elementos – sobretudo visuais, para fazer com que o espectador estabeleça sua própria leitura sobre as informações que lhe são colocadas dentro da cena, em Einstein On The Beach, os performers e suas ações, não possuem ligações entre si, isso faz com que tenhamos a ideia de que há vários universos, dentro de um.Os elementos cênicos introduzidos na cenase contrapõem semioticamente, fazendo com que o espectador não estabeleça um fluxo lógico de pensamento, sobre a ligação que os elementos tendam a possuir.Nessa visão sobre a obra, partindo de um determinado momento, podemos observar que ao mesmo tempo em que há a figura de um enorme trem sobre o palco, percebemos um homem na parte da frente do trem, realizando movimentos estacados e repetitivos, e ao lado desse trem, uma mulher lendo um jornal.
Além disso, na mesma obra também é observado que ao centro do palco se encontra outra performer, que anda de uma extremidade a outra continuamente, realizando movimentos uma sequência de movimentos com os braços e no fim dessa sequência, um deles aponta para o céu. Ainda presente no mesmo palco, vemos uma estrutura similar a um guindaste, e em cima dela, podemos observar um menino segurando um avião prestes a arremessá-lo. Junto de todas essas figuras, vemos na boca de cena:Uma cadeira sendo iluminada por um foco, uma performer segurando uma concha do mar na altura do ouvido, e um homem trajando camisa vermelha e sob seus pés um casaco da mesma cor da camisa. A trilha sonora que acompanha esse conjunto de ações simultâneas, possui um caráter quase hipnótico a quem ouve.
Figura 6 Um dos momentos do espetáculo ‘‘Einstein On The Beach’’ (1976), em que ações justapostas acontecem de forma simultânea Fonte: ThéâtreduChâtelet

Dessa forma, não cabe a quem escreve o presente artigo realizar a iconografia dos elementos presentes nas obras de Wilson, pois essa seria uma visão unilateral da obra. Isso acontece devido as encenações do diretor ganharem sentidos diferentes de acordo com a leitura própria de cada espectador.A partir disso, observamos que a junção de linguagens artísticas que Wilson propõe, ao serem colocadas juntas em uma obra, ganham um caráter heterotópico, para assim induzir o espectador criar sua própria dramaturgia, acerca do que está sendo observado. O conceito de heterotopia[11] se encaixa nas encenações de Wilson, por ‘‘justapor em um único lugar real vários espaços, vários locais que são incompatíveis nele mesmo’’(CARNEIRO, 2004, p. 41 apud FOCAULT, 1966, p. 758).

Figura 7. Quadro cênico do espetáculo Einstein, em que observamos vários artistas em cima do palco realizando ações distintas. Na boca de cena um ator vestido de Einstein, tocando violino, e ao fundo a figura dois juízes. A geometria circular está presente em grande parte da cenografia, nesse momento Fonte: ThéâtreduChâtelet

Considerações Finais

O presente artigo, não tem o intuito de contrapor artistas, ou períodos históricos, mas mostrar como a arte pode ser ressignificada de acordo com seu tempo. Diante disso, vemos queo encenador norte-americano nunca teve a pretensão de ressignificar o termo wagneriano, isso ocorreu devido aos diversos encontros que a arte lhe proporcionou, ao longo da construção de seu projeto poético, tornando isso uma tendência singular. Quem melhor nos explica sobre tendência singular é Salles (2006, p. 36):
No contato com diferentes percursos criativos, percebe-se que a produção de uma obra é uma trama complexa de propósito e buscas: problemas, hipóteses, testagens, soluções, encontros e desencontros. Portanto, longe de linearidades, o que se percebe é uma rede de tendências que se inter-relacionam.

Wilson, demonstrou ser um artista que não se limitava a apenas uma linguagem artística, mas estava integrado de forma simultânea em várias delas – como dança, música, teatro, artes visuais, além de ser estudante de arquitetura. Essa não linearidade, que Wilson firmou, ao estabelecer interação com várias linguagens artísticas fez com que o encenador formasse uma rede de criação, em que as linguagens artísticas comunicam-se entre si, a crítica de processos criativos Salles (2008, p. 24) ambienta que:
ao adotarmos o paradigma da rede estamos pensando o ambiente das interações, dos laços, da interconectividade, dos nexos e das relações, que se opõem claramente àquele apoiado em segmentações e disjunções. Estamos assim em plena tentativa de lidar com a complexidade e às consequências de enfrentar esse desafio.

Porém, Galizia (2004) reitera queWilson via a ‘‘Obra de Arte Total’’, temde uma ótica diferente de Wagner, pois enquanto Wagner tinha a intenção de homogeneizar todas as linguagens unificando-as em uma só obra. Wilson, também utiliza todas as linguagens artísticas em uma só obra, porém, coloca-as com efeitos justapostos uma em relação a outra. Galizia (2004, p. XXXIV) aponta que:

 Wilson não está interessado somente numa fusão das artes. [...] Ao invés da fusão, Wilson engendra uma justaposição de modos diferentes de expressão humana. Onde Wagner rejeitou árias e recitativo para fundir música e canção evitando, assim qualquer interrupção ou divisão no desenrolar da ópera, Wilson simplifica os elementos do espetáculo de forma a fazê-lo emergir como unidades artísticas autônomas.

Com isso percebemos que a ‘‘Obra de Arte Total’’ que Wilson propõe, não possui o intuito de fazer com que as linguagens artísticas se unam, abrindo mão de suas especificidades em prol de uma única expressão artística. Mas, o encenador visa fazer com que a‘‘Obra de Arte Total’’, seja moldada pelas especificidades e singularidades de cada linguagem – que são divergentes umas das outras, utilizando esse fator como um elemento potencializador e característico na construção de seus espetáculos, Galizia(2004, p. XXXIV) ainda assegura que:

‘‘ao invés do resultado constituir-se na expressão de uma só linguagem artística, com todas as modalidades convergindo para moldar um único significado, o que transpira, nas peças de Wilson, é uma multiplicidade de linguagens, frequentemente divergentes em significados’’

Nas obras de Wilson, o espectador está intrinsecamente ligado a autonomia. Em razão da cena possuir uma grandiosidade visual e sonora, o espectador não consegue observar a obra como uma unidade, mas a observa de forma fragmentada. Devido a isso os espectadores são estimulados, principalmente por meio da sinestesia, a fruir sua própria leitura acerca daquilo que se colocaram a observar nas encenações, fazendo com que a particularidade de cada ser humano, seja o elemento que conduza na fruição do espetáculo.
Essa característica presente nas obras de Wilson, faz com que o espectador seja instigado a todo o momento a tornar-se ávido a respeito das informações que está recebendo, sendo levado a reflexão por meio do arrebatamento sinestésico, pois sempre haverão elementos compostos na cena que se chocarão, dando ao espectador a liberdade de criar sua própria leitura sobre a obra. Tirando-o do lugar de receptor passivo das informações que lhe são postas, para dar vazão a um fruídor que está em constante inquietação diante das provocações que lhe são colocadas em cena.

Referências

CARNEIRO, Beatriz Scigliano. Relâmpagos com Claror: Lygia Clark e Hélio Oiticica vida como arte. São Paulo: FAPESP, 2004.
CULTUREBOX. Einstein On The Beach – Libretto. Diponível em: <http://culturebox.francetvinfo.fr/sites/default/files/assets/documents/eob_text_for_libretto.pdf>
GALIZIA, Luiz Roberto. Os processos criativos de Robert Wilson: Trabalhos de Arte Total para o Teatro Americano Contemporâneo. 2004. ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.
KAMADA, Leticia. Mashup: o que você vê é o que você ouve. 2010. 85 p. Monografia (Especialista em Criação de Imagem e Som em Meios Eletrônicos)- SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM COMERCIAL - SENAC, São Paulo, 2010. Disponívelem: <https://monografiacisme.files.wordpress.com/2011/02/monografia_leticia_kamada_mashup1.pdf>.
LISBOA, Marta. O Estranho Mundo de Bob. Disponível em: <https://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/o-estranho-mundo-de-bob-123660>.
MACEDO, Iracema. Nietzsche, Wagner e a Época Trágica dos Gregos. Brasil: Annablume, 2006.
Philip Glass | Robert Wilson – Einstein On The Beach.Direção: Robert Wilson. Produção: ThéâtreduChâtelet. Paris: Opus Arte. 2014. 1 DVD.
POTY, Vanja. Sobre a Dama do Mar.eRevistaPerformatus, Inhumas, ano 2, n. 7, nov. 2013. ISSN: 2316-8102. Disponível em: <https://performatus.net/criticas/sobre-a-dama-do-mar/>.
SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística. Brasil: Intermeios, 2006.
___________. Redes da Criação da Obra de Arte. Brasil: Horizonte, 2008.
VERNANT, Jean-pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. In: VERNANT, Jean-pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. Brasil: Perspectiva, 2002.
WAGNER, Richard. Opera and Drama. EUA: Universityof Nebraska Press, 1995.
WILSON, Robert. Poles. Diponível em: <http://www.robertwilson.com/poles/>.











[1] Klaubert Oliveira – Bacharelando em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas. Artista e pesquisador no campo de teatro, artes visuais e crítica de processos criativos.
[2] Richard Wagner (1813 – 1883) natural da Alemanha, esteve fortemente ligado ao movimento romântico do país. Além disso, foi compositor, maestro e responsável por criar o conceito de ‘‘Obra de Arte Total’’.
[3] Obra de Arte Total (Palavra de origem alemã: Gesamtkunstwerk)
[4] Marta Graham (1894 – 1991) bailarina e coreografa, responsável por revolucionar a técnica da dança moderna.
[5] George Balanchine (1904 – 1983) bailarino e coreógrafo, percussor do balé neo-clássico.
[6] O happening é uma expressão artística que surgiu por volta da década de 60, caracterizado pelo uso da espontaneidade e imprevistos, é apresentado apenas uma vez, devido ao caráter efêmero que tal expressão possui.
[7] Site-Specific são obras de arte permanentes e concebidas exclusivamente para um determinado espaço, modificando de forma perene, o lugar e localidade em que estão inseridas.
[8] Philip Glass (1937 – atual) musico e compositor, possuindo o título de compositor mais influente do século XX.
[9] Lucinda Childs (1962 – atual) bailarina, coreografa e atriz americana, seus trabalhos possuem sobretudo características de movimentos minimalistas.

[10] O leitmotiv é usado para definir uma música que aparece, e reaparece, conforme um personagem entra e sai de cena. Nas óperas wagnerianas, o leitmotiv se faz presente em quase todo o espetáculo.
[11] Heterotopia (aglutinação de hetero = outro + topia = espaço) é um conceito da geografia humana elaborado pelo filósofo Michel Foucault que descreve lugares e espaços que funcionam em condições não-hegemônicas.


Revisão de texto por Janaina Siqueira
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