Fio a fio: tecendo corpos vividos e envelhecidos


Por Ítalo Rui[1]

No último sábado, dia 03 de março, o Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza -CE recebeu o espetáculo brasiliense Fio a Fio, dos artistas Giselle Rodrigues e Édi Oliveira. A obra traz de maneira poética e sensível a temática da velhice e seus desdobramentos no corpo através da linguagem da dança-teatro. Um corpo que já não possui o vigor da juventude, já não conta com a força dos seus músculos e nem com a pressa em fazer e conquistar as coisas, porém, um corpo mais maduro e mais experiente pelo acúmulo de suas vivências. O espetáculo coloca essas questões em sua narrativa.
É justamente no tempo ralentado desse corpo que ele indica que está chegando em sua fase final. “Envelhecer é paradoxal”. Mas esse corpo experiente e que percebe o tempo de outra maneira não estaria pronto para começar a vivê-lo? Já que esse acúmulo de vivências e de experiências que realizamos ao longo da vida traz vigor e maturidade a nós? A experiência, por mais que traga maturidade, impõe limites ao corpo, daí o paradoxo. Limites esses que nos tornam dependentes do outro para as atividades mais simples, e isso, o espetáculo conseguiu imprimir com muita clareza.

Figura 1. Imagem do espetáculo Fio a fio. Fotografia cedida pelo grupo. 

A obra vai mostrando em camadas esses momentos duros e difíceis de um corpo que falha, que apresenta defeitos, que não consegue dar conta das coisas. Algumas cenas podem exemplificar isso como aquela em que a intérprete começa a trocar os móveis de um quarto em uma sequência quase que robótica, ilógica e desordenada enquanto o outro artista apenas a observa, sem poder fazer nada. É nesse momento que temos a consciência de nossa paralisia. Não há o que fazer. Esse “tempo outro” vivido por corpos envelhecidos um dia será habitado por nós. É aí que o corpo começa a dar indícios de sua fragilidade e dependência.
É na intimidade do quarto de um casal que tais relações são tecidas, é nesse micro universo que o público deixa-se afetar. Alguns soluços e lágrimas escorrendo dos olhos da plateia comprovam a catarse gerada pela obra no público.

Figura 2. Imagem do espetáculo Fio a fio. Fotografia cedida pelo grupo. 

Dentro dessa narrativa poética, existem imagens muito precisas que reforçam o que já comentamos, como por exemplo os remédios: milhares de frascos colocados em cima da uma cômoda. É quase como uma placa de aviso: “o que te mantém vivo são esses remédios”. A sonoplastia reforça essa ideia ao introduzir de maneira estilizada a respiração ofegante e os batimentos cardíacos precisos ao tentar realizar movimentos comuns de um corpo que já não é jovem.
Entretanto, apesar desses momentos que arrancaram soluços e lágrimas de muita gente, a obra não mostra o processo de envelhecimento sob uma ótica pessimista.  Eles apresentam o real com pinceladas emotivas, mas também alegres. O espetáculo é marcado por uma sucessão de emoções.
A experiência sensível e poética proporcionada em pouco mais de uma hora de espetáculo nos faz olhar para o envelhecimento como um processo da vida que precisa ser naturalizado, porque, num mundo que cada vez mais nos oferece diversos procedimentos milagrosos para atrasar o envelhecimento ou para garantir mais jovialidade, assistir Fio a Fio nos torna seres humanos menos inquietos com a passagem do tempo.

Ficha Técnica:
Concepção, direção, coreografia e interpretação: Édi Oliveira e Giselle Rodrigues
Colaboração artística: Kênia Dias
Desenho de Luz: Dalton Camargos e Moisez Vasconcellos
Trilha Sonora: Tomás Seferin
Fotografia de divulgação: Diego Bresani.






[1] Ítalo Rui é ator, formado em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas. É mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará, além de ser colaborador e responsável pela sessão de críticas na Revista Arte Documenta.


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