O Abandono de si em "Coração de Baleia"



Ítalo Rui[1]

Falar de dor é sempre difícil por razões óbvias. E falar da superação das nossas dores ou da tentativa de superá-las é um processo delicado, perigoso e um exercício empreendido pela Cia Ateliê 23, de Manaus-AM, no espetáculo Coração de Baleia. O trabalho da cia manauara é um solo dirigido e interpretado por Taciano Soares e conta com a assistência de direção de Eric Lima e Laury Gitana.
Tive a oportunidade de assistí-lo duas vezes, na primeira ocasião no Teatro da Instalação e na segunda na sede da própria cia. Por ter conseguido assistir duas vezes, a escrita dessa crítica talvez seja um pouco mais extensa do que as demais.
Há uma figura em nossa frente, um ser feminino, masculino, afogado por uma fragilidade que vai chegando até nós, na medida em que escava suas feridas e dores encobertas. Não sabemos o que a martiriza, só sabemos que tal figura anseia abandonar a si para se tornar outra coisa. Uma coisa mais forte, mais robusta, uma baleia, ou melhor, o coração de uma baleia, que de acordo com minhas pesquisas é o animal  que possui o maior coração dentre todos os outros. É a partir desse mote que a peça se inicia. 
O texto é repleto de metáforas, com uma linguagem rebuscada e muito criativa elaborada pela dramaturga catarinense Martina Sohn Fischer. As palavras têm força e o público precisa estar atento a elas, pois corre o risco de perder-se numa linguagem que pode parecer confusa. Na narrativa da obra, tal figura, criada por Taciano apresenta um desejo incomum: ser tudo menos ela mesma, e esse desejo intensifica-se na medida em que suas dores (que não são relatadas) ficam mais intensas.

Figura 1. Imagem do espetáculo. Fotografia de Fabiele Vieira.

Nota-se claramente um estudo bastante preciso da fisicalidade (e isso englobando corpo e voz, para deixar claro) do ator no texto e na cena. As palavras aqui ecoam no corpo de Taciano e são traduzidas na maneira como a sua persona caminha, é quase como se fossem os últimos passos de um peregrino, cumprindo sua dura promessa, e entre esse caminhar, há algumas quedas ao chão, evidenciando sua fragilidade. É neste momento que o intérprete precisa ter cuidado para não deixar a sua queda repetitiva para o público e assim correr o risco de se tornar desnecessária. É apenas um detalhe.
A noção de presença também é discutida  na obra, portanto é também uma discussão sobre a linguagem do teatro e daquilo que o define como teatro.  Explico: em um dado momento, o ator sai de cena e o palco fica “vazio” sendo preenchido por uma voz off gravada e uma vídeo arte  projetada ao fundo. Neste momento somos só nós (público) e essas interações gravadas, mas o ator não está nela, saiu de cena. Neste “breve” espaço de tempo estamos vivenciando que qualidade de presença? Aquele que faz não é uma pessoa e aquele que vê é o público. Se o teatro precisa de alguém fazendo e alguém vendo, o que estamos vivenciando naquele curto período da ausência do ator? É claro que as imagens projetadas e a voz off não deixam de ser uma experiência estética e portanto, uma experiência artística. Mas seria teatro naquele breve espaço de tempo? O contemporâneo veio para questionar esses debates também, friccionar  tais questões. Isso não se trata de um desmerecimento  da obra, ou uma questão mal resolvida no trabalho, muito pelo contrário, ela foi claramente proposital.
A iluminação criada por Daniel Braz é um elemento muito potente no trabalho. Ela possibilita criar uma atmosfera coletiva e faz o espectador vivenciar aquilo que está sendo dito pela persona. É como se estivéssemos em um aquário, nós, peixinhos presos nesse aquário social que foi denunciado pela figura martirizada. Deveríamos assim como ela tentar sair desse aquário e nadar para as profundezas dos oceanos? Daríamos conta da nossa existência? Por isso a necessidade em abandonar a si para ser um peixe grande? Maior e mais robusto? Quem sabe assim conseguiríamos superar as difíceis intempéries da vida e seguir vivendo, fortalecidos por um coração grande, com músculos fortes e quase invencíveis.

Figura 2. Imagem do espetáculo. Fotografia de Fabiele Vieira


Ficha técnica
Direção e atuação: Taciano Soares
Texto: Martina Sohn Fischer
Ass. Direção: Eric Lima e Laury Gitana
Iluminação: Daniel Braz
Trilha Sonora: Caroene Neves
Fotografia: Fabiele Vieira



[1] Ítalo Rui é ator, formado em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas. É mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará, além de ser colaborador e responsável pela sessão de críticas na Revista Arte Documenta.


Revisão de texto por Janaina Siqueira
Texto completo em PDF


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