POR ONDE DANTE ANDOU


Por Jan Santos[1]


1
CAÍNA E MORFINA

Cheiro de doença
cheiro de remédio
cheiro de urina
                        e o soro pinga
            pinga
pinga

                                   Cada som
Cada ruído
            Um tiro no ouvido
Os mosquitos exigem seu direito
                       
                        e o soro pinga
            pinga
pinga  

O viajante de jaleco azul
O corpo apodrecendo abaixo de si
O fedor de gente subindo

                        e o soro pinga                                                                                   
            pinga
pinga

Vêm as cadelas de Belzebu
Zunem
Comem
Cantam

O aparelho grita
A dor vem depois
A nota mais aguda
Do aparelho ou de sua súplica

Grita
Grita o nome de Deus
Grita o nome da mãe
Grita um nome sem letras

Grita
                        Fraco
                                   Magro
Mas grita

            Cai

O médico guia
Diz que é dia
Ninguém vem
Não
Eles vieram
                        pelo canto dos olhos
                                   velhos amigos
                                               nem vivos
                                                           sem cor
O médico guia
Não os via
E dava o decreto
Não vai haver dor
Deixa, deixa aqui toda a esperança
Que tua oração te traga paz

Perto de Deus,
perto de mim
Não tem paz
Só o fim
Mais um milagre na veia, a hora não tarda.

O viajante desce.











2
O CORDEIRO DE ANTENORA

Antenora engole o viajante com lama
Antenora o arrasta com garras de espinho para dentro da boca
Antenora o rasga e deixa o ar provar do sangue
Antenora abre suas costas
            O sangue é negro, mas Antenora não se importa

O guia, livre de mácula, puxa-o por uma das mãos
Antenora não deixa
Antenora o faz gritar
Antenora o enlouquece
            O guia se horroriza

            “Deixe aqui, deixe aqui”
Deixar o que?
            “Deixe aqui, deixe aqui”
Deixar o que?!

            O guia acende uma estrela de fogo na mão
Antenora se retorce
Antenora recua
Mas Antenora não perde
            O guia grita Deus como um brado de guerra

            “Deixe aqui, deixe aqui”
Deixar o que?
            “Deixe aqui, deixe aqui”
Deixar o que?!

            O nome de Deus, um desafio
Antenora aceita
Antenora uiva
Antenora saca o açoite
            O viajante sangra pela última vez

            Sangra sete vidas,
Sangra sete anjos
Sangra negro
Sangra placenta
            Sangra sete crianças

“Deixe aqui”
“Deixe aqui”
“Deixe aqui”
“Deixe aqui”
“Deixe aqui”
“Deixe aqui”
“Deixe aqui”

Deixar o quê?!

Uma provoca o guia
Uma arranca sua tocha
Duas o derrubam no chão
Duas o mantêm lá
Uma parte as amarras do viajante

E eles se olham
                                   O viajante com lágrimas nos olhos
                                                                                              O guia, com terror nos dele



O viajante apunhala seu guia no pescoço.
E então sobe.








3
E eis que chego à terceira esfera, próxima o bastante do céu para ouvir-lhe as trombetas.

TOLOMEA AZUL.

Aqui jazem pintores e poetas, e sua arte se espalha no horizonte
onde mar e céu se amam, como era no princípio do tempo.
Se diluem em um gozo anil e púrpura,
Em uma grinalda branca de nuvem e espuma
ar e onda
paz e sacrifício.

Lá, Urano trocara Gaia pelo Oceano
E todos dançavam ao sabor da brisa
Todos nus, mas ninguém lhes disse nada

Pela orla o viajante caminhava,
Caminho de areia e nimbo
Por onde deuses tiveram sua foda
E cada gota de concha ao longo do anel marcava nas estrias da areia o gozo dos anjos.

E quê de inferno teria em tal lugar?
Ainda não era o seu lugar
e adiante ele ia, e ia, e ia
E vai

Caminhava, e o vento lhe lançava um enigma:
Anda na beira do mar ou do céu?
Te banha em nuvens ou espuma?
Estás a andar no teto e olhando pra cima vê o chão?

Quem saberia responder?
Quem se importaria?

Nem o peregrino se lixa com isso
ou com os bacos na praia
Com a canção das gaivotas sobre virgens e viagens
Mentiras, é só o que os pássaros contam

Ele caminha em seu delírio
Eu caminho sobre seus ossos
Eu piso nos sonhos que ele esqueceu
Danço sobre o orgasmo de Venus
na espuma salgada que gruda e lambe nos pés

Tão perto do céu que olho pra baixo e vejo mercúrio tocando
vejo marte com zíper aberto

Tão perto do céu e tão longe de mim
que o peregrino entendeu que até o inferno pode ser azul.





[1] Jan Santos é mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal do Amazonas, e atua como revisor, professor de língua e literatura e escritor. É autor de Evangeline - Relatos de um Mundo sem Luz, A Rainha de Maio e O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas.



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