Vestido Queimado: imaginação, tempo e fruição coletiva.


Por Ítalo Rui


Utilizar a palavra para falar sobre uma obra que não a emprega no sentido literal, pode parecer menos adequado do que deveria. Neste sentido, começo deixando bem claro que essa crítica tenta, sem sucesso, dar conta de “relatar” uma experiência estética que se deu em uma relação nada usual. Essa crítica, por natureza, já está morta... Sua tentativa não conseguirá detalhar o desenvolvimento da obra com o público porque em Vestido Queimado a construção das ações se dá de maneira particular e exclusiva entre a obra e seu público. Não é utilizada quase nenhuma fala nesse Teatro de Papel, proposta nova desenvolvida pela Cia Soufflé de Bodó Company.
É claro que isso tudo não é novo, críticas de espetáculo de dança ou de artes visuais, por exemplo, passam pelo mesmo dilema: utilizar a linguagem escrita para falar sobre uma experiência artística que NÃO se deu, necessariamente pela palavra, mas pelos gestos, ações, sensações, etc. É nesse camburão de incertezas que o texto se encontra. Utilizarei a palavra, como confortável mecanismo (para mim) de comunicação entre a crítica e seus leitores para falar sobre Vestido Queimado. Já aviso: tentarei.

A Soufflé de Bodó Company, Cia de artes cênicas da cidade de Manaus e Porto Velho envereda-se por mais um trabalho artístico: a criação de uma obra a partir da linguagem do Teatro de Papel somada pela elaboração de uma dramaturgia construída pelas figuras/personagens dessa história sem fala. As notas musicais, ao fundo durante todo o percurso das cenas, têm um papel importante nesse teatro de papel sem texto: deixar o público atento aos acontecimentos engraçados e sem sentido das personagens.
Um idoso ao ter suas terras destruídas pelo bater de asas de um dragão que passava por ali cria na cozinha da sua casa uma menina. Ela, ao ganhar vida, viaja pelo mundo, aprendendo com as suas descobertas e fazendo novas amizades. A peça fala da relação de amizade entre esses dois personagens e todas as descobertas que a menina faz. (Essa leitura é pessoal).
O espetáculo lembra-nos a mesma ideia fantasiosa de desenhos animados como Bob Esponja: uma esponja marinha que mora num abacaxi, surfa no fundo do mar, às vezes se afoga (?), possui vários amigos, entre eles uma esquilo com roupa de astronauta. Na verdade, tais narrativas sem sentido, que aparentemente não vão a lugar algum e que Vestido Queimado aposta cem por cento, dão muita margem de liberdade para que a fruição da obra se dê de forma coletiva. Existe uma clara relação de jogo posta no espetáculo, e um elemento fundamental que permite ao público criar a obra a partir de seu imaginário é a ausência da fala. A utilização do texto aqui seria cruel, reduziria a liberdade criativa do espectador e de certa forma o conduziria a um único desfecho. Sem o texto, é o público que está livre para criar as possíveis falas das personagens, entendendo a história à sua maneira. A construção dessa dramaturgia imagética é pautada em um aspecto fundamental: o tempo de fruição do espectador.
 
Destarte, já que a obra permite ao público criar, o espectador precisa querer criar e se permitir criar num tempo diferente. A peça necessita de um tempo distinto do tempo que estamos habituados. Sem esse tempo, mais lento e mais paciente, a experiência pode estar ameaçada. Ela praticamente nos convida dizendo: “Quer vir? Vem! Se não quer, tudo bem, fica aí!”. Essa mesma proposta é comum em obras como a de Pieter Bruegel, O Velho. O conhecido artista do século XVI criava quadros com milhares de imagens realizando ações diferentes, subordinadas a uma única narrativa. Um exemplo é a obra acima, Caminho para o Calvário, criada em 1564 e que no primeiro momento é impossível perceber todas as relações entre as imagens, o cuidado em sua composição e sua ligação com a temática do quadro. Logo, é necessário ter esse tempo que quase não temos para interagir com o quadro.
Fonte: https://br.pinterest.com/pin/327707310369218461/



Digo o mesmo em relação ao Vestido Queimado. O tempo da peça é outro, perceber sua importância e deixar ser levado por ele pode proporcionar uma experiência significativa durante seus 37 minutos.

“Ah, mas são apenas 37 minutos, passa voando”. Certamente passa voando, mas, falo da sensação do tempo passando. Num mundo cada vez mais conectado e rápido, bombardeado por informações a todo o momento, um minuto sentado esperando as ações acontecerem pode gerar certo desconforto nos mais acelerados. Talvez, para quem sentou nas últimas fileiras, como foi meu caso no primeiro dia, a experiência tenha sido prejudicada pela visão ofuscada por várias cabeças na frente e pela falta de um nível mais elevado da platéia que sentou mais atrás. Todos estavam no mesmo campo de visão, então muita coisa se perdeu na estréia. Mas, ao retornar no segundo dia, tais problemas técnicos foram revolvidos, sanando essas deficiências.
Vestido Queimado propõe narrar de maneira fantasiosa uma relação de amizade de forma imagética. Na vida, somos bombardeados por imagens a cada instante, seja através dos grandes canais de comunicação, seja na rua, no dia a dia, etc. Logo investir numa história contada dessa maneira e que precisa acontecer aos poucos, dá ao público a possibilidade de se desacelerar.
            Desacelerar da história contada de maneira fácil, desacelerar das respostas dadas na boca, desacelerar na vida.


FICHA TÉCNICA DE “VESTIDO QUEIMADO”
Direção, iluminação, figurino e dramaturgia: Francis Madson
Coordenador de Produção: Denis Carvalho
Elenco: Carol Santa Ana, Denis Carvalho e Klindisson Cruz.
Direção de arte e ilustração: Eric Lima
Produção de arte: Carol Santa Ana, Denis Carvalho, Klindisson Cruz, Francis Madson e Laury Gitana
Trilha sonora original: Yago Reis



Revisão de texto por Janaina Siqueira
Texto completo em PDF


_________________________________________________________________________________

#PUBLICIDADE: Que tal aprender sobre Desenho Realista com o artista Alexandre Porto? Dá uma conferida clicando aqui!