Mocinha - um teatro para quantas?

Por Ítalo Rui[1]

 

Duas mulheres-atrizes-artistas falam sobre um tema tão caro à nós, e principalmente a elas. Duas não! Três. Quatro mulheres artistas. Duas no palco e duas de fora dele, desempenhando outras funções. Mocinha é uma obra que bebe da linguagem do teatro performativo para denunciar, mobilizar, instaurar e colocar diante da plateia as violências que mulheres da periferia de Manaus sofrem. Mesmo que a temática proposta foque no universo de mulheres periféricas, podemos sim dizer que essa realidade, mesmo que escancaradamente presente neste ambiente, não é sua por completo. O feminicídio ocorre também em outros ambientes – em menor escala, sabemos, mas ocorre. Aqui, as artistas optaram por revelar as recorrentes práticas violentas no universo da periferia da cidade de Manaus.

Se a mim, sendo homem, doeu assistir ao que meus olhos viram, pergunto-me sobre a dor que as próprias artistas sentiram durante a feitura da obra na sala de ensaio, e também, na dor que as mulheres da plateia sentiram quando viram em cena alguns episódios que aconteceram em suas vidas, direta ou indiretamente. Mocinha é uma obra de enfrentamento cruel que nós precisamos acessar. Cada cena instaura uma dor coletiva na plateia e a coloca num estado absoluto de tensão. E aqui vale minha maior inquietação em relação ao trabalho. A obra analisada apresentou-se durante a Mostra Por Elas, um evento realizado pelo Ateliê 23, em Manaus e que tinha como objetivo ocupar a sede da companhia durante um mês com uma programação artística voltada para a produção teatral realizada por mulheres na cidade. O público que estava assistindo à obra era, em sua maioria formado por artistas, universitários, e pessoas interessadas na proposta do evento. Ou seja, querendo ou não, Mocinha apresentou-se em um espaço privilegiado e seguro, para um público que, minimamente é sensível às questões relacionadas à arte. Pergunto então quais contornos a obra ganharia se saísse desta zona protegida e embarcasse nas periferias de Manaus? Quais riscos as atrizes estariam se submetendo em espaços outros?

É claro que o fato da obra apresentar-se em um ambiente seguro, não tira seu mérito, muito menos ameniza os impactos que causa. Mocinha é uma obra urgente e necessária em tempos sombrios. Mas minha questão também beira na formação de público – assunto tão caro aos fazedores de teatro em Manaus. Quais potencialidades e fragilidades se revelariam caso a obra fosse apresentada para o público que mora nas periferias de Manaus? Como as artistas acessam esses espaços? O acesso se dá apenas através da temática?  A sensação de enfrentamento que Mocinha causou perante o público teria o mesmo efeito se o lugar de realização não fosse dentro da bolha que estamos inseridos?

É próprio da autonomia do artista apresentar-se onde bem desejar e também onde as condições objetivas o permitem. Mas, no caso específico de Mocinha, penso que seja necessário também ocupar espaços que o teatro ainda não chegou nesta cidade. Principalmente se levarmos em conta que o material de pesquisa da obra são os casos de feminicídio que ocorreram na periferia. Como a periferia receberia esta obra? Ou melhor, como as mulheres, donas de casa, mães, meninas e adolescentes que moram em áreas periféricas de Manaus receberiam Mocinha? E os homens destes espaços? Como as questões evocadas em Mocinha seriam recebidas por eles? São perguntas que merecem um maior tempo de maturação para serem respondidas. Vale a pena, ao menos, colocá-las na superfície.

As cenas seguem uma estrutura fragmentada, sem uma ordem cronológica de ações, elas não estabelecem uma relação de causa e efeito. É como se cada cena representasse uma peça de um grande quebra-cabeça. Isoladas, as cenas já dizem muito por si só, juntas, potencializam ainda mais o discurso.

A relação espacial que as artistas estabelecem com o público também é um ponto a ser levantado. O espaço assemelhasse a uma passarela de desfiles de moda, seguindo um formato retangular, em que o público decide em qual lado deve ficar, e o centro fica livre para uso das atrizes. Aqui, nós não acompanharemos as tendências da moda, mas assistiremos aos vários episódios de violência física e psicológica que as atrizes representaram. O desfile aqui é outro. A moda da violência contra a mulher não parou, atualizou-se e ganhou novas tendências. O que Mocinha quer, é que isso acabe logo e seja considerada moda ultrapassada. Quem sabe assim, já não seria preciso fazer um espetáculo com esta temática, e muito menos, não seria preciso fazer esta crítica.

 

 

Às artistas envolvidas nesta obra, desejo força para seguir firme, em frente!   

 

Ficha Técnica:

Direção e Iluminação: Lu Maya

Elenco: Iris Brasil e Karol Medeiros                                               

Produção: Daniely Lima e Ítalo Almeida.

 



[1] Ítalo Rui é ator e pesquisador, mestre em artes pela Universidade Federal do Ceará e bacharel em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas.



DOWNLOAD EM PDF

Leave a Reply