Mulheres do Diário.

Por Thais Vasconcelos[1]

 

“Ontem desci no ponto ao meio dia

Contramão me parecia

Na cabeça a mesma reza

Deus, que não seja hoje o meu dia

Faço a prece e o passo aperta

Meu corpo é minha pressa”

(MULAMBA, 2016)

 

É tão cansativo termos que repetir tantas vezes sobre nossas dores cotidianas, ordinárias, normais (normais… imagina); sobre as coisas que nos transpassam hoje, transpassaram ontem e continuarão transpassando gerações e gerações de mulheres. Encontramos, cada uma em seu ofício, uma maneira de falarmos (gritarmos), com nossas vozes que por vezes nem chegam a conhecer o lado de fora dos nossos corpos. As mulheres do Diário de Marias, através do teatro, gritam (falam), por vezes desenham, aquilo que precisa sair em forma de palavra, de desabafo - para que outras mulheres se vejam, para que homens ouçam e finalmente as enxerguem.

O texto passa por relatos sobre quase todas as fases da vida de uma mulher. Desde a gravidez e a descoberta da chegada de uma outra mulher, a infância e suas influências de todo tipo de estímulo padronizado, a adolescência e as inúmeras experiências traumáticas que uma jovem mulher pode sofrer, a vida adulta da mulher que tenta falar e muitas vezes nem sabe disso. Falam daquilo que lhes diz respeito, daquilo que está presente em suas vidas, dos momentos passados por elas. Não falam daquilo que não sabem. Em fragmentos e quadros, vemos na cena os relatos que parecem óbvios, mas que, afinal, precisamos repetir todas as vezes que pudermos. Somos mulheres e todos vocês sabem disso. Sabem também que sofremos assédios diários, somos estupradas pelos namorados que dão presentes, mas não sabem ouvir não, somos taxadas de “loucas, tristes ou más” quando não seguimos suas regras, se os tiramos do seu conforto patriarcal. Mesmo assim Diário é necessário, por mais óbvio que pareça.

Cinco mulheres em cena, uma dramaturga e sonoplasta, uma diretora. Elas nos mostram o que nós mulheres já estamos carecas de saber, de passar e mesmo assim nos tocam. A maneira como a cena é conduzida mistura momentos de desabafo, feitos em um microfone, talvez para amplificar ainda mais que essa voz precisa ser ouvida; e momentos de ação cênica, em quadros que dramatizam situações vividas pelas mulheres da cena e por outras tantas. Há momentos em que a direção propõe um clima mais leve que conota certa “descontração”, nestes é preciso ter uma atenção especial para que não se banalize o conteúdo com interpretações demasiadamente delimitadas pela idade das personagens e um corpo que carece de intenção e tônus. As cenas que pedem mais dramaticidade podem e devem ser mais aproveitadas - o texto deve ser degustado - seja ele amargo ou aprazível.

As atrizes demonstram domínio do espaço, das movimentações e se resolvem em cena mesmo quando algum imprevisto técnico acontece. Apesar da escolha da direção em conduzir o espectador unicamente através do trabalho de interpretação, anulando grandes cenários e invencionices de elementos elaborados, a estética - ou a ausência dela, na encenação comunica e orna com a proposta. Talvez as escolhas da condução simplificadas possam ganhar potência se forem guiadas para que as atrizes saiam da sua zona de conforto um pouco mais.

É um espetáculo assumidamente panfletário e didático e isso não o diminui e nem anula sua importância, mas o discurso já nos leva para lugares como o desconforto naturalizado e a identificação, por isso a ação precisa extrapolar-se, transcender-se para que possamos embarcar ainda mais nesse Diário.

O trabalho merece ser aplaudido e circular por todos os lugares da cidade e do país, quiçá do mundo. A equipe já caminha para a maturidade do espetáculo e quanto mais o fizerem mais terão suas vozes ouvidas através de excelentes profissionais.

Espero que perdure e que mais mulheres possam ver e gritar: “o homem não me define, minha carne não me define, eu sou o meu próprio lar”.

 

Manaus, 24 de novembro de 2019

 

Thais Vasconcelos

 

 

 

 

Ficha Técnica:

 

Direção: Thiana Colares

Dramaturgia e sonoplastia: Priscilla Conserva

Elenco: Giese Santos, Thay Lyartes, Ananda Guimarães, Samanta Leite e Dávilla Holanda.

Produção: Rafaela Margarido



[1] Thais Vasconcelos é atriz e dramaturga amazonense. Mestre pela Universidade do Estado do Amazonas, através do Programa de Pós-graduação de Letras e Artes (PPGLA/UEA). É bacharela em Teatro pela UEA, com graduação sanduíche na Appalachian State University (Carolina do Norte, EUA).



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