ano 3, n. 2, ago. 2021

A alegoria do caos em Tartufo-me, da UM teatro produções

Klara Cruz de Oliveira[1]

           Se estivéssemos em um filme de viagem temporal, esse seria o momento em que entramos em uma realidade completamente caótica e distorcida. Porém, se tivéssemos realizados algumas ações lá atrás, evitaríamos drasticamente grande parte dos males hoje acontecidos. Entretanto, infelizmente não estamos em uma produção audiovisual ficcional, e tampouco temos como voltar atrás e evitar que uma onda de conservadorismo desenfreado assole o Brasil.

            Desde a metade da década passada, estamos vivendo um dia, e regredindo três. Mas isso não aconteceu de um momento para o outro, todos os declínios sociais e humanos hoje ocorrendo, foram sendo construídos a passos médios, e um dos principais elementos incitadores desse conturbado momento histórico que estamos vivendo advém do fundamentalismo religioso, empregado principalmente pelas instituições e colaboradores que pregam a mensagem da Terceira Onda do Pentecostalismo. Pois, a partir do momento que compreendemos partes da atuação dessas figuras perante ao círculo social que tentam alcançar, maior são as similaridades específicas que vemos estes possuírem em consonância aos demais núcleos espalhados pela geografia do país, referente a mesma instituição.

            Nesse sentido, é compreensível que diante de tais acontecimentos, a arte e suas urgências se tornem elementos desencadeadores capazes de expurgar essas inquietudes. E é isso que Tartufo-me, do grupo UM Teatro produções discute no respectivo trabalho. Com direção de Tércio Silva, que também assina a iluminação, cenário e figurino, o espetáculo também possui Jeferson Mariano como responsável pela direção e execução musical. As fotos de divulgação da obra ficam ao encargo de David Penafort e Romulo Juracy, e as projeções que ocorrem ao longo da encenação é realizada por Ramon Senna. E Dimas Mendonça concebe cenicamente a figura do tartufo.

            O texto trazido ao espetáculo, foi adaptado por Dimas, e é inspirado na peça Tartufo, do dramaturgo francês Moliere. Escrita por volta de 1664, a obra utiliza a comicidade como uma forma de abordar as relações sociais em que a religião se apresenta de forma intensa, e como em muitos casos, os portadores desses vínculos são afetados com a sede por poder e autopromoção, utilizando assim a dogmática religiosa para fins próprios. Os escritos que inspiraram o espetáculo da UM teatro produções, utiliza como plano de fundo os aristocratas da França do século XVI, que utilizando da religiosidade tentam a todo custo se manter no topo da estrutura social.

            Assim acontece com Tartufo-me, com Dimas Mendonça trazendo aos palcos a persona repugnante, sádica e com discursos cruéis. Isso tudo envolto de uma comicidade satírica que nos conduz à um enebriamento de risadas fáceis, mas que logo nas primeiras cenas do espetáculo, conseguimos assimilar ao discurso não sendo apenas um cômico jogo de palavras para acertar o público como um alvo fácil, e arrancar-lhe risadas. Mas os ditos se fazem similares as principais figuras públicas que possuem em sua ascensão social um enorme catálogo de discursos de ódio realizados publicamente. Diante desse ponto, observamos que a inspiração dramatúrgica para o espetáculo, foi sustentada de forma axiomática, e principalmente é estruturada enfaticamente do início ao fim do espetáculo.

            Um elemento intrigante em relação à dramaturgia de cena, está numa condição quase cíclica apresentando o protagonista do espetáculo. O início nos conduz a ideia de desesperança, solitude e medo, e ao longo da obra, vemos essa figura se metamorfoseando no algoz carrasco e ensimesmado. Além disso, a presença da massa de pão sendo moldada e remolda ao longo dos primeiros momentos da encenação, nos levam aos questionamentos que vão desde as referências bíblicas acerca do símbolo que o pão carrega nas religiões cristãs, perpassando pela ideia de figuras fraternais que tentam modelar seus primogênitos à sua maneira, ou então, seria esta uma metáfora ao nascimento de um tartufo na sociedade?

            O discurso em Tartufo-me se potencializa com os elementos visuais presentes ao longo do espetáculo. Apesar destes serem colocados em momentos oportunos ao longo da encenação, os signos que acometem a representatividade dos objetos cênicos, possuem uma imensa presença plástica na visualidade da cena, ao mesmo tempo que são de caráter minimalista como uma mesa, um púlpito e uma cruz feita em luz de led. Nesse conjunto sedimentado de informações, com o trabalho de iluminação e a sonoplastia da peça, trazem uma corporatura para a peça à um nível tecnológico usualmente vigente nos tempos atuais. E isso, concatena até mesmo com as novas propostas das instituições religiosas em tornar o ambiente mais agradável ao público juvenil.

            A obra da Um teatro produções, foi inicialmente apresentada antes das eleições de 2018, naquele momento já era possível observar o que viria mais futuramente. Se levarmos em consideração os atuais acontecimentos no Brasil, e principalmente no Amazonas, vemos que dentro de um círculo de ações de 2017 pra cá, tudo se encaminhava para a história que está acontecendo nos dias atuais. O ator que conduz o monólogo em quase 50 minutos e apresentação, subverte o espaço-tempo e nos mostra como alguns discursos são atemporais, e podem se repetir ao longo da história da humanidade. É possível observar através do personagem, um cidadão desesperado, pois todo o trajeto cênico do ator é desordenado, nervoso, quase como se estivesse exorcizando um dogma pessoal, gritando coisas não gritadas.

            A obra foi apresentada na noite do dia 24 de abril, pela plataforma de videoconferência Zoom. No dia anterior, o atual presidente da república federativa do Brasil, recebeu o título de cidadão amazonense das mãos da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas – ALEAM. Vale lembrar que no Amazonas, o atual responsável por presidir o Brasil, venceu com cerca de 50,28% das votações, mas, grande porcentagem dos votos vieram expressivamente nas zonas eleitorais de três estados, e o principal deles foi Manaus com 65% dos votos no total. E por coincidência do destino, a mesma cidade que há alguns meses atrás foi responsável por protagonizar um cenário caótico perante o enfrentamento do percalço virológico que hoje nos assola, com números exorbitantes de infecções e óbitos.

            Mediante a isso, observamos que Tartufo-me, ao transformar o palco de um teatro, em um altar de saudação, não de uma figura divina, mas do ser humano em uma de suas piores facetas, demonstra que o uso de visualidades atrativas, e divertidas comicidades, podem se esconder discursos cruéis e homicidas. O espetáculo surge como um ato de insurreição. Não possui tempo para respiro, é nervoso do começo ao fim, não nasce com resolução, tampouco com desfecho. Assim como todo o prenuncio da obra, discutida até aqui, seria esse mais um? Uma vez que a realidade se faz imposta, nem todos possuem forças para continuar, manter um firme posicionamento, enquanto outros encontram forças de resistir. O teatro muitas vezes é encarado como ponto de fuga, mas este não possui projeto de poder, o mundo é maior que a gente, para onde vamos?

Alguns pensamentos nessa crítica foram emprestados das seguintes fontes:

 

ALENCAR DE, Gustavo. Evangélicos e a Nova Direita no Brasil: os discursos conservadores do “neocalvinismo” e as interlocuções com a política. Teoria e Cultura. Juiz de Fora, v. 13, n. 2, p. 101 – 117, 12, 2018.

 

AMAZONAS ATUAL. Bolsonaro venceu Haddad no Amazonas com votos de três municípios. Amazonas Atual, 2018. Disponível em: <https://amazonasatual.com.br/bolsonaro-venceu-haddad-no-amazonas-com-votos-de-tres-municipios/>

 

G1 Amazonas. Veja como foi a distribuição de votos de Bolsonaro e Haddad no Amazonas. G1 Amazonas, 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/eleicoes/2018/noticia/2018/10/29/veja-como-foi-a-distribuicao-de-votos-de-bolsonaro-e-haddad-no-amazonas.ghtml

 

ROCHA, Karol. Em visita a Manaus, Bolsonaro recebe título de Cidadão Amazonense. A Crítica, 2021. Disponível em: <https://www.acritica.com/channels/manaus/news/bolsonaro-recebe-titulo-de-cidadao-amazonense-muito-orgulhoso>



 

[1] pesquisadora em artes da cena, bacharela em teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (2018). Mestranda em Letras e Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Artes – PPGLA, e bacharelanda em Dança pela Universidade do Estado do Amazonas. Atua principalmente em pesquisas que buscam a observação do discurso imagético nas poéticas visuais nas artes da cena.

baixar texto completo em PDF