ano 3, n. 2, ago. 2021

A performance “Cabô” de Vitor Rocha é a junção de arte&política evidenciando o antirracismo

Paulo Tiago[1]

Foto espetáculo Cabô.jpg

          O artista Vitor Rocha, estetizado com indumentárias de cor branca e vermelho vivo, a céu aberto, evoca energias extracotidianas para instaurar perspectivas acerca da negritude. O ator-performer em cena carrega à sua imagem diversos “Meninos”,“Neides” e provoca angústia com a linguagem da palavra. A narrativa da performance é releitura de “Cabô”, música da cantora Luedji Luna.

         O debate ao final da exibição pôde proporcionar o levantamento de questões imagéticas, possibilitando o explanar do processo criativo. A abordagem da narrativa, para além da música “Cabô”, parte de questões pessoais: memórias, vozes, sinais, vivências — palavras utilizadas pelo artista para descrever a constituição da sua apresentação. 

         A performance “Cabô” possui trajetória, tive contato com a obra anteriormente ao festival PAN - Potência das Artes do Norte. Contudo, ao reassistir a performance, pude perceber mais a fundo a urgência de Vitor Rocha, que propicia reflexões com suas afirmações subsequentes e firmeza de opinião dentro e fora da encenação.

       

        A debatedora Klara Cruz enfatiza a performatividade presente ao longo da encenação, além de citar a denúncia social e a interação cotidiana, visto que o espaço aberto ocasiona perspectivas sobre as características simbólicas presentes em quem frequenta o Largo de São Sebastião, localizado no Centro Histórico de Manaus. 

         

          A importância do fazer teatral de artistas nascidos no final do século XX e início do XXI, pautada por Cruz no debate ao fim da exibição virtual da obra pré-gravada, faz refletir sobre o desenvolvimento cultural por percepções da época atual, constituídas a partir do aparato desenvolvido ao longo da história. 

         

          O artista enfatiza ter apresentado a obra em mais zonas da cidade de Manaus e posiciona-se ser contrário às condutas ideológicas do atual governo abertamente — o espectador atento de “Cabô” pode perceber tal reflexo na cena.

       

       A “pluralidade do branco” também foi mencionada por Vitor, característica da performance “Cabô”, devido ao fato de diversas inquietações terem provocado a constituição da narrativa que é executada por meio do cruzamento de linguagens, com ponto focal no ativismo presente do início ao fim. 

     

       No mais, a decisão do espaço para a realização da performance “Cabô” viabiliza a formação de apreciadores da arte cênica e propaga o antirracismo para o inconsciente coletivo, nesse sentido, a obra performática faz-se bastante pertinente na atual conjuntura do país, viabilizando o levantamento de problemáticas sociais. 



 

[1] Paulo Tiago ou Ianque Ubiratan é bacharelando no curso de teatro da Escola Superior de Artes e Turismo da UEA, integrou ao Programa de Iniciação Científica pela FAPEAM entre 2018-2019 debruçando-se em pesquisas acerca do treinamento do performer e narrativa cênica a partir da vivência cotidiana, além disso, dirige espetáculos no Coletivo Erva Daninha e estagiou na Cia Ateliê23. Em 2020 integrou a equipe do Núcleo de práticas meditativas no treinamento do artista - NUPRAMTA, se debruça em estudos teórico-práticos acerca do treinamento psicofísico e antropologia da performance. As principais iniciativas do artista são “Estrangeiro”e “Rua 9” no Coletivo Erva Daninha; na graduação “Escorro”, “Angústia” e “A Balada da Independência Emocional”, além de contribuir em "Relicário", “Janta” e “Helena” da Cia Ateliê23. Atualmente participa em “Apneia: Ofélias”, “Entre Esmaltes e Trapaças” e “Amor-ta” no NUPRAMTA.

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