ano 3, n. 2, ago. 2021

Arte&Vida: Sobre Lourdes e Viviane

Paulo Tiago[1]

Sobre Lourdes e Viviane - foto 2 de Tiago Bassani (1).jpg

         A obra artística “Sobre Lourdes e Viviane” relata artisticamente a relação entre mãe e filha, gerações carregadas de memórias e inúmeros relatos imagéticos tecidos em onze minutos. Os parágrafos a seguir propõem a análise aplicada da obra artística citada que compôs a programação do Festival PAN - Potência das Artes do Norte. O debate ao fim da sessão viabilizou o destrinchar de diversas perspectivas sobre a obra que abarca características de fortes teores performáticos apontados a seguir. 

 

        O tempo de Lourdes em consonância com o tempo da filha Viviane, produz eco no espaço virtual, traz a tona corporeidade que ultrapassa o mero entretenimento, visto que o contexto narrativo é passível do real abstrato da vida: obra performática relata e registra o passado visto pelo agora. No debate, Lourdes relembra da ida de Viviane para São Paulo, sobre o aperto no peito em ver a filha arrumando as malas para deixar o local estático de origem e criação, ou seja, a obra tem caráter puramente afetivo e está o tempo inteiro em sincronia com o estado emocional das artistas e espectadores presentes na partilha do conteúdo. 

 

      O debate após a apresentação é crucial para preencher toda e qualquer lacuna provocada pela apresentação. O depoimento de Lourdes que abre sua caixa de lembranças e explana para os internautas suas memórias que compõem a dramaturgia, conduzem a imagens ilustrativas de corpo, resistência e simplicidade. A duração da obra consegue captar a atenção dos espectadores presentes na exibição, grande desafio do teatro digital, sobretudo em trabalhos delicados como “Sobre Lourdes e Viviane”. 

 

       O gerir por tempo longo ou curto o processo de criação da obra artística, fecundada pela literatura de Mia Couto que engatou inquietação no útero simbólico de Viviane que partilha a cena com sua matriarca, eclode com arcabouço de signos, cenas, marcas e vozes que proporcionam ao espectador um curto período de conexão entre as matrizes de percussão da hereditariedade, principal característica do espetáculo em questão. 

 

       A precariedade posta como potência, forma o caráter simplista da arte em obras contemporâneas, além da necessidade de expressar a si para o entorno, seja com intuito de registrar, lembrar, informar ou simplesmente conhecer a si por meio da análise sob a própria vivência. A sobreposição de imagens que se faz possível por conta da edição de Tiago Bassani, com o filtro em preto e branco, com os cortes das cenas, encaminham o leitor teatral a revisitar o passado por meio de instâncias do real abordadas pelo corpo-voz das performistas.  

 

         No debate, Jhoão Scapa, amigo-irmão de Palandi, contou seu depoimento em relação à experiência com a obra bastante emocionado, levando em consideração que a intimidade com a vida e trajetória da artista facilitou o toque em camadas profundas do espectador, contou que sua mãe faleceu sem nunca ter visto o filho atuar. 

 

         Embarcando na genética da obra, mesmo lidando com uma realidade pandêmica que inseriu os artistas no meio digital, penso que o caráter da teatralidade presente no registro audiovisual, posteriormente editado e apresentado a determinadas pessoas em sessão digital efêmera produz sensação similar a do teatro presencial, mas possui bastante caráter cinematográfico.

 

         Ao fim da exibição da obra, Viviane Palandi utiliza a palavra “guardião” para definir os parceiros que provocam a evolução do processo. O “campo mágico e intuitivo” definido pela atriz ao decorrer da criação possui bastante relação com o sagrado e muito lembra o teatro laboratório desenvolvido por Jerzy Grotowski. “Sobre Lourdes e Viviane” faz-se necessário para lembrarmos sobre a importância do registro, sobretudo de afetos e memórias no campo infindável do teatro.



 

[1] Paulo Tiago ou Ianque Ubiratan é bacharelando no curso de teatro da Escola Superior de Artes e Turismo da UEA, integrou ao Programa de Iniciação Científica pela FAPEAM entre 2018-2019 debruçando-se em pesquisas acerca do treinamento do performer e narrativa cênica a partir da vivência cotidiana, além disso, dirige espetáculos no Coletivo Erva Daninha e estagiou na Cia Ateliê23. Em 2020 integrou a equipe do Núcleo de práticas meditativas no treinamento do artista - NUPRAMTA, se debruça em estudos teórico-práticos acerca do treinamento psicofísico e antropologia da performance. As principais iniciativas do artista são “Estrangeiro”e “Rua 9” no Coletivo Erva Daninha; na graduação “Escorro”, “Angústia” e “A Balada da Independência Emocional”, além de contribuir em "Relicário", “Janta” e “Helena” da Cia Ateliê23. Atualmente participa em “Apneia: Ofélias”, “Entre Esmaltes e Trapaças” e “Amor-ta” no NUPRAMTA.

baixar texto completo em PDF