ano 4, n. 1, abr. 2021

ARTE E PANDEMIA – reflexões múltiplas sobre a potência dos encontros

Amanda Gabriel 

Quando fui convidada a elaborar um pensamento sobre ARTE e PANDEMIA muitas questões se apresentaram e vou aqui tentar tecer uma malha que sem dúvidas terá falhas e buracos. Este texto é um convite a uma costura coletiva. É um fato sabido que escrever no olho do furacão da história é exercício de fabulação. Portanto, propus a mim mesma o desafio livre de espiar o passado para imaginar o futuro.

 

Pestes e epidemias são pontos marcantes de nossa história e grande parte de suas narrativas chega até nós através dos registros de artistas de inúmeras linguagens. Elas marcam grandes viradas da história da arte, o surgimento de vanguardas e avanços da ciência, novas tecnologias. Olhando em torno, não é difícil perceber as inovações que surgiram ao longo desse ano. Estaríamos vivendo uma revolução estética?  Ou seria tudo isto reflexo do instinto de sobrevivência e de nossa incrível capacidade de adaptação?

 

Uma das narrativas romantizadas sobre pandemias e artistas que povoou as redes, (que parecem ter ocupado o espaço do imaginário coletivo de nossos tempos), é de que Shakespeare havia escrito uma de suas mais impactantes obras durante uma quarentena. “Rei Lear” seria fruto do isolamento e ócio criativo. Mas seria mesmo? Não há nada que comprove essa teoria, porém, ainda que tenha sido, o que despertou meu interesse foi o que mais ele fez ao longo dos 2 anos em que os teatros permaneceram fechados: Shakespeare se adaptou às circunstâncias históricas. Teria sido esse um período prolífico na escrita de poemas. A mudança se deu por motivos econômicos e só foi possível graças a uma recente e transformadora tecnologia: a impressão. Adônis e Vênus, uma epopeia levemente erótica de mais de 1200 versos, foi um best-seller entre os abastados de Londres, e permitiu que o autor sobrevivesse ao período. Ao que tudo indica, nessa época ele teria finalizado Macbeth e Antônio e Cleópatra, preparando-se para quando a vida voltasse ao normal e os teatros fossem reabertos.

“A vida não é mais que uma sombra que vaga, um ator ruim que se pavoneia e se aflige quando chega sua vez sobre o palco e, depois, nada mais se ouve. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada.”

 

Macbeth, Ato V, Cena V

Não é nada difícil traçar um paralelo entre seu tempo e o nosso: adaptamo-nos usando as ferramentas que tínhamos nas mãos. Espetáculos filmados, performances por streaming, todo tipo de interação e jogos de cena através de celulares e câmeras. Grace Passô produziu sua própria obra-prima ainda no início da quarentena. “República” é um filme que surge do encontro de uma atriz, diretora e dramaturga com uma fotógrafa, ambas trancafiadas em casa, sonhando o mundo a partir da janela.

 

William e Grace têm em comum, além da genialidade indiscutível que os permite registar a história em curso, a capacidade de adaptar-se. Assim como tiveram os atores elisabetanos que se colocaram em carroças e migraram para o interior com seus espetáculos usando uma tecnologia antiga, mas que ainda funcionava: o teatro de rua.

 

 Se “o artista vai aonde o povo está”, seriam as lives e streamings a versão contemporânea do que as carroças foram para os artistas da Peste? Se sim, há um paradigma que apresenta-se a nós, e penso que um problema a ser solucionado: ao invés do espaço público e do acontecimento presentificado, nossos “encontros” tem se dado na intimidade extrema do lar, arrisco dizer, na da cama de nosso público, intermediados por um tela mínima, disputando atenção com notificações e todo tipo de interrupção.

 
Ainda no começo de tudo, parecia-me que tínhamos em mãos uma incrível ferramenta de acesso cultural, ainda mais quando falamos das periferias do Brasil que quase não recebem filmes e peças dos circuitos de arte sudestinos. Mas não tardou para que eu me sentisse soterrada por inúmeros links, convites e eventos imperdíveis. O descompasso entre o tempo das telas e da vida real tornou-se insustentável. Quando finalmente parecia que teríamos tempo para tudo, (nós os privilegiados da autoquarentena, do home office ou ainda do ócio compulsório) não temos tempo para nada. É possível continuar nesse ritmo? É possível produzir nessa demanda quando finalmente voltarmos ao “normal”?

 

São indiscutíveis a validade e a relevância artística das obras produzidas ao longo desse ano que parece não acabar: fruto das nossas inquietações, urgências e dessa maravilhosa habilidade de adaptação. Mas me pergunto: do que não podemos abrir mão? O que não podemos deixar para trás?

 

Ainda refletindo sobre a adaptação como aptidão evolutiva essencial de nossa espécie, vem-me à mente um ensaio do processo de A Febre (2019), filme de Maya Da-Rin, realizado em Manaus. Contávamos com um talentoso elenco de artistas dos povos originários. A troca de saberes e o compartilhamento de tecnologias criativas foi ponto de partida e fator determinante na construção dos personagens. Num filme sobre o encontro e conflito entre dois universos não poderia ser diferente. Era necessário abrir portais e erguer pontes. Foi assim que num dos ensaios propus uma dinâmica baseada no conceito de Soft Focus, assim nomeado por Anne Bogart e Tina Landau na elaboração de seus View Points. O exercício consistia basicamente em caminhar pela sala, usando Soft Focus, ou seja, uma perspectiva ampliada, cuja atentividade[1] (awareness no original) está mais nas periferias do olhar do que no centro. Dizendo assim pode parecer complicado, mas é simples: estique seus braços à frente com os dedos indicadores para cima. Foque neles. Lentamente comece a afastar as mãos, mantendo os dois dedos indicadores no seu campo de visão. Pronto. É isso. Realizamos a atividade alternando entre o “olhar amplo” e o “olhar predador” (cujo foco é o centro da visão).


Regis Myrupu, Dessana, ator e protagonista do filme, nomeou o soft focus olhar de “olhar de caçador”. E explicou: ao adentrar numa floresta, nunca se sabe onde está a caça ou o perigo. Somos ao mesmo tempo, presa e predador. É preciso estar atento ao todo. Somente ao perceber um movimento, “uma folhinha que se mexeu ali embaixo”, ou ao ouvir um pequeno ruído, o caçador “foca” em um ponto específico. Seu olhar é como uma flecha.  Ao fazer isso, ele em poucas palavras e com lindos gestos, realizou a síntese e ilustração perfeitas do que as americanas levam algumas páginas para deixar claro no livro. Que grande epifania eu tive! Anne e Tina em verdade propuseram o uso de uma ferramenta adquirida ao largo de milênios de evolução: por necessidade de sobrevivência e adaptação ao risco, nosso complexo aparelho de percepção visual tem sua maior área formada por bastonetes, e são eles responsáveis pela percepção de movimento! Ao usar esse olhar, ativamos uma parte muito antiga e primitiva de nosso cérebro. Usando a fisiologia, ativamos um estado de presença que independe de nosso julgamento ou dos sentidos ditos "superiores”. E mais: ampliamos sem nenhuma intencionalidade, nossa escuta!

 

Quando nos encontrarmos novamente,

você vai colocar suas mãos sobre mim?

vou te cavalgar nas nossas terras?

vamos dormir debaixo de árvores na chuva?

Você deve ficar mais jovem enquanto eu lambo o seu estômago

quente e em repouso, antes de nos ausentarmos novamente

você será a fúria branca no meu umbigo

Serei sua noite

Audrey Lord[2]

Mais do que me preocupar com qual será o “Rei Lear” da nossa geração, eu me pergunto como estamos nos preparando para o mundo quando ele se abrir?  Gosto de ter em mente a perspectiva do retorno aos encontros: em ensaios, sets de filmagem e salas de teatro e exibição, aos festivais e debates. Anseio pela reação física que ecoa no espaço e que nos lembra que salas de cinema são uma experiência coletiva, quando 900 pessoas reagem em uníssono a um plano de “Tubarão” (Spielberg, 1982) num cinema São Luiz  lotado, ou à já antológica cena de Bacurau (Mendonça Filho e Dornelles, 2019) que gera reações sonoras cada vez mais raras nas salas de cinema burguesas, onde se paga caro, para fingir que estamos vendo cinemas sozinhos.

 

Ao olhar para trás, vejo que a arte surgida de eventos traumáticos cumpriu duas funções: elaborar coletivamente o luto e o absurdo e celebrar a sobrevivência. Em ambas, a escuta e o encontro são potências amplificadoras.

Atenção, precisa ter olhos firmes

Pra este sol, para esta escuridão

Atenção

Tudo é perigoso

Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

Caetano Veloso

Em seu ensaio “Ação física: Afeto e Ética[3] , Renato Ferracini propõe um estado perene de treinamento:

 

“(...) por meio da composição de afetos, e não da ação consciente no tempo-espaço e da precisão de sua mecanicidade, ampliamos o conceito de “treinamento”: um “treinar” pode estar inserido na ação de, por exemplo, sair às ruas e vivenciar experiências, observar os fluxos cotidianos, olhar as relações sociais a ponto de gerar um afeto, uma experiência e uma vivencia intensiva. (...) O importante é encontrar potências de experiências que produzem vivências e que em si mesmas mantém sua força vital: experiência como forças motrizes que, lançadas como virtuais potentes na memória dos atuadores, serão sua fonte inesgotável de diferenciação” [4]

O que Ferracini nos apresenta é um ator-caçador: alguém em eterno estado de alerta por necessidade de sobrevivência. Olhar e escuta ativos e ampliados.  É preciso estar no mundo, no outro, na vida.

 

“Eu estou convencido que se há um talento para atuar, esse é o talento de escutar”

Stanford Meisner

 

Depois de tanto tempo de contração e encolhimento é esperado que algo tenha atrofiado. Temo que a capacidade de perceber o entorno e o outro seja uma delas. Por isso, minha aposta é para que exercitemos a musculatura da percepção e da empatia. Afetar-se no sentido mais físico da palavra. Ver e ouvir, olhar e escutar. Estar diante do outro e deixar brotar do encontro a faísca criadora. A escuta é uma estratégia ancestral para permanecer vivos. Seja na vida, no processo de ensaio ou na cena, é o que faz com que estejamos “no outro” ao invés de ensimesmados, pois que emparedar-se em si mesmo é castigo que não merecemos.

 

A verdade é que quando “passar”, esse mantra que repetimos todos os dias, ou quando “acordarmos” DESSE pesadelo, ainda estaremos dentro de outro chamado Brasil. E não há outra forma de enfrentar nossas mazelas se não for através do encontro e da escuta ativa, verdadeira e transformadora. Toda redenção está fora de nós. Está do lado de lá.

 

Nas minhas buscas pelo outro, minha janela tem se aberto aos estudos das cosmogonias afro-brasileiras e ameríndias. Sofisticadas epistemologias e tecnologias sociais que só não foram apagadas pelo colonialismo porque compartilhadas e vivenciadas, inclusive corporificadas.

 

Já na introdução de seu artigo, “No embaralhamento com Exu”, Luisa Mesquita Damaceno, nos apresenta a natureza do orixá:

“Singrando com cuidado e gingando com a maré, me lanço nesse emaranhado de muitas possibilidades que é navegar em/com exu. O cavaleiro andante e menino reinador como disse certa vez Jorge Amado. E nada mais propício do que iniciar essa tessitura com o padê. O encontro. Exu é o guardião dos entrecruzamentos, dos pontos de contato, das relações. É a partir do encontro que surgem as mudanças, o movimento. É dele também o papel de zelar e prover o movimento. Ele é o próprio movimento, dizem alguns."[5]

 

 

Por muito anos pensei em encruzilhadas como pontos de partida de novos caminhos, como passagem. Signos de dúvida e reflexão interiorizada. São inúmeros os mitos e narrativas que dividem os caminhos entre bem e mal, certo e errado, fácil ou difícil. Exu nos lembra, no entanto, que encruzilhadas são, acima de tudo, pontos de chegada, espaços de confluência e encontros. Terreno sagrado.

 

Adotei a metáfora dos cruzamentos para definir os processos de ensaio e preparação ao invés da imagem linear da estrada. Que outra imagem poderia definir o encontro de Bogart e Landau, com a sabedoria dos povos da floresta no centro de uma urbe cravada no coração da Amazônia? Minha memória me lembra agora que nos jardins desse mesmo palácio assisti à visita de um Xangô muito velho e sábio e de uma Oxum zelosa, Pai e Mãe de uma assistente do filme. São muitas as histórias que atravessam o solo fértil do território de criação.  

 

Este texto só poderia dar em uma encruzilhada. Ponto de chegada. Começo e não fim. Por isso mesmo não cabe um fechamento ou mesmo despedida, mas um até logo e o desejo de que o axé de Exu promova encontros e caminhos inesperados, para que possamos chorar juntos nossos mortos, e em sua honra, celebrar os vivos, a vida e a arte.

 

 

Amanda Gabriel é Preparadora de Elenco em Cinema e TV, branca, filha da classe trabalhadora, nordestina e mãe.

[1] Nota da Tradução da Edição brasileira de O livro dos View Points:
“O termo awareness foi traduzido como um estado imediato e sutil de atenção e de “escuta” de si mesmo e do ambiente, denotando uma dimensão cognitiva que se diferencia de certa forma do termo consciousness, este um grau mais reflexivo da experiencia.” (São Paulo: Ed Perspectiva, 2017

[2] Trecho do poema Encontro, de Audrey Lord, traduzido por  Tammuzs, em https://tammuzs.medium.com/tradução-do-poema-meet-de-audre-lorde-a98929f480eb

[3] FERRACINI, Renato, ENSAIOS DE ATUAÇÃO. São Paulo: ED. Perspectiva, 1970

[4] ibidem , p.126

[5] Olojá:  Entre encontros- Exu, o senhor do mercado

https://periodicos.unb.br/index.php/dasquestoes/article/view/16208

Revisão de Janaina Siqueira

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