ano 4, n. 1, abr. 2021

Arte Pandêmica

Francis Madson

O projeto Arte Pandêmica é um braço da Arte Documenta!, revista eletrônica trimestral  do Grupo Garagem, que constitui-se metaforicamente como o Rio Madeira para o Rio Amazonas, sendo o principal afluente à margem direita. Para iniciar o percurso desse ensaio tomaremos de empréstimo a experiência marcada no corpo de ter percorrido o afluente até a cidade de Manaus, mas, também, da relevância dos rios para a região Norte.

O Rio Madeira é um rio novo, rápido, de águas revoltas e sedimentadas que, ao realizar o percurso, arrasta as margens, beiradas, árvores, troncos e vegetações de várzea. É uma força da natureza que atravessa eras geológicas comunicando à terra sua grandeza de rio vivo, mas, também, sua relevância para a comunidade beiradeira e das pequenas cidades-culturas ao longo de sua trajetória. Contudo, no projeto de sociedade do século XVIII, na qual a ciência e a técnica impulsionada pelo pensamento dos fisiocratas tornaram a natureza o principal recurso de riqueza. Recursos naturais, agricultura e mineiro tornariam a sociedade iluminista o modelo ideal de sociedade.

O modelo social do século XVIII está sendo duramente criticado durante todo o século XX em todas as áreas do conhecimento, da filosofia às artes. O padrão é uma repetição sem quaisquer possibilidades de emancipação. É uma armadilha tão poderosa que tem hábitos poderosos de continuidade, pois instalou-se tão fortemente na própria subjetividade, fazendo parte de nós. Somos essa própria sociedade carcomida. Evidentemente, esse tipo de afirmativa pode transparecer uma forma calejada de manifestação, mas é justamente o contrário, pois a afirmativa está a serviço. À medida que o avanço dessa sociedade define todas as instâncias, do outro lado, ou melhor, de outros lados, coexistem inúmeras outras formas singulares de sujeitos e culturas que resistem ao processo avassalador do progresso.

São forças disruptivas de tal relevância e capacidade rizomática, na qual os binarismos não cabem na prática e, muito menos, na teoria, como formas de nomear as suas singularidades.

A resistência é um desejo concreto que exige ao manifestante habilidades técnicas e societais para ampliar suas capacidades de comunicação. São essas faculdades (a)técnicas e (a)teóricas (não acadêmicas) que possibilitam vozes, sujeitos, comunidades e culturas na manutenção dos seus microcosmos culturais defrontem o tsunami, que habitualmente nos acostumamos a chamar de globalização, mas, no sentido estrito, é uma nova forma de imperialismo.

Em 1963, Alejandro Jodorowsky, Roland Topor e Fernando Arrabal criaram o Grupo Pânico. No prefácio do livro “Panique” de Fréderic Aranzueque – Arrieta começa com frases como “la base du Panique: c´est explosion de la raison” (Arrabal). Arrabal afirma que o movimento pânico é um antimovimento, por exemplo. Trago para a reflexão do ensaio o movimento da década de 70 por carregar o prefixo “pan” como dispositivo poético e analítico análogo ao projeto e a pandemia COVID – 19.  É um arranjo da linguagem para usufruto poético e analítico.

Os movimentos disruptivos são desejos concretos que atravessam toda a história da sociedade ocidental. São dezenas, centenas e milhares de exemplos de ações, sujeitos, vozes que estão à serviço da resistência aos processos de opressão da bolorenta sociedade forjada do século XVIII. Eles acontecem nos grandes centros, nas bordas, entre os lugares, são visíveis e invisíveis. Dá-se a impressão que processos de resistência acontecem em lugares legitimados, exclusivamente, mas, não, a insubmissão é de todos. Evidencia-se em todos os lugares e, à medida que avançam nos questionamentos, a violência altera o pH social nos convidando ao desequilíbrio. Não será (é) fácil.

A decolonização do olho, daquilo que vê língua, linguagem e sentindo, do pensamento, da subjetividade e dos corpos será uma guerra sem fim. Mas que deverá tornar-se uma ética interna em todos.

Portanto, partindo disso, a Arte Documenta! ao convidar Daniele Avila Small, crítica e curadora, da Revista Eletrônica Questão de Crítica para compor essa tertúlia de artistas, curadores, estudantes ao redor do encontro Arte Pandêmica nos faz perceber a força do encontro em relação à crise sanitária e política que estamos vivendo no mundo e, principalmente, no Brasil devido ao COVID – 19.

O projeto “Arte Pandêmica” flerta com as atitudes de artistas do século XX em construir novos paradigmas no tempo-espaço como projeto de resistência. Tanto é que começamos o trabalho do webnário com uma profunda reflexão da crítica Daniele sobre questões da linguagem teatral, virtual, real, linguagem, teatro, sociedade, encontro e ações como tentáculos e, logo depois, bens culturais (projetos audiovisuais) e debates no prisma incomum dada a instância na qual estamos vivendo sem a possibilidade do encontro presencial.

É possível que arte pandêmica possa surgir como dispositivo, mas, também, como armadilha principalmente, porque nomeia ou ajuda no processo de nomeação dos projetos artísticos vinculados no webinário. Acredito e brinco com as palavras para provocar que talvez esta nomeação como arte pandêmica possa nos ajudar a entender, a priori, essas produções culturais que estão sendo geradas em respostas as questões como isolamento social, problemas psicofísicos e relações familiares etc. Não diferentes outrora da glosa-glosa do teatro neurótico burguês que, por sinal, surge com a ascensão da sociedade burguesa.    

Há algo de mais instável que NÓS não conseguimos nomear, a priori, em relação as dinâmicas sociais e na linguagem que ocorrerão nos próximos anos após a pandemia do COVID-19. O teatro será o espaço desse debate.

Entre 2008 a 2016, duas grandes hidrelétricas foram construídas ao longo do leito do Rio Madeira, UHE de Santo Antônio e Jirau. A primeira, de Santo Antônio, fica no lugar da Cachoeira de Santo Antônio e, a segunda, fica alguns quilômetros antes. Na década de 90, você chegava até as cachoeiras de Santo Antônio pela margem do Rio Madeira na conhecida Maria Fumaça, aquela ferrovia conhecida pelo livro do Marcio Souza, Mad Maria que se tornou minissérie na Globo, e, também, pelo livro do historiador Marco Aurélio de Ferrovia do Diabo.

É válido ressaltar que as dinâmicas entre a sociedade fisiocrata do século XVIII que se apresenta como em diversas formas tendem a cooptar as forças da natureza na produção de capital, mais capital. Ou seja, é uma tendência comum aos fisiocratas capturar as forças da natureza, impondo a ela seus padrões com força e violência que retiram até mesmo uma cachoeira do leito de um rio para transformá-la em hidrelétrica em nome do progresso.

A Arte Documenta! é, para mim, ensaiador dessas palavras, o Rio Madeira, que deverá produzir em si e em todos os envolvimentos um convite a uma ética “antimovimento” que possa sempre fugir da cooptação do capital.

Resistência como ética interna. Evoé.

 

Revisão de Janaina Siqueira

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