ano 3, n. 1, fev. 2021

Quando ninguém pode amanhã, escrever liberta: memórias e representatividade

Pricilla Conserva[1]

Orientação: Profa. Ma. Fátima Maria da Rocha Souza

 

RESUMO: Esse artigo tem por objetivo levantar as questões de gênero que contextualizam a invisibilidade das mulheres que escrevem para o teatro, a partir de um registro autoetnográfico, dos estudos feministas pós-coloniais e da composição de quatro dramaturgias as quais escrevi durante a graduação no curso de bacharelado em Teatro da Universidade do Estado do Amazonas como autorreflexão sobre a representatividade da mulher que escreve para o teatro em Manaus.

Palavras-chave: Gênero, Mulher, Dramaturgia, Autoetnografia, Representatividade, Manaus.

 

ABSTRACT: This article has the purposes of bring up gender questions that contextualize the women invisibility in dramatics writing,by an autoetnography, postcolonial feminist studies and work of four compositions that I wrote while studying at Universidade do Estado do Amazonas Bachelors in dramatics, as an self-observation about the representativiness of the women that write dramatics in Manaus.

Key words: Gender, women, dramarturgy,  autoethnopraphy,  representativiness,  Manaus.

Introdução

    Para chegar ao contexto de representatividade de uma mulher, no município de Manaus, no teatro e na área de dramaturgia, o caminho de reflexão foi pensar gênero, a cidade, a história das mulheres inseridas na dramaturgia e os caminhos que me levaram ao meu entendimento enquanto “eu dramaturga”, levantando as questões de gênero que contextualizam a invisibilidade e o silenciamento das mulheres que escrevem para o teatro. 

 

No primeiro tópico, intitulado Gênero, feminismo e representatividade, farei uma análise da categoria gênero e suas implicações enquanto estudo para uma contextualização do enfoque que se pretende dar ao tema e ao feminismo mais alinhado aos estudos pós-coloniais de Gayatri Chakravorty Spivak e Deepika Bahri, que norteia essa análise. 

    Em Ser mulher em Manaus-AM reflito sobre alguns pontos que servem de pistas para uma origem do pensamento patriarcal da cidade de Manaus, que implica a violência de gênero, a pedofilia, os espaços de poder e o machismo que constituem a cultura local e invisibilizam o lugar de fala da mulher.

    A dramaturgia enquanto espaço de representatividade tem o foco na história das mulheres que escreveram para o Teatro no Brasil, os processos de inserção a partir da década de 1960. Também analiso, a partir disso, como o Teatro se mostra como lugar de discurso para as mulheres. Assim, utilizarei o termo representatividade enquanto presença das mulheres e visibilidade destas. 

    Em escrever liberta: minhas dramaturgias farei um breve relato das produções O mistério das lendas: a história nunca contada(2015), Quando encontramos sonhos perdidos nas roupas que costuramos(2015), Ainda bem que não tivemos filhos(2016) e Ninguém pode amanhã(2017). Analisarei essa produção enquanto processo pessoal de empoderamento, enquanto tomada de poder sobre si, consciente de sua condição enquanto mulher, a partir dos estudos feministas pós-coloniais e o quanto o lugar de fala na dramaturgia representa enquanto discurso a partir das minhas experiências dentro desses processos artísticos.

    Falar de mim, nesse contexto, é falar também de relações que me cercam, no contexto no qual estou inserida. Nesse ponto o estudo autoetnográfico se mostra enquanto método de pesquisa.

    As percepções do “eu”, pensando na pesquisa autoetnográfica, não se perdem das relações sociais, históricas e culturais que me cercam, aliás, essas percepções mostram-se fundamentais para a reflexão acerca dessas relações. Foi a partir de minha experiência pessoal que comecei a questionar o lugar de representatividade das mulheres na dramaturgia em Manaus.

    Traçar as minhas marcas, é, antes de tudo, registrar: há uma mulher escrevendo aqui. Há uma mulher que está pondo sua voz em cena através da dramaturgia. Entendendo que as marcas "são exatamente estes estados inéditos que se produzem em nosso corpo, a partir das composições que vamos vivendo" (ROLNIK, 1993,p.02).  Não será de responsabilidade do outro ou de legitimidade do outro, fazer esse registro senão de mim mesma. Para tanto, Judith Butler afirma em Um relato de si, que:  

    

Se eu tento fazer dar um relato de mim mesma, e se tento me fazer reconhecível e compreensível, devo começar com um relato da minha vida. Mas essa narrativa será desorientada pelo que não é meu, ou não é só meu. (BUTLER,2015,p.52)

    Isso implica que minha narrativa, mesmo trazendo aspectos estritamente subjetivos, é atravessada ou como coloca Butler, é desorientada por fatores externos que influenciam e são influenciados pela minha experiência pessoal. Chang, nesse sentido, nos apresenta uma definição do que é o método autoetnográfico:

 

What is autoethnography? Because autoethnography could mean different things to different people, I must clarify what I mean by autoethnography. The autoethnography that a promote in this book combine cultural analysis and interpretation with narrative details. It follows the anthropological and social scientific inquiry approach rather than descriptive or performative storytelling. That is, I expect the stories of autoethnographers to be reflected upon, analyzed, and interpreted within their broader sociocultural context. [2] (CHANG, 2008,p.46)

    Não se trata, entretanto, de uma abordagem egocêntrica, ou de apenas uma exposição autobiográfica. A autoetnografia enquanto um método científico utiliza-se dos processos subjetivos para refletir as relações sociais e antropológicas que norteiam a reflexão a partir da experiência pessoal, como reitera Versiani:

 

Em segundo lugar, o conceito de autoetnografia também parece para a leitura de escritas de sujeitos/autores que refletem sobre sua própria inserção social, histórica, identitária e em especial, no caso de subjetividades ligadas a grupos minoritários, também como um possível modo de conquistar visibilidade política. (VERSIANI, 2002,p.68)

 

    Pensar minha experiência a partir dos grupos nos quais me insiro, torna minha experiência artística um posicionamento político que se reflete em minha criação e na experiência coletiva de mulheres que escrevem em Manaus.  

Gênero, feminismo e representatividade

    Quando pensamos em gênero, a primeira relação que fazemos é a dicotomia entre homens e mulheres, acreditando que essa divisão delimita indivíduos e indivíduas psicológica e socialmente construídos para exercer uma dessas duas esferas. Entretanto, numa diversidade de atuações nas quais as/os indivíduas/os estão inseridas/os, o gênero aparece como “uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e mulheres” (SCOTT, 1998, p.07)

    Os estudos de gênero ganharam força dentro dos movimentos feministas nos últimos anos. As diferentes concepções que abordaram essas questões voltam-se para as origens da opressão feminina e para avanços na equidade entre os gêneros. O uso dessa categoria se coloca sempre com relações que incluem o sexo biológico, mas não é diretamente determinado por ele e também não tem relação direta com a sexualidade (idem). Para a abordagem das historiadoras feministas, Scott define três posicionamentos teóricos acerca da utilização da categoria gênero:

 

A primeira, um esforço inteiramente feminista que tenta explicar as origens do patriarcado. A segunda se situa no seio de uma tradição marxista e procura um compromisso com as críticas feministas. A terceira, fundamentalmente dividida entre o pósestruturalismo francês e as teorias anglo-americanas das relações de objeto, inspira-se nas várias escolas de psicanálise para explicar a produção e reprodução da identidade de gênero do sujeito. ( ibidem,p.09) 

 

  

 Scott define ainda gênero como um primeiro modo de significar as relações de poder. Falar de gênero é entender que as relações que o cercam colocam homes e mulheres em posições diferentes, sendo as mulheres deixadas na subalternidade. Reconhecer as desigualdades é um primeiro passo para tentar superá-las. Se enquanto grupo, nós, mulheres, temos menos chances de sermos encontradas na esfera pública do que os homens e quando conseguimos alcançar esses espaços geralmente o exercemos com menos condições, é necessária a reflexão sobre a equidade. Criar espaços de discussão e representação mais democráticos para aqueles e aquelas subjugadas à subalternidade.

    A década de 1960 caracterizou-se pelas organizações das lutas pelos direitos dos grupos que socialmente foram postos à margem nos espaços de poder, as ditas minorias, gerando um forte envolvimento político dessas organizações. Dentre elas, a forte presença do movimento feminista em grupos de trabalho, cursos, frentes de lutas populares e campanhas por reivindicações específicas torna-se um ponto importante para as pesquisas acadêmicas nos estudos de gênero. Nesse período, “a análise de Simone de Beauvoir constitui um marco na medida em que delineia os fundamentos da reflexão feminista que ressurgirá a partir da década de 60.” (ALVES; PITANGUY, 1994, p.52). 

 

    Beauvoir, apesar de ter escrito os volumes de O Segundo Sexo ainda na década de 1940, aparece como fundamental para a compreensão das questões socioculturais que constituem os papéis de gênero e impulsiona um novo olhar sobre a representação social do que é “ser mulher”, em sua conhecida passagem presente no segundo volume intitulado A experiência vivida, onde a autora afirma que:

 

Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino. (BEAUVOIR,2016, p11) 

 

     O feminismo, entretanto, não é um movimento único e homogêneo, nem poderia categorizar a mulher com uma única experiência histórica e cultural tendo como padrão o movimento feminista ocidental. Portanto, detenho minha análise nesse artigo a partir dos conceitos de feminismos dentro de perspectivas pós-coloniais, enquanto campo de estudos mais autônomo e contextualizado com a localidade de onde falo. 

    No artigo intitulado "Feminismo e/no pós-colonialismo", Deepika Bahri discorre sobre os conceitos que norteiam as discussões dos estudos póscoloniais em relações com o feminismo ocidental e levando em consideração os aspectos da globalização. Considerar raça, classe e localização, assim como o gênero pode ser também estar passível de uma análise crítica de acordo com as perspectivas em estudo:

 

O feminismo pós colonial toca em muitas dessas questões, sendo assim, um campo discursivo dinâmico. Ele questiona as premissas do pós-colonialismo, bem como as do feminismo, complementando-as com suas próprias preocupações e perspectivas, tornando-se ao mesmo tempo seu objeto de crítica e revisão. (BAHRI,2013,p. 663)  

 

    Segundo a autora, as teorias pós-coloniais e a teoria feminista mantém os discursos de representação, voz e marginalidade semelhantes, enquanto contextualizadas com as relações geopolíticas dos temas, mas também apresentam discordâncias.  A ênfase sobre o patriarcado e o colonialismo mostra-se como o ponto de convergência de um feminismo congruente com as perspectivas pós-coloniais (BAHRI,2008).

    No contexto pós-colonial, os estudos em gênero, especialmente sobre as questões da mulher e suas condições apresentam-se com  urgência quando pensados sob os domínios que o capitalismo tomou em grande parte do mundo. Pensar na representatividade da “mulher do terceiro mundo”, por exemplo, é desencadear respostas aos discursos dominantes e refletir de que maneira recuperamos as informações em áreas silenciadas. Nesse sentido, Spivak(2010) nos questiona se pode a mulher subalterna falar. 

    Essa ausência de representatividade reflete nos lugares de poder, na política, na economia e também nas representações artísticas. A voz das mulheres está condicionada ainda àqueles que falam por elas. Há, de maneira geral, para Spivak, um esforço pra dar voz ao sujeito subalterno, entretanto, esse esforço pode empreender em falar por esse sujeito e cair no mesmo imperialismo alvo da crítica pós-colonial. Para isso, o lugar da consciência da mulher enquanto subalterna parece fundamental para a construção dessa representatividade. Spivak, respondendo ao questionamento fundamental de seu texto declara:

 

O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído à “mulher” como um item respeitoso nas listas de prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio. (SPIVAK,2010,p.126)

Ser mulher em Manaus-AM 

    Se formos analisar os processos históricos que impuseram aos povos originários do Brasil, a conotação erotizada das mulheres nativas aparece evidenciada no discurso colonizador. O caráter fetichizado dos corpos das mulheres foi conclusivo para associá-las a uma sexualidade que tornou-se marca de uma nação.

    O caráter de subalternidade, levando-se em conta as diferenças regionais do nosso país, aparece mais evidente quando considerarmos as mulheres amazônidas. Em estudo sobre a problemática do tráfico de mulheres na Amazônia, as autoras Iraildes Caldas Torres e Márcia Maria de Oliveira ressaltam a elaboração eurocêntrica que o imaginário sobre a mulher da região “supõe conectar o debate como movimento mais amplo que funda o exotismo étnico e forja a ideia da mulher “fácil” e lasciva sexual em relação às amazônidas” (TORRES; OLIVEIRA, 2012, p.15).  

    No período da borracha, mulheres e meninas indígenas eram capturadas nos arredores de suas aldeias para servirem como moeda de troca nos seringais, eram exploradas para o trabalho forçado e para fins sexuais, tudo isso sob as vistas do Estado.

    Dentre os múltiplos fatores que determinam uma cultura local bastante machista, certamente as práticas de tráfico de mulheres que, segundo as autoras, é uma questão que advém de bem antes dos conquistadores, a naturalização dessas práticas ainda é uma realidade: 

 

As várias culturas da Amazônia sempre foram mobilizadas para dar respaldo à prática de troca de mulheres e meninas ou, ainda, continuam "doando-as" como mimos e presentes a seus amigos, visitantes, compadres ou até mesmo desconhecidos. Nas famílias mais tradicionais de Manaus, não é difícil encontrar a figura da "filha de criação" que, no geral, trata-se de uma menina que outrora foi dada aos padrinhos para vir morar com suas famílias em Manaus. Não raro, essas meninas sofreram todo o tipo de exploração sexual e laboral, como revela uma das vítimas que hoje participa do movimento de mulheres(...) (Torres; Oliveira, 2012, p.41)

Esse tipo de prática desencadeia uma outra problemática local, a pedofilia, que também acaba se naturalizando culturalmente e torna-se atrativo para o turismo sexual no interior do estado e na capital. Práticas que, permanecendo naturalizadas, acabam se neutralizando e se mantendo na esfera da vida privada, como um problema que só compete à família. O envolvimento de homens influentes nessas práticas (empresários, políticos, juízes) dificulta também a criminalização dos responsáveis e nos faz crer que o Estado continua a fazer poucos esforços para reconhecer a gravidade de tais práticas. O machismo é institucionalizado, quando os que praticam esses crimes são aqueles que "representam" a população ou exercem o papel de chefe da família.

     A violência de gênero praticada contra as mulheres no estado e no município também tem índices alarmantes. Nos quatro primeiros meses do ano de 2017 a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) registrou 3.983 crimes de violência contra mulheres.

 

    As mulheres manauaras, pouco diferente do resto do país, ocupam ainda espaços mínimos de representatividade, a exemplo da câmara de vereadores do município, que dos quarenta e um eleitos, conta apenas com quatro são mulheres. Na composição da atual mesa diretora, dos dez vereadores apenas uma é mulher e a presidência é de um homem.

    Manaus, portanto, é uma cidade onde a violência, a pedofilia e o machismo são institucionalizados nas redes de poder que a várias gerações governam o estado e o município ainda no modus operandi do coronelismo.

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