ano 3, n. 2, ago. 2021

Ainda bem que não tivemos filhos

Paula Barros

 “Passaram-se dez anos, fiquei esperando para talvez cantar uma canção de amor, mas é que nesse tempo fiquei esperando o príncipe encantado e ele não chegou. Então, vai ser assim, foi, tomei no cú! E, quando ele chegou, eu tomei no cú, eu só tomei no cú”

Era uma vez, uma história de amor, ou melhor, desamor, de uma menina/mulher que foi condenada a viver emocionalmente desajustada por uma “verdade” apresentada, essa “verdade” era que seu príncipe a salvaria de todas as coisas indesejadas, e para sempre a felicidade seria sua morada.

Para sempre! Diz ela: “É muito tempo. Tempo, tempo, tempo”.

Durante esse tempo, ela se encantou por um plebeu que ela mesma escolheu. Até uma flor plantou, para o que parecia ser o começo de um grande amor. Mas, o para sempre não chegou, e ela, chorou. A menina, chorou.

Tempo, tempo, tempo. Ela recuperou-se, e mais uma vez se encantou, dessa vez, por um homem. Homem interessante que lhe pareceu empolgante falar-lhe sobre amor! Porém, ele não notou, e a menina chorou, dessa vez chorou, até desaguou.

Passou-se mais tempo, agora a menina percebia que, o que os homens faziam era lhe usar. Mas, ela não desistiu, até insistiu com aquele que parecia ser seu príncipe encantado e com ele foi morar.

 “Então, vai ser assim, foi, tomei no cú! E, quando ele chegou, eu tomei no cú, eu só tomei no cú”

A menina descobriu, ou melhor, decidiu, que não queria engravidar. Um problema começou a enfrentar, mas, o amor por si, começou a despertar. Decidiu, tudo iria mudar e culpa ela não teria, porque ela não queria o que ele fazia, aceitar. Desculpas não pediu e seguiu.

 A mudança enxergou junto com uma mulher/flor que com seu próprio amor começou a somar. O príncipe encantado na terra deixou, junto com aquela primeira flor que plantou para um antigo desamor. Agora estava enterrado e tudo havia terminado, porque ela mudou!

Agora, ela escolhia e com uma mulher/flor ela foi criar, sua liberdade, sua igualdade, viver sua mocidade, despertar sua maturidade e a mulher que agora ela é, foi amar.

 

Ainda bem que não precisamos aceitar!

Essa é uma versão descrita/cantada sobre o espetáculo: ‘Ainda bem que não tivemos filhos” do grupo Garagem, no qual assisti em um tempo estranho e pandêmico, na minha casa através de uma tela de celular.

Um tempo em que as violências estão mais exacerbadas, um tempo em que pensar e falar se tornou sinônimo de brigar.

Tempo esse que se repete e preciso lutar, para não deixar que a força de uma misoginia, de um homem genocida me possa calar.

Tempo esse que retrata o quanto nós mulheres somos destratadas e fomos “treinadas” para a cabeça abaixar. Mas, minha avó já dizia: “minha filha, quem muito se abaixa o fundo aparece, então, cuidado, para uma dedada não levar”.

Hoje, compreendo que o cu não é lugar somente de desafeto e que muitos afetos também podemos no cu criar.

No entanto, me pergunto se meu cu pode tudo aceitar?

Não aceito o teu dedo violento, que só quer meu corpo sexualizar.

Não aceito a tua ideia maluca de inferno e céu, que me obriga aceitar.

Não aceito quando me chama de maluca porque quero minha voz usar.

Não aceito tua culpa, nem quero me vingar, mas espero que aceite minha verdade, porque com ela preciso andar. Somos todos diferentes, mas, merecemos equidade e respeito, portanto, aceite meu defeito, venha comigo somar! Para que o mundo tenha uma equivalência é preciso fazer a diferença para o mundo transformar.

Vou terminando essa crítica, que na verdade, virou uma grande rima, para me manifestar. Essa arte de inventar é a que eu e artistas, como a Pricilla, sabemos criar.

Espero que tenha gostado e que saiba que nem sempre você precisa tudo aceitar.

E...

 “Tome no cu, tome no cu, porque o cu também é lugar de afeto, e todos nós podemos no cu nos afetar”.

 Seja bom ou ruim, vamos aprender com a diferença conviver, e o amor das pessoas aceitar.

Fotografia de Vinicius Gomes

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Foto de Larissa Martins

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