ano 3, n. 2, ago. 2021

Como lidar com bilhetes de trem rumo à Última Estação, da Cia Arteatro?

Klara Cruz de Oliveira[1]

Espetáculo Última Estação.JPG

             O espetáculo Última Estação, da Cia Arteatro, traz de forma poética e de modo primoroso, jornadas individuais de três figuras, que diante da espera de um possível trem rumo aos seus lares, começam a entender as relações subjetivas com a espera pela realização de um novo trajeto, rumo ao alcance de suas trajetórias. Com o texto de Álvaro Fernandes, sob a direção de Márcio Sergino, que também opera o som do espetáculo.  A iluminação do espetáculo é assinada por Baronso Lucena, e a responsável pela produção executiva da obra acontece por Silmara Lucena, e os registros fotográficos por Jéssica Costa. Enquanto quem se dispõe a traçar essas alegóricas e intrigantes relações dando vida aos personagens Tairon, Lanif e Rena, são Karen Barroso, Camila Bessa e Silmara Costa, respectivamente.

            A obra se constitui fortemente através de uma estética simbolista, quase como se estivéssemos contemplando veredas de um subjetivo diálogo intemporal.           Mas que ao longo do espetáculo, observamos que as diversas personas presentes no palco, são figuras distintas, cada uma com uma aflição, amores e desejos internos. É interessante a maneira que a obra é conduzida ao longo de seus quase 50 minutos, pois a anatomia da luz cênica se molda juntamente aos entreatos das atrizes, que dão vida aos personagens masculinos. Nessa perspectiva a iluminação possui uma dramaturgia que intensifica as relações e diálogos entre os personagens, fazendo essa linguagem cênica ter uma dramaturgia, a modo de não apenas iluminar a cena, mas traduzir a presença visual dos anseios, didascálias e imaterialidade de Tairon, Lanif e Rena.

            Assim como em uma estação de trem, ou outro lugar de espera de transporte público, os três personagens estão em momentos distintos da vida, vivem suas próprias complexidades, felicidades e frustrações. O figurino apresentado pelos três sujeitos validam isso, uma vez que é possível observar referências do punk do anos 60, com a presença de elementos que vão desde Iggy Pop a símbolos do movimento anárquico. Enquanto em outros, vemos trajes executivos e uniformes policiais. É interessante notar como os componentes visuais do espetáculo dialogam entre si, sem que fiquem arestas soltas ou entreabertas. Nesse ponto, a obra cumpre bem o papel de incitar a curiosidade dos espectadores.

            O espetáculo possui um caráter fúnebre, seus diálogos, suas condições, e até mesmo as interações entre os personagens se concatenam em uma aura etérea de solitude. Ao longo da obra, a materialidade sepulcral dessas relações vai sendo estabelecida e a partir de fragmentos trajados pelas falas dos sujeitos, é possível estabelecer uma conexão de verossimilhança entre o dito cenicamente, e as premissas individuais do instante social em que vivemos. Por mais que a peça antes de fazer parte do quadro de espetáculos do festival Potências do Norte – PAN, tenha tido sua gênese por meados de 2002, suas indagações e eczemas ainda estão latentes na sociedade de 2021, quase 10 anos depois: Violências policiais desenfreadas, repressão por pressão social, a fatalidade no trânsito, e seus desdobramentos fatais diante dos seres que vivem na sociedade.

            A sociedade moderna de forma geral, com algumas exceções, vive em um constante e abrupto estado de incapacidade. Sejam nas diversas esferas sociais, políticas e/ou econômicas, e esse sentimento muito tem a ver com a ideia de ter fracassado em alguma meta ou propósito pessoal. Além disso, estamos inseridos em uma completa massa de competitividade, oriunda principalmente do sistema capitalista que observa o sujeito como uma máquina de produção, apenas se interessando pelo processo de mais-valia. Sendo assim, quanto mais eu for melhor que outrem, mais oportunidades sociais serão empregadas a mim. Entretanto, quanto menos eu realizar meus propósitos pessoais, ou não conseguir defendê-los, maior será minha autopunição em relação à sociedade e a mim. É possível observar isso, nos escritos de Àries (2012, p. 60):

 

          "hoje o adulto experimenta, cedo ou tarde, e cada vez mais cedo, o sentimento de que fracassou, de que sua vida adulta não realizou nenhuma das promessas de sua adolescência. Este sentimento é a origem do clima de depressão que se alastra pelas classes abastadas das sociedades industriais."

           

           E a sensação de que falhou em algo, ou que deveria ter sido mais proativo em relação à situações da vida, é intensa em Última Estação. O texto escrito por Álvaro Fernandes, a direção de Márcio Sergino, e atuação de Karen Barroso, Camila Bessa e Silmara Costa convergem em um discurso recheado de reflexões em relação à sociedade vigente, mas também as subjetividades do homem moderno. O ecoar desse ato cênico, se predispõe a pensar algumas das diversas facetas dos seres viventes nessa última década, ou mais que isso, da tendência humana em observar, ou não, as complexidades da existência, como vida, morte, contemplação do instante, abertura ao experienciar melismas sentimentais, ou mesmo vivê-los com intensidade.

         A Última Estação encara a complexidade da vida e morte, enquanto limitados e frágeis seres humanos. Todo dia estamos em um eterno processo de leitura e compreensão de fenômenos universais, que constituem partes evolutivas de nossa estadia em uma estação que nos leva rumo à vias anda desconhecidas. Nunca estamos aptos, nem abertos a pegar uma linha de transporte público que não sabemos os rumos, e quando vemos isso acontecer com algum membro parte da nossa vida social, familiar, ou até mesmo pessoas de grande admiração, às vezes é um choque tão profundo que não conseguimos lidar com as incertezas e inseguranças que essa via de trem pode conduzir, os novos rumos e jornadas que as existências reservam. Em alguns casos, é possível descer na próxima estação, posteriormente pegar a linha certa, e tentar recalcular a rota, enquanto em outros, o destino com sua força mística, faz a condução até a última estação.

            Em todo caso, apesar de assombroso, é necessário que em algum momento seja chegada a hora de caminharmos rumo à uma estação desconhecida, complexa e ilimitada. Imagina quantas ditaduras aconteceriam, se sempre pegássemos a linha de transporte público certa. Estarmos abertos a lidar com grandes fenômenos, mesmo que em alguns casos sejam doloridos, faz parte dessa grande e complexa viagem rumo ao desconhecido que estamos fazendo. É certo que durante nossa espera pelo transporte público, dependendo do momento nos depararemos com estações diferenciadas, umas mais complexas que outras, algumas melhoradas, outras sem infraestrutura, outras que sequer parecem um ponto de espera de transporte público. Entretanto, com raras exceções, será possível observar demais pessoas esperando o meio de locomoção, rumo à uma outra viagem individual. Se chegarmos na última estação amanhã, será que contemplaremos a beleza da vida hoje? A obra da Cia Arteatro não busca dar respostas prévias, mas planta sementes para a busca individual disso.

Alguns pensamentos nessa crítica foram emprestados das seguintes fontes:

 

ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

MARX, Karl. O capital – Volume I – Trad. J. Teixeira Martins e Vital Moreira. Coimbra: Editora Centelha, 1974.



 

[1] pesquisadora em artes da cena, bacharela em teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (2018). Mestranda em Letras e Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Artes – PPGLA, e bacharelanda em Dança pela Universidade do Estado do Amazonas. Atua principalmente em pesquisas que buscam a observação do discurso imagético nas poéticas visuais nas artes da cena.

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