ano 4, n. 1, abr. 2021

(Des)formações artísticas da quarentena

Marília Sinãni[1]

Resumo – Em tempos de pandemia é necessário sentir para lembrar-se do que é ser humano. Se o que nos torna humanos é o contato com a sociedade e, se o desenvolvimento se dá de fora para dentro, precisamos da emancipação sensível no resguardo em que a individualidade é tão exigida. Os artistas criam na reclusão para se libertarem de si mesmos. Trago anotações e manifestações artísticas realizadas durante a pandemia como forma de resistência à solidão do resguardo. A arte e a linguagem nos mantêm na história.

Texto 1:

Senti o amor me vestindo para enfrentar o frio e o fim de uma reclusão

Feito mãe

Feito o pai que eu nunca tive

O amor como expectador de uma pandemia mundial

Eu vejo o amor se reconstruindo debaixo dos meus pés e no mundo

Porque o amor ficou em casa

Resguardado

E, veja bem, a rua é a estação favorita do amor

Neste momento histórico

Respiro a liberdade do toque

E vejo o amor tirando as pessoas para sambar na avenida

Do mundo em que sentir é regalia

Mas quem sente a dor da pausa é a periferia

Que encara a mais-valia sem o auxílio de um divã

Porque a periferia sempre se sujeitou a amar demais

Desde os pratinhos de afeto doados em finais de festas de família, até o seu trabalho para manter a economia

América Latina

Periferia do mundo

Que ama até quando lhes tiram o amor.

Captura de Tela 2021-04-18 às 20.48.20.

Sin Arte. Abuelita. Desenho. Dimensões: 21,0 x 29,7 cm.

Texto 2:

Pedaço de mar atirado na calçada

Mudei pra cidade com praia e nem posso sair da minha casa

Resquícios de conchas trancadas no armário

A solidão do resguardo fez aniversário

O céu me assombra e eu fico calada

Os dias ligeiros parecem sambar

Enquanto eu aprendo o que é dançar

Sozinha em datas comemorativas

Porque eu tenho amor demais

Que eu posso guardar

Pra lançar numa avenida

E posso até dividir

Com trinta mil famílias

Captura de Tela 2021-04-18 às 20.53.16.

Sin Arte. Desenho digital. Dimensões: 21,0 x 29,7 cm.

Texto 3:

Daqui da janela, com os meus olhos envelhecidos pelos mofos da parede de casa, vejo pessoas saindo para as ruas como se dispusessem em suas veias o remédio da vida. Estou em quarentena e as paredes do meu quarto já não suportam o peso das minhas instabilidades emocionais. Há tantas confusões morando em minha casa que no mês que vem terei de pagar o aluguel em dobro. Sentada na beira da cama, me pergunto: onde é a minha casa? Confesso que os meus altos e baixos deixaram marcas e rasgos no colchão e rachaduras nas paredes, vestígios para que eu nunca esqueça o momento histórico em que o mundo precisou parar, mas muitos não pararam. Acontece que carregar o que chamamos de lar pode ser mais doloroso do que o nomadismo (Fig. 1).

Captura de Tela 2021-04-18 às 20.56.07.

Fig. 1: Sin Arte. Quarentena nº I. Desenho, 21,0 x 29,7 cm, Rio Grande-RS.

No isolamento social, assim como Clarice Lispector (1964) perdi a minha montagem humana e o meu maior medo tem sido ser. A vida se baseia em questionamentos de si e desejos profundos de ser e não ser ao mesmo tempo. Nessas de brincar de trocar o dia pela noite, me perco em mim mesma. Talvez este seja o maior privilégio da vida adulta: perder-se. Troca-se o momento em que nos perdemos pelas ruas ou bares da cidade, para nos perdermos em nós mesmos dentro de nossas casas. Sinto em mim não só a dor e o peso da minha existência, mas me dói ainda mais saber que pessoas estão deixando de existir neste exato momento de calamidade pública. Transito na culpabilidade e no cansaço de sentir a minha dor e a dor do mundo, baseada no fato de que enquanto eu procuro um amor do outro lado do mundo através de um aplicativo que me proporciona doses de vazio, outros perdem um amor que transbordava, enquanto metade do mundo não faz questão e tão pouco sente. Oficialmente, no sumidouro do mundo, nos tornamos índices mal divulgados e tomamos o lugar dos números.

Semelhante à alegoria presente no “Mito da caverna” de Platão, nos escondemos dentro de nossas casas e encontramos a luz de dentro. Posteriormente, encontramos a luz de fora. Neste processo íntimo de reclusão, o artista adentra um processo de bloqueio e criação ao mesmo tempo. Estávamos acostumados a nos alimentarmos de imagens cotidianas através de nossos olhos. Devorávamos com a retina os cartazes, as pessoas, outdoors, bocas, vegetações, poeiras dos carros e dos pés aglomerados que deslizavam pelo asfalto. Agora, nos rendemos à hegemonia da visão nos ambientes virtuais. Vazios. Tecnologia que aproxima e afasta ao mesmo tempo.

O amor bate na porta e resolvemos abrir com a maçaneta da criação. Passamos álcool em gel nas mãos e nos preparamos para moldar a nós mesmos, sozinhos. Aqui não há coletivos, há individualidade. Mas para fugir das garras cruéis do capitalismo, temos como referência estética a saudade. Saudade de quem já não sentia saudade, mas precisamos eternizar em forma de arte, ou qualquer outra linguagem que nos faça lembrar o que é ser humano.

O isolamento social nos faz entrar em contato com o que somos e com o que carregamos, mesmo que inconscientemente. Nos deparamos com a ancestralidade e a arte. A decolonialidade tornou-se vizinha e vez ou outra nos encontramos. Acenamos, de longe, e entramos desejando afeto porque somos artistas. Artistas que até mesmo antes da pandemia se instaurar na sociedade, já sofriam antecipadamente por carregar o fardo da sensibilidade exacerbada. Sentimos e produzimos arte para que não sejamos esquecidos quando a individualidade engolir a cidade.

Captura de Tela 2021-04-18 às 20.59.28.

Fig. 2: Sin Arte. Amor nº I, ano. Desenho, 21,0 x 29,7 cm, Rio Grande-RS.

As minhas versões antigas não caberiam nos braços quentes da família. A minha versão sozinha, se aconchega. Então a produção artística se arrisca e se eleva como forma de descrever o que há além das raízes que nos fazem brotar de um dia para o outro nas inconformidades do tempo. Então tudo vira acalento. Percebemos que o cordão umbilical não foi desfeito, apenas pausado (Fig. 2) para, posteriormente, valorizarmos a cultura, a ancestralidade e o movimento.

Encerro esta breve reflexão em tempos de pandemia com um convite para observar a ancestralidade que nos constitui na alma e no corpo. Se vivemos em um período histórico, então que o universo e as licenças poéticas nos permitam voltar às cartas, que apesar da demora em serem entregues, possuíam mais carga emotiva do que as curtas mensagens enviadas por meio da tecnologia.

 

23 de outubro de 2020

 

Querida avó,

 

Hoje eu tive medo. Assumo para a senhora que sou medrosa. Jogo ao mundo esta informação e espero para ver o que será feito dela. Com medo. Todos os dias eu acordo e lembro da senhora. Eu nunca a admirei tanto como tenho admirado porque sempre me questiono o seguinte: como a senhora consegue adotar uma rotina fixa mesmo aposentada? Como a senhora consegue fazer as mesmas coisas todos os dias, nos mesmos horários, em sessenta anos de casa?

Bom, nisso, assim como em tantas outras coisas, eu queria ser igual a senhora. Hoje a senhora deve ter acordado às cinco da manhã, preparado café e chá mate, limpado a casa e feito o almoço para assistir a reprise da novela à tarde. Eu, pelo contrário, acordo todos os dias em um horário diferente e espero o que será do meu dia. Preparo algumas aulas de substituição que darei no ensino a distância e entro em crise existencial. Saio da crise existencial. Medito e repito mantras para que a minha cabeça não dê nó. Produzo arte para não surtar e penso: arte não tem me dado dinheiro. Me lembro da senhora elogiando os desenhos que eu crio, então volto a desenhar. Entro em crise existencial. Me alimento pensando no tempero da comida que a senhora faz. No final do dia eu paro e danço porque, em meio a todo o caos, eu ainda tenho amor e fé na espiritualidade. É, a senhora me ensinou isso. Dizia: “vai se chama São Longuinho” ou “vai e roga São Jorge”, eu rogo. Mas posso lhe contar um segredo? Eu o chamo de Ogum. Mas não se assuste, vozinha. Aqui é o Brasil, terra do sincretismo, terra da fé inabalável por melhora, é a terrinha do amor e da mistura. Então fique tranquila que eu estou protegida pelas armas de Ogum, de São Jorge, de Durga, Saraswati (Deusa que protege os artistas) .... Espera, vamos com calma né, vó?! Uma informação de cada vez. Às vezes esqueço que a senhora não entenderia esse tanto de gente me protegendo, mas é que o mundo é plural demais. E o universo então? Cheinho de gente que ninguém vê ou imagina. Reza por mim, vó. Fica em casa que no natal que vem eu juro que passo com a senhora. Me espera. Eu te amo na intensidade de mil sóis.

 

Saudades até as pontas dos meus pés com unhas pintadas. (É, vó. Fique feliz que agora eu pinto a unha, viu?)

 

     De sua neta

Referências

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo GH. Tradução. Rio de Janeiro: Editora do autor, 1964.