ano 1, n. 2, nov. 2019

Entrevista com Eliana Monteiro, integrante do Teatro da Vertigem

Gleidstone Melo[1]

Conheci  Eliana Monteiro, para outros apenas Lili, quando o Teatro da Vertigem veio em Manaus para realizar o projeto “Kafta na Estrada”, onde apresentavam o espetáculo “O Filho” e realizavam um laboratório cênico que envolvia alguns jogos urbanos com acadêmicos do curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas. Artista do Teatro da Vertigem, Eliana Monteiro falou um pouco com a revista Arte Documenta sobre seu trabalho dentro do coletivo e sobre a obra “Enquanto ela dormia”, com sua direção.

 

 

Antes de iniciar suas atividades no Teatro da Vertigem você foi servidora pública durante 13 anos. Você acha que isso influenciou ou influencia no seu trabalho como artista?
ELIANA MONTEIRO: não, eu acho que não. Todas as suas experiências ficam registradas no seu corpo, isso é natural. Eu trabalhava com um trabalho muito burocrático na verdade. Eu trabalhava na superintendência. Então era algo muito cartesiano.

Sobre o seu trabalho com o Teatro da Vertigem, você acha que ele influencia seu trabalho até mesmo fora do coletivo?
E.M: Ah sim, totalmente. É a mesma diretora, dentro e fora do vertigem. Não tem muita distinção. Pelo menos eu não consigo perceber.

 

É até curioso, pois alguns outros membros do Teatro da Vertigem também estão em parceria com você no espetáculo “Enquanto ela dormia”...

E.M: Sim, eu chamei o Guilherme (Bonfanti) para realizar a luz, o Érico Theobaldo que é o diretor musical, a Marisa Bentivegna já havia feito o cenário de “O filho” e também convidei para realizar de “Enquanto ela dormia”... São seus parceiros, então você acaba trabalhando, pois parece que é mais fácil trabalhar com eles assim.

 

Atualmente a gente vive diversos acontecimentos políticos no Brasil, como que você acha que isso pode refletir nas suas obras e suas criações?

E.M: Essa questão política no Vertigem; ela está sempre muito ligada, mesmo que a gente não fale diretamente. Por exemplo, no caso do “Livro de Jó” a gente nunca falou sobre a AIDS.

Já no ‘Enquanto ela dormia’ é entendido de outra forma, falamos da mulher na sociedade, sobre o feminino… sobre o que ocorreu historicamente com o  massacre com o feminino.

E em “O filho” tinha a coisa mais do patriarcado, então parece que é mais ligado com coisas mais pessoais, mas também como um espelho da sociedade.

 

Vocês costumam realizar workshops nas cidades em que visitam?

E.M: Sim. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer na viagens, na verdade. Pois a gente troca bastante com os artistas locais e acontece um deslocamento no próprio modo do nosso fazer teatral. Hoje mesmo eu estava vendo algumas fotos do workshop que realizamos ai em Manaus... Vocês embaixo das grades e em meio a tijolos, e fiquei ‘nossa, aqui é que está o cerne da questão’.

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Fonte: Facebook pessoal de Eliana Monteiro

Pra finalizar, você poderia falar um pouco sobre “Enquanto ela dormia”?

 

E.M: O “Enquanto ela dormia” conta a história de uma mulher que é uma professora e que se incomoda muito com o abuso que ela viveu dentro do ônibus. Ocorre um disparador sobre o que acontece e ela acaba ficando doente até lembrar que era abusada pelo pai. E foi incrível porque a Lucienne (Guedes) é a única atriz em cena, e processo de criação dele foi assim: a partir da Dora, que é essa mulher de agora, eu tracei uma linha do tempo. E nós estudamos muito historicamente se perguntando “o que aconteceu com a mulher?” Como o pé de lótus na China, as mulheres com golas no pescoço na Tailândia, a amputação do clitóris, a história da Maria Madalena e até os contos de fadas. Nós traçamos um paralelo de hoje com o passado e fizemos a seguinte questão “daqui a cem anos, quem olhar pra nossa época atual irá dizer ‘como essas mulheres deixavam isso acontecer?’, que é o que eu dizia quando olhava pra trás e via isso. E a partir dessa linha histórica, dos contos de fadas, dessa pergunta futura e também a fotógrafa Francesca Woodman que utilizei como referência, começamos a realizar os workshops, pois a peça foi em processo colaborativo... O nosso cenário (uma grande caixa de vidro) é como se fosse uma prisão dentro da própria casa.

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Fonte: Divulgação / Foto de Mayra Azzi

FICHA TÉCNICA DE “ENQUANTO ELA DORMIA”

Concepção e Direção: Eliana Monteiro

Texto: Carol Pitzer

Atriz: Lucienne Guedes

Dramaturgismo: Antônio Duran

Desenho de luz: Guilherme Bonfanti

Cenografia: Marisa Bentivegna

Figurino: Marichilene Artisevskis

Trilha sonora: Erico Theobaldo

Vídeo:Bruna Lessa

Assistente de Direção/Direção de Cena: Isabella Neves

Assistente de Dramaturgismo: Bruna Menezes

Assistente de Iluminação: Aldrey Hibbeln e Danielle Meireles

Assistente de cenografia: Amanda Vieira

Costureira: Judite Gerônimo de Lima

Operação de luz: Aldrey Hibbeln

Operação de som: Tomé de Souza

Video mapping: Michelle Bezerra

Produção executiva: Andrea Pedro

Assistente de produção: Leonardo Monteiro

Assessoria de imprensa: Márcia Marques/Canal Aberto 

Designer gráfico: Luciana Facchini

Fotos: Mayra Azzi

Supervisão geral: Eliana Monteiro

 

Revisão de texto por Janaína Siqueira

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