ano 3, n. 2, ago. 2021

Há saída desse subsolo?

Quemuel Costa[1]

Espetáculo Subsolo.JPG

        Sento em frente ao computador. Tento escrever. Escavar. Não consigo construir frases. Não consigo solidificar palavras. Acabei de ler as notícias do dia. Parece tudo prestes a desmoronar. Parece que já desmoronou e estamos soterrados. Não consigo solidificar parágrafos. Parece não se sustentar. De certa forma, me sinto como a mulher em “Subsolo” (2020), obra do Ateliê 23, da cidade de Manaus, que assisti durante a 2ª edição do PAN. E é a partir deste local de identificação que escrevo. É a partir de um outro subsolo - ou talvez o mesmo - que escrevo. Areia parece ser tudo o que há. 

 

       “Subsolo” é inspirado nas obras “Memórias do subsolo” de Fiódor Dostoiévski e O mito de Sísifo de Albert Camus. Não conheço a obra do russo, apenas Sísifo, obrigado eternamente a levantar uma pedra gigante montanha acima, vê-la rolar de volta ao início e fazer isto diariamente e eternamente. Mas aqui, na obra do Ateliê 23, o que se move não é sólido. Não se sustenta. Não sendo possível subir com a areia montanha acima, parece restar apenas sucumbir. Soterrar. Diferente de Sísifo, para a mulher no subsolo parece haver apenas a opção de rolar ladeira abaixo. Como se só restasse decair. 

 

        Em “Subsolo” nos deparamos com uma quantidade absurda de areia. Com condições absurdas de vida. Há areia e uma mulher presa em um ciclo que exaustivamente se repete - este ciclo infindável e destrutivo pode ser chamado de vida? A areia pode tomar diversas formas dependendo de como é manipulada, assim como pode ser utilizada para construir coisas. E da mesma forma que no cotidiano a areia pode assumir diferentes formas, em “Subsolo” o mesmo pode ser dito da areia enquanto metáfora. A areia pode significar diferentes coisas e gerar diferentes leituras dependendo de quem assiste e como assiste. Areia enquanto morte. Areia enquanto trabalho. Areia enquanto vazio. Areia enquanto ausência de sentido. A areia enquanto tudo o que há. Areia por toda parte. Areia na hora de dormir, na hora de acordar, areia para trabalhar. Não há como fugir dela, está impregnada por toda a parte. Como quando se vai à praia e a areia gruda em todo o corpo e entra em todos os orifícios, quase como uma segunda pele. A areia como morte. Morte por toda parte. 400 mil mortos e contando. A máscara utilizada pela mulher me lembra que “Subsolo” é sobre uma realidade muito mais absurda que a ficção. 

 

         Vou ficando deprimido à medida que escrevo e penso nas questões complexas que “Subsolo” aborda. Penso na quantidade de coisas que a obra conseguiu revirar aqui dentro e me fazer pensar mesmo sem palavras: é uma obra sem texto. Para não dizer que não há palavras, há um trecho da música “Construção” de Chico Buarque ao final. Mas durante os quase 40 minutos que a obra tem, somos capturados somente pelas imagens, pelos signos e pela ação. Assim como realiza suas ações e movimenta repetidamente a areia, a mulher conduz o público por sensações cada vez mais densas e claustrofóbicas. Não sei mais se escrevo sobre a obra, sobre mim ou sobre o brasil. 

 

        A capital do estado onde nasci é Natal, muito conhecida por suas dunas. As dunas são terrenos extremamente arenosos e modificados pelo vento. Em dunas não se sustenta nada. É difícil construir em dunas. É difícil se solidificar em dunas. O quanto dessas dunas há em quem vive aqui? Somos influenciados pelo solo em que crescemos? Instintivamente penso nas dunas da capital do Rio Grande do Norte ao ver toda aquela areia em “Subsolo”. Sufocantemente, o cenário de “Subsolo” parece cada vez mais semelhante. Dunas geralmente são formadas pelo acúmulo de sedimentos. Penso em tudo o quanto vem se acumulando nestes solos. Genocídio desde que essas terras são brasil. 

 

         A solidão e a exaustão parecem ser as únicas coisas que conseguem se solidificar e sustentar naquela areia. Uma solidão tão atravessadora que a mulher constrói outra criatura a partir da areia e do balde, a cobre com seu casaco. Tenta humanizar e se relacionar com aquilo que a destrói. Delira. Se agarra à areia como quem se agarra a alguém durante o sono. Parece natural procurar abrigo no outro, mesmo que imaginário. Somos evolutivamente seres sociais. Além do mais, o que podemos enquanto indivíduos presos dentro de um sistema? “Subsolo” parece sublinhar que se o coletivo não consegue movimentar e destruir estruturas, tão pouco conseguirá movimentar algo sozinho. Sozinho parece ser mais fácil de ser soterrado. Não à toa, o momento de revolta acontece logo após a mulher encontrar um casaco cheio de areia e o agarrar como se segura um bebê, como algo humano. Na obra, os momentos de sentimentos contrários ao que está posto são acompanhados de outras existências, mesmo que imaginárias. 

 

        As ações da mulher se repetem tanto que vão ficando sem sentido e levantam questionamentos: por que ela continua a encher o balde de areia repetidas vezes? Por que continua fazendo o que faz? Por que continua a escavar? Por que ainda tentar construir algo mesmo sabendo que não irá se sustentar? Há uma maneira de sair desse subsolo? Há outra coisa a fazer além de continuar? Ela continua por vontade própria ou por maldição? Este ciclo infindável e destrutivo que incansavelmente se repete pode ser chamado de vida? Escrevo sobre a obra, sobre mim e sobre o brasil. 

 

         Assim como no mito de Sisífo, a mulher está presa em uma ação que se repete. Não há o que fazer e tentar fugir parece inútil. É extremamente significativo que a cena inicial seja retomada ao final da peça - é a constatação de que não há saída daquele subsolo?  A mulher mais uma vez realiza sua ação de carregar o balde cheio de areia, mas se aproximando da gente, deixa o balde cair. Estrondo. A pedra de Sísifo rolando ladeira abaixo. Parece exausta. Ouvimos a voz de Chico Buarque anunciando que um trabalhador morreu atrapalhando o tráfego. Mais um trabalhador que morreu porque a economia era mais importante que tentar salvar vidas? A mulher derrubou o balde tirando-o de nossas vistas. Lentamente ela se afasta do balde, da gente, da areia. Blackout. Há saída para esse subsolo?

 

          A mulher que acompanhamos em “Subsolo” trata-se de uma personagem sem nome, sem identificação. Porque pode ser muitas. Outros. Pode ser eu. Pode ser você. E se no primeiro parágrafo eu anuncio que escrevo esta crítica a partir de um subsolo, eu acredito que você também a leu a partir de um. Todos neste subsolo chamado brasil. Ou chamado América Latina. Ou chamado capitalismo. Ou chamado.



 

[1] Quemuel Costa é artista do teatro e desenvolve trabalhos nas áreas de atuação, pesquisa científica e crítica teatral. Iniciou uma pesquisa sobre o corpo preto e bicha e concebeu duas obras que partem dessas questões: "Todas as vezes que beberdes em memória de mim" (2021) e "O que pode o meu corpo falar?" (2021), ambas criadas com recursos da Lei Aldir Blanc através da Fundação José Augusto. Também é fundador e ator do Teatro da Margem, com o qual estreou o espetáculo virtual “Disque Q para Queer” (2021).
Licenciando em Teatro pela UFRN e crítico colaborador do Farofa Crítica a partir de 2019, já participou da cobertura crítica do Festival Internacional da Casa da Ribeira (2019) e da 1ª edição do Cenas do Nordeste (2020)

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