ano 3, n. 2, ago. 2021

Matar o presente, pescar futuros

Quemuel Costa[1]

Espetáculo Estética dos Restos.png

         O plástico demora, em média, 400 anos para desaparecer da Terra. A expectativa de “vida” do plástico ainda é incerta, mas é no mínimo de 4 séculos. A expectativa de vida do ser humano (se não for preto, se não for lgbt, se seu país não for colonizado, se não houver uma pandemia do coronavírus, se a lógica do governo não for a necropolítica, se seu país não for o Brasil) é de, em média, 60 anos. Ainda que alcance a longevidade, um corpo humano não respira e nem vive para além de 1 século. Um abismo imenso entre a durabilidade daquilo que o ser humano artificialmente cria e a durabilidade da sua própria existência. A finitude como impossibilidade humana e o plástico como possibilidade de criar infinitos e destruir futuros. É a partir desse antagonismo entre a duração do resíduo plástico e a duração do corpo humano que a artista Amanara Brandão Lube, de Porto Velho/RO, executa sua pesquisa.

 

         Um dos produtos resultantes dessa pesquisa é “Uma estética dos restos” (2020), uma trilogia de vídeo-performances disponibilizadas gratuitamente no youtube. É um trabalho realizado durante a pandemia, com recursos da lei Aldir Blanc, e também por isso, extremamente atravessado por questões que vêm configurando muitos dos trabalhos independentes realizados no contexto da pandemia do novo coronavírus: equipe reduzida (apenas 3 nomes na ficha técnica); duração mais curta; experimentação do audiovisual por artistas das artes da cena. E é este último um dos pontos mais fortes do trabalho, o quanto o audiovisual fortalece a performance e o trabalho não parece de maneira nenhuma somente uma transposição do presencial para o youtube. 

 

         “Uma estética dos restos” resulta da performance presencial “Seu lixo”, que assim como as cultuadas obras “Homem Refluxo” (2003) e “Ilha das Flores” (1989), aborda a relação entre lixo e seres humanos. A vídeo-performance deriva de uma performance presencial, mas sem ser necessariamente uma adaptação desta. E como anunciado no próprio título, mesmo tratando-se de um tema recorrente na arte contemporânea, traz a intenção de criar uma estética própria e específica. É inclusive muito bonito perceber como a linguagem audiovisual agrega ao trabalho de Amanara. É um espaço que ela diz ter experimentado em função dos editais da Aldir Blanc, mas que se mostra um caminho extremamente potente. A fotografia dos vídeos, as locações, o figurino e a trilha sonora criam o cenário e o caminho para que a performance aconteça da melhor maneira. 

 

        Dividida em três vídeos, a performance pode funcionar de maneira tripla e separada, pois cada vídeo tem sua própria unidade, sentido e coerência (além de terem sido disponibilizados em datas diferentes), mas que alcançam uma maior significância ao serem assistidos em sequência. Os vídeos com pequena duração, entre 5 e 7 minutos, parecem também ganhar um maior sentido nestes tempos em que tudo é consumido de maneira muito rápida – e quase descartável tal qual o plástico – e a ordem dos dias é a correria. Somados, os vídeos têm menos de meia hora, mas isso revela também a habilidade de Amanara em condensar em poucos minutos de tela a potência de seu trabalho e de sua pesquisa. 

 

        Amanara com um macacão de oncinha, botas de plástico, óculos de natação e interagindo com lixo, parece uma imagem pouco “natural” e nada convencional, mas esta imagem se encaixa perfeitamente na natureza e na biodiversidade dos locais onde acontece a performance. Quase como a peça que faltava em um quebra cabeça. No debate após a exibição dos três vídeos, uma das pessoas presentes disse que a artista parecia ser a mediação entre o descartável/artificial e a natureza. E parece mesmo. Me lembra de que somos bichos também. Por debaixo das roupas fabricadas artificialmente, mesmo com todo o lixo que produzimos e que acelera a destruição da natureza, somos natureza também. Mesmo que isso soe clichê, mesmo que isso pareça cada vez mais fácil de esquecer. Parece ser um pouco mais difícil lembrar que sou natureza se os dias tem se resumido a ficar de frente a uma tela, a ver gente através de tela, a ver arte e até mesmo a própria natureza por telas. É difícil lembrar que se é natureza quando tudo ao nosso redor é cada vez mais artificial.

 

       O lixo, os restos, estão presentes na performance tanto enquanto materialidade literal: o lixo que se descarta diariamente e é encontrado nos mais diversos locais, como também enquanto criação, ganhando a posição de obra. Ou como já anunciado no título: como estética. Aqui o descartável vira imaginário, vira roupa no varal, vira um local para se estocar oxigênio, vira rede de pesca. A rede de pesca lançada incansavelmente em direção ao ar. A imagem da rede de pesca sendo utilizada por uma mulher negra para pescar futuro. E a rede feita de plástico como vontade de infinito. O plástico para enganar o futuro. Diante da durabilidade do plástico, o corpo humano parece mediocremente finito. Diante da durabilidade do corpo humano, o plástico parece durar para sempre. A imagem da rede de pesca sendo utilizada por uma mulher negra para pescar futuro. E o futuro é ela própria, por isso se cobrir com a rede de pesca feita de descartáveis. Demarcação de território. 

 

      As minhas palavras, as nossas ideias, o meu e o seu corpo. Nada disso vai durar mais que o plástico. Mesmo que haja plástico inclusive dentro de você. E como processar e entender que o lixo que estamos produzindo vai além de nós? Que valor há em um corpo humano quando esse é muito mais degradável - e, para algun$, até mesmo descartável - do que qualquer sacola de plástico? Enquanto você lê este texto, alguém descartou uma sacola de plástico. E é provável que ela vá durar no mundo muito mais do que as minhas palavras na sua cabeça, muito mais do que a sua e a minha cabeça. Muito mais que o meu e o seu corpo. Porque tudo que é vivo e humano se degrada. Acaba. Porque tudo que é vivo e humano vem sistematicamente sendo transformado em descartável. 

 

         Ver Amanara entre os restos me lembra também de que a mesma lógica por trás do sistema que faz com que quase tudo que consumimos seja descartável, é a mesma lógica que descarta pessoas diariamente. Que descarta futuros e imaginários. 400 mil mortos e contando. Amanara entre os restos - e sendo também, de certa forma, esse próprio resto -  me relembra que o futuro precisa ser preto, mulher, indígena, cuir. Precisa ser outra coisa além do que o presente está sendo. Outros futuros precisam ser inventados para além da lógica do capital e do descarte. Para além deste presente feito de plástico. Este presente feito de plástico e de descartável precisa ser liquidado para que possa haver futuro. Criar lógicas e invenções possíveis a partir dos restos? 

(O resto como o que fica. Como o que teimosamente fica).


 

*https://www.bbc.com/portuguese/geral-48518601



 

[1] Quemuel Costa é artista do teatro e desenvolve trabalhos nas áreas de atuação, pesquisa científica e crítica teatral. Iniciou uma pesquisa sobre o corpo preto e bicha e concebeu duas obras que partem dessas questões: "Todas as vezes que beberdes em memória de mim" (2021) e "O que pode o meu corpo falar?" (2021), ambas criadas com recursos da Lei Aldir Blanc através da Fundação José Augusto. Também é fundador e ator do Teatro da Margem, com o qual estreou o espetáculo virtual “Disque Q para Queer” (2021).
Licenciando em Teatro pela UFRN e crítico colaborador do Farofa Crítica a partir de 2019, já participou da cobertura crítica do Festival Internacional da Casa da Ribeira (2019) e da 1ª edição do Cenas do Nordeste (2020)

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