ano 3, n. 2, ago. 2021

O LUTO E A LUTA

Márcio Braz[1]

Espetáculo Agô.jpg

          Em iorubá, Àgò é um pedido de licença, de entrada e saída em algumas áreas dos terreiros das religiões afro-brasileiras, mas também é um pedido de permissão. No semblante do espetáculo da Cia Menina Miúda Produções, de Manaus, consoante suas vozes, Agô é, ainda, um pedido de clemência pelas “mortes dos jovens negros e indígenas e a preservação da vida desses indivíduos”.

        Os fatos envolvendo a fragilização dos povos indígenas perante o avanço devastador da Covid-19, a ausência de políticas públicas que lhes assegurasse à vida e os constantes extravios de suas terras por parte dos fazendeiros munidos de ataques covardes à fogo e bala fazem com que “Agô” pedisse permissão para entrar em nossas vidas convocando mentes e corações em torno de um movimento de luta.

        Em “Maracá”, websérie que trata do enfrentamento da Covid-19 pelos povos indígenas - o que acabou por ocasionar na injusta intimação da líder indígena Sônia Guajajara pela Polícia Federal, orquestrado pelo próprio órgão que deveria assegurar seus direitos, a Fundação Nacional da índio – FUNAI -, além das críticas ao governo Bolsonaro que defendeu a mineração em terras indígenas demarcadas e foi o governo que registrou os maiores recordes de desmatamentos na Amazônia, vemos as indígenas e os indígenas sentenciarem a terra como “doente” necessitando de “cura”, e o movimento de cura desta terra arrasada se dá justamente na luta por seu território, em reconhecer a terra como parte imanente de si, de suas tradições, repondo aquilo que sempre foi seu, de fato e de direito. Não seria forçoso relacionar “Agô” à “Maracá”, onde indígenas, cantores, atores e os intérpretes do espetáculo formam um corpo único, um corpo-território, um “empate” contra as formas opressoras do capitalismo e as políticas públicas malsãs evidenciando um alerta, mas também uma esperança. O espetáculo foi apresentado no último dia 27 de abril fazendo parte da programação do festival online Potência das Artes do Norte, de Manaus.

            Trata-se da primeira experiência com dança da jovem companhia que tem constantemente visitado o universo teatral em espetáculos como “Amélia” e “Menina Miúda”.  Em “Agô”, o corpo-território dos intérpretes grita uma emergência: o luto pelos muitos que partiram por força do pacto com o vírus engendrado por políticos genocidas ocasionando o ceifamento de vida de mais de 400 mil brasileiros.

            A presença africana repercute sua origem e processos de cura em muitos aspectos do roteiro, desde a trilha até os áudios, denunciando a condição da gente preta envolta em racismos, assassinatos e construções distorcidas de sua realidade.  A música, em cada quadro, estabelece um elo desta ligação: em tom jazzístico, contando com improvisos em metais passando pela toada parintinense e pelo axé music, até o uso de instrumentais com atabaque e clássicos da MPB como o samba “Meu Guri” na versão original de Chico Buarque montam o repertório diversificado, plural e dinâmico do espetáculo.  Ritmos que passeiam por suas origens ou inspirações africanas desembocando no forte “Deixe a gira, girar” na versão também clássica dos Ticoãs.

            A coreografia de Wilson Júnior mistura elementos de fundamento folclórico e étnico, com técnicas de dança moderna e contemporânea. Os quadros, embora independentes, sem um enredo linear, mistura sinais e trajetórias distintas, porém unas, afinal, pretos, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e demais povos e comunidades tradicionais se unem pela luta contra os opressores de seus territórios, uma “Cabanagem” em pleno palco. Os figurinos masculinos, por exemplo, de calças largas e peitos nus, cortam o espaço ao som da toada bovina “Waiá-Toré” do Boi Bumbá Caprichoso personalizando a tônica de construção de todo o trabalho coreográfico. Assim como a vestimenta das bailarinas, a emergir substancialmente em malhas e cabelos soltos, de quando em vez trajando saias longas forjando um jogo de feminilidade, força, presença e origem.                     

            O impacto da cena final com células coreográficas idênticas à cena inicial invoca o mito do “eterno retorno” na concepção de Mircea Eliade fazendo-nos crer que a denúncia contra o achaque aos povos indígenas, aos pretos e à destruição da floresta amazônica resistirão enquanto houver oprimidos, e onde houver oprimidos haverá sempre luta.

            Não se pode dissociar ética de estética, não se produz a última sem a primeira, e “Agô” sibila a dor brasileira em momentos decisivos de nossas vidas.

Um dia de luta. Um dia vermelho.

 

FICHA TÉCNICA

Direção e Concepção Cênica: Cairo Vasconcelos

Bailarinos: Emília Pontes; Laura Melo; Lessa Ferreira; Igor Nogueira; Klaiverth Melo e Thaysson Castro

Coreógrafo: Wilson Junior

Ensaísta: Everton Castro

Maquiagem: Eugênio Lima

Figurino: Dione Maciel

Produção: Emília Pontes

Fotografia: Ingrid Anne

Assessoria de imprensa: Karol Rocha

Marketing: Ana Clarissa Cavalcante

Designer: Andiy Carvalho

Staffs: Greyce Carlos, Ruan Viana, Pabi Xavier e Eduardo Cardoso

Grafismos: Amadeu Sateré e Arte Chopinho

 

          O Potência das Artes do Norte conta com patrocínio do Governo do Estado do Amazonas, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal. Lei Aldir Blanc - Prêmio Feliciano Lana.



 

[1] Márcio Braz é Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM, especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Cátedra UNESCO de Políticas Culturais em parceria com a Universidade de Girona e Instituto Itaú Cultural e Mestre em Ciências Humanas com ênfase em Teoria, História e Crítica da Cultura pela UEA.

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