ano 3, n. 2, ago. 2021

PERMITA QUE EU FALE, E NÃO AS MINHAS CICATRIZES: COBERTURA CRÍTICA DO FESTIVAL CENAS DO NORDESTE

Ítalo Rui[1]

            Entre os dias 2 e 10 de abril deste ano, ainda pandêmico, fui convidado para acompanhar o festival Cenas do Nordeste. Para quem ainda não sabe, o Cenas é um festival online de artes cênicas organizado por um conjunto de artistas da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, cujo surgimento se deu em 2020, a partir das experiências do PAN – Potência das Artes do Norte (festival que eu e outros amigos artistas de Manaus organizamos). O Cenas, graças aos recursos oriundos da Lei Aldir Blanc, garantiu sua segunda edição este ano, apresentando 18 espetáculos dos 9 estados da região nordeste. A exibição das obras era feita via Zoom e após as apresentações, ocorriam debates entre os artistas, mediados pela receptividade calorosa de Daniela Beny e Franco Fonseca.

            Antes de começar propriamente minhas anotações sobre o evento, tomei a liberdade de compor esta escrita utilizando memes. Sim, memes. Os memes que fazem parte da cultura digital que acabou invadindo o teatro em 2020 e também em 2021. Fiquei me perguntando porquê não fazer um texto que dialogasse com estes recursos. Por que não, inserir em minha escrita alguns memes que circulam nas redes sociais e que, de certo modo podem acentuar minhas percepções, que às vezes, a minha escrita não consegue acentuar? De todo modo, este texto, além de ser uma percepção minha sobre o evento em si, é também uma tentativa em (re)pensar a atividade crítica, neste oceano de possibilidades da cultura digital.

            Quando sentei na frente do computador, tentando esboçar as primeiras linhas de escrita e ideias gerais desta cobertura crítica, foi praticamente impossível pensar no Cenas e toda a experiência imersiva que vivi no festival sem lembrar do PAN. Tenho a plena convicção que os desejos que fizeram brotar estes dois festivais, um aqui no norte do país, e o outro no nordeste, durante uma PANDEMIA cruzam-se em muitos aspectos. Neste sentido, minha escrita, será pautada por estas duas experiências.

  ARTE REGIONAL                             ARTE BRASILEIRA​

            Falar de teatro brasileiro, no singular, é muito perigoso. Sabemos disso. Nossa história é muito mal contada. Os perigos de consumir uma única referência no modo como se faz teatro, ou melhor, no modo como achamos que uma determinada região no Brasil faz teatro é que acabamos transformando esta referência em um farol que nos guia. Guia nossas percepções, nossos desejos, afetos e gostos. E como diria a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em O perigo de uma história única: “quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre lugar nenhum, nós reconquistamos um tipo de paraíso”.

            Então, acredito que o Cenas, e toda a sua pluralidade estética, política e social que dele emergiu, seja um exemplo deste paraíso reconquistado. Porque digo isto? Primeiro porque é preciso que eu também me coloque como um corpo estrangeiro, um artista de Manaus, que vive e atua na região norte do país, com um olhar viciado sobre o que seriam as artes cênicas nordestinas. Este corpo que escreve este texto também foi marcado por referências e estereótipos de um tipo de teatro nordestino. Este corpo que produz esta escrita, que por sua vez, materializa sua experiência no tempo que vivemos, já foi muito guiado pelo farol que me referi acima.

            E o que o Cenas pôde me proporcionar?

            Primeiramente, a curadoria, ao colocar 18 espetáculos representantes de todos os estados do nordeste, retirou aquele farol, cujo lugar estático ilumina apenas uma direção e o substituiu por lanternas, dando a mim, a possibilidade de olhar para onde eu quisesse. Com a lanterna em minhas mãos, fui descobrindo histórias, trajetórias e poéticas tão diversas e potentes nestes quase dez dias de programação. Graças a essa mobilidade, proporcionada pelo uso dessas lanternas, acessei não só as questões que as obras levavam para a cena, mas principalmente, o contexto em que tais criações eram gestadas.

            O meme acima, muito veiculado nas redes sociais representa bem minha reação após os encontros com cada espetáculo. Não pretendo explicar as imagens. O exercício aqui é compor uma escrita com memes, dando força ao texto e ampliando as percepções do que estou trazendo.

            A escuta foi muito importante a mim neste processo de cobertura crítica. Acompanhar as exibições e logo após debater as obras se tornou indispensável. Foi através dos debates calorosos, que pude me aproximar ainda mais do modo de criação das companhias e grupos. Algo que me tocou profundamente foi a quantidade de grupos com sedes próprias, ou grupos que dividiam espaços com outros grupos e companhias, numa espécie de feat artístico.

            Digo que me tocou profundamente porque pelas bandas de cá, grupo com espaço é raridade. Grupo ocupando um espaço e ainda abrindo sua casa para outros coletivos é mais raro ainda. Neste sentido destaco o espetáculo Os Cavaleiros da Triste Figura, do Grupo Boca de Cena, de Sergipe.

            A obra é uma versão de Dom Quixote, em que um grupo de atuadores sai pelos lugares, em praça pública e insistem em instaurar suas histórias. A minha relação com a obra foi tamanha que por alguns momentos esqueci que o trabalho era uma exibição gravada do espetáculo e interagi com um dos atores em uma cena, quando um deles se dirige para perto da câmera e fala com a plateia (virtual).

            Meu espanto foi imediato, já que a obra era gravada. Esse espanto se deu, a princípio, por eu não reconhecer que, mesmo através das telas, a presença e toda energia instaurada pelo teatro de rua também pode acontecer na tela do zoom. Mas, para além desta constatação em saber que o teatro de rua gravado tem sua força e consegue nos atravessar, o próprio coletivo possui uma trajetória na cena sergipana de uma década. Isso não é pouca coisa.

            Quantos grupos com sede própria conseguem desenvolver seus processos em suas sedes e além disso, criar uma relação do espaço de trabalho com o entorno que aquele espaço físico habita? A atuação política e social do grupo Boca de Cena com a própria comunidade onde sua sede se localiza nos mostra a força que um grupo de teatro possui para a sua comunidade. E quando as portas desses espaços são fechadas por conta da pandemia, o próprio cidadão transeunte sente o peso desse fechamento, como foi comentado por um dos integrantes do coletivo.

            É tendo um espaço de ensaio que um coletivo consegue maturar a obra, errar, consertar, destruir e reconstruir um trabalho. Fico me perguntando quantas obras acabaram sendo abortadas pela falta de um espaço de ensaio. Quantas vezes entramos na sala de ensaio para criar uma obra e, em pouco tempo o trabalho não consegue ganhar mais fôlego, entrar em uma temporada, ou até mesmo circular dentro de sua própria cidade pela ausência de políticas públicas que permitam que aquela obra possa ser apresentada mais vezes. Como criamos condições para que nossas obras consigam ganhar fôlego? Com toda a certeza, em um cenário onde espaços independentes são mais comuns e presentes, os artistas conseguem parir trabalhos que não serão abortados.

            Outro trabalho que esteve compondo a programação e que me atravessou pela sua força imagética e capacidade de adaptação dentro do contexto da pandemia foi Medeia Negra, do Grupo Vilavox, da Bahia. Medeia Negra é um solo de teatro que traz a voz da atriz Márcia Limma para o centro da cena. Na obra, o mito de medeia é revisitado pelo processo de descolonização do pensamento patriarcal e, através dele, questiona a condição social que acaba condenando, marginalizando e julgando corpos ditos “inadequados”, “estranhos”, “estrangeiros”. Nesta obra, é o corpo de uma mulher negra que ocupa o centro da cena.

            É importante frisar que o grupo, que já tinha uma versão criada antes da pandemia (da qual não assisti), apresentou uma nova versão dentro do evento, agora sendo afetada pelos recursos audiovisuais e adaptando o trabalho para um outro tipo de fruição. Nesta Medeia Negra, a atriz ocupa o que parece ser uma casa e vai compondo cada espaço deste lugar, fazendo valer sua voz, suas dores, sua autoridade. Ela constrói e também destroi esse espaço e nós acompanhamos essa ocupação através da câmera, que, numa espécie de jogo dançado, nos aproxima para o que esta medeia quer nos dizer. Muito interessante perceber o elemento do fogo no trabalho, que, pelo jogo da câmera dá mais  potência para as palavras da atriz.

            A adaptação deste espetáculo para os recursos audiovisuais também mostrou uma abertura da própria curadoria para trabalhos que foram criados no furacão pandêmico de 2020 e 2021. Interessante perceber que essa abertura também instaurou novas possibilidades para os festivais de teatro. A casa de muitos artistas virou ateliê de criação e também espaço de exibição de seus processos criativos. Como também olhar para essas produções? Como criar rotas de escoamento para trabalhos que foram gerados nas condições pandêmicas de 2021?

            Essas inquietações me levam a uma questão que também acabou pairando em muitos debates no Cenas do Nordeste, a precariedade como potência criativa. Parece até nome de uma fórmula matemática.

            Senti nos debates que a precariedade estava tão latente nos discursos dos artistas, seja pela falta de estrutura para os processos, a falta de recursos financeiros e o desequilíbrio de produção entre um estado e outro, já que nem todos os estados do nordeste possuem as mesmas condições de produção, que era quase como se os artistas estivessem, a todo momento desenvolvendo modelos de trabalho, engenharias cênicas, fórmulas matemáticas para solucionar, ou ao menos, sanar essas deficiências e, por meio delas, dar força ao próprio trabalho.

            Neste sentido destaco a obra Vulcão, um solo da atriz Diana Veloso do grupo Caixa Cênica, de Sergipe, que se intitula como um “teatro-portátil da intimidade. Um monólogo autoral, um projeto concebido como um espetáculo-show criado a partir de materiais autobiográficos da atriz que estará em cena”. É pelo discurso da precariedade, que falo desta obra, filmada há seis anos, e que foi se adaptando aos espaços que a recebiam. Na filmagem que foi exibida a nós, a atriz, cria desenhos de cena ocupando o espaço apertado de atuação de modo não convencional. Esta obra é um claro exemplo de um trabalho que deseja ser maleável aos espaços que o recebem, e isto fora mencionado várias vezes no debate, quando os próprios artistas tiveram que adaptar a obra para as condições espaciais que os lugares determinavam. Essa abertura nunca era num tom de conformismo, mas sim num tom provocativo. Como podemos permitir que esse vulcão entre em erupção em espaços diversos? Como a dramaturgia do espaço permite que nós dancemos com ele? Essas indagações me parece que pairam sobre os artistas criadores e a resposta a elas é singular. Já que cada espaço e cada apresentação é única.

            Para finalizar este breve voo panorâmico, gostaria de destacar a obra Sonhoridades para desadormecer serpentes, de Elton Panamby, do Maranhão. O trabalho de Elton definitivamente foi a ponta fora da curva da programação. E não que isto seja desmerecedor, muito pelo contrário. Creio que colocar a obra de Elton na programação, um trabalho sensorial que possui uma forte relação com imagens evocadas a partir do escuro dos rios de águas densas, convoca o espectador a fruir sua obra de outra maneira. Em Sonhoridades, os espectadores têm suas vistas convocadas para escutar vozes subterrâneas. Impactado pela fala de uma pessoa sobre o modo como a pandemia acabou nos fazendo consumir muitas imagens diárias, já que tudo virou virtual, Elton propôs criar imagens e sonoridades não representacionais. Tais imagens, que possuem a água e a densidade dos rios como referência principal e em diálogo com as sonoridades presentes no trabalho, nos levam para um tempo menos frenético de fruição.

            Creio que colocar este trabalho na programação seja também uma forma de burlar as expectativas, criar outras referências, ampliar os olhares. Dar para os espectadores lanternas e fazê-los olhar para outros modos do fazer artístico. Olhares esses já viciados pelo farol estático que ilumina apenas uma área específica e que acaba conduzindo os nossos gostos.

            Por fim, gostaria de finalizar esta cobertura crítica com um trecho da canção AmarELO, do rapper, cantor e compositor Emicida, em parceria com as artistas Majur e Pabblo Vittar.

Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes
Que nem devia tá aqui
Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar um pouco de bom que vivi

Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóiz sumir[2]

          Acredito que o Cenas seja uma tentativa dos artistas em nos fazer olhar para além das cicatrizes dos teatros nordestinos, é um exercício de mirar na potência criativa que emergem dessas práticas. Assim como o PAN, é um exercício decolonial de olhar a produção cênica brasileira na sua amplitude, sem tentar ser capturada por imagens de poder que acabam transformando toda esta pluralidade em imagens congeladas.

            É preciso deixar registrado que em meio ao colapso do sistema de saúde em muitos estados brasileiros, causados pela crise sanitária da COVID-19, com mais de 400 mil mortes registradas, os artistas seguem criando, reinventando seus processos, reconfigurando a vida teatral e imaginando mundos possíveis.

 

Vida longa ao Cenas do Nordeste!



 

[1] Ator, pesquisador, crítico de teatro e mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará. É bacharel em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas com habilitação em Direção e Interpretação, e organizador da revista eletrônica Arte Documenta.

[2] Trecho da canção AmarELO do rapper, cantor e compositor brasileiro Emicida, em parceria com as artistas Majur e Pabblo Vittar.

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