ano 2, n. 1, mar. 2020

POR ONDE DANTE ANDOU

Jan Santos [1]

1

CAÍNA E MORFINA

 

Cheiro de doença

cheiro de remédio

cheiro de urina

                        e o soro pinga

            pinga

pinga

 

                                   Cada som

Cada ruído

            Um tiro no ouvido

Os mosquitos exigem seu direito

                       

                        e o soro pinga

            pinga

pinga  

 

O viajante de jaleco azul

O corpo apodrecendo abaixo de si

O fedor de gente subindo

 

                        e o soro pinga                                                                                   

            pinga

pinga

 

Vêm as cadelas de Belzebu

Zunem

Comem

Cantam

 

O aparelho grita

A dor vem depois

A nota mais aguda

Do aparelho ou de sua súplica

 

Grita

Grita o nome de Deus

Grita o nome da mãe

Grita um nome sem letras

 

Grita

                        Fraco

                                   Magro

Mas grita

 

            Cai

 

O médico guia

Diz que é dia

Ninguém vem

Não

Eles vieram

                        pelo canto dos olhos

                                   velhos amigos

                                               nem vivos

                                                           sem cor

O médico guia

Não os via

E dava o decreto

Não vai haver dor

Deixa, deixa aqui toda a esperança

Que tua oração te traga paz

 

Perto de Deus,

perto de mim

Não tem paz

Só o fim

Mais um milagre na veia, a hora não tarda.

 

O viajante desce.

 








 

 

2

O CORDEIRO DE ANTENORA

 

              Antenora engole o viajante com lama

Antenora o arrasta com garras de espinho para dentro da boca

Antenora o rasga e deixa o ar provar do sangue

Antenora abre suas costas

            O sangue é negro, mas Antenora não se importa

 

O guia, livre de mácula, puxa-o por uma das mãos

Antenora não deixa

Antenora o faz gritar

Antenora o enlouquece

            O guia se horroriza

 

            “Deixe aqui, deixe aqui”

Deixar o que?

            “Deixe aqui, deixe aqui”

Deixar o que?!

 

            O guia acende uma estrela de fogo na mão

Antenora se retorce

Antenora recua

Mas Antenora não perde

            O guia grita Deus como um brado de guerra

 

            “Deixe aqui, deixe aqui”

Deixar o que?

            “Deixe aqui, deixe aqui”

Deixar o que?!

 

            O nome de Deus, um desafio

Antenora aceita

Antenora uiva

Antenora saca o açoite

            O viajante sangra pela última vez

 

            Sangra sete vidas,

Sangra sete anjos

Sangra negro

Sangra placenta

            Sangra sete crianças

 

“Deixe aqui”

       “Deixe aqui”

               “Deixe aqui”

“Deixe aqui”

                          “Deixe aqui”

       “Deixe aqui”

                                           “Deixe aqui”

 

Deixar o quê?!

 

Uma provoca o guia

            Uma arranca sua tocha

                                    Duas o derrubam no chão

Duas o mantêm lá

                           Uma parte as amarras do viajante

 

E eles se olham

                                   O viajante com lágrimas nos olhos

                                                                                              O guia, com terror nos dele

 

 

 

O viajante apunhala seu guia no pescoço.

E então sobe.

 




 


 

 

3

E eis que chego à terceira esfera, próxima o bastante do céu para ouvir-lhe as trombetas.

 

TOLOMEA AZUL.

 

Aqui jazem pintores e poetas, e sua arte se espalha no horizonte

onde mar e céu se amam, como era no princípio do tempo.

Se diluem em um gozo anil e púrpura,

Em uma grinalda branca de nuvem e espuma

ar e onda

paz e sacrifício.

 

Lá, Urano trocara Gaia pelo Oceano

E todos dançavam ao sabor da brisa

Todos nus, mas ninguém lhes disse nada

 

Pela orla o viajante caminhava,

Caminho de areia e nimbo

Por onde deuses tiveram sua foda

E cada gota de concha ao longo do anel marcava nas estrias da areia o gozo dos anjos.

 

E quê de inferno teria em tal lugar?

Ainda não era o seu lugar

e adiante ele ia, e ia, e ia

E vai

 

Caminhava, e o vento lhe lançava um enigma:

Anda na beira do mar ou do céu?

Te banha em nuvens ou espuma?

Estás a andar no teto e olhando pra cima vê o chão?

 

Quem saberia responder?

Quem se importaria?

 

Nem o peregrino se lixa com isso

ou com os bacos na praia

Com a canção das gaivotas sobre virgens e viagens

Mentiras, é só o que os pássaros contam

 

Ele caminha em seu delírio

Eu caminho sobre seus ossos

Eu piso nos sonhos que ele esqueceu

Danço sobre o orgasmo de Venus

na espuma salgada que gruda e lambe nos pés

 

Tão perto do céu que olho pra baixo e vejo mercúrio tocando

vejo marte com zíper aberto

 

Tão perto do céu e tão longe de mim

que o peregrino entendeu que até o inferno pode ser azul.

 


 

[1] Jan Santos é mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal do Amazonas, e atua como revisor, professor de língua e literatura e escritor. É autor de Evangeline - Relatos de um Mundo sem Luz, A Rainha de Maio e O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas.

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