ano 3, n. 2, ago. 2021

SOBRE UM REPENTE

Paula Adrianna Barros da Cruz[1]

Foto Espetáculo Do Repente 600 DPI (1).jpg

        Do repente é um espetáculo multilinguagem que traz uma poética singular para o II Festival PAN – Potência das Artes do Norte, um espetáculo que rodou (presencialmente) diversos lugares do Brasil, agora finaliza a semana do Festival com entoação de Viola, luz e vida nos corpos que dançam Teatro.

Esses corpos são da Cia LAMIRA Artes cênicas, através de uma mistura de elementos da Comédia Dell'art, música popular nordestina como o cordel, teatro, dança e os repentes que são improvisos geralmente entoados por dois cantores. Criam uma linguagem corporal própria elaborada a partir de um trabalho estético pautado na fisicalidade. 

         Do repente, fez-me adentrar em uma cultura composta de brasilidade, essa brasilidade para mim está na autenticidade construída pela ideia estética da obra, presente na Cultura popular brasileira: o reconhecimento de um lugar, marcando a identidade de um povo que canta e conta sua estória.

            Há uma comicidade própria, uma estória entoada em versos de violas que cantam, há músicos que se misturam por entre os versos do repente e os corpos atentos a cada verso do repentista. Os corpos formam imagens, em seguida contam os versos, depois, transitam entre um cangaço e por hora são os próprios cangaceiros. Tudo com uma simplicidade e potência física. 

             O andar no espaço, o dilatar com o espaço, o ocupar o espaço, são movimentos firmes a toda entoada repentista (nem sei se posso chamar assim), há tantos diálogos de corpos, música, dança e teatro que mesmo tendo visto uma gravação do espetáculo, sou pega e fico atenta a cada movimento firme, expandido, contido, aproximado dos artistas. 

         O público atento ao redor, as luzes que transcenderam a tela me fazendo pensar que estou lá naquele momento, mesmo sendo noite no dia da gravação que foi apresentada no festival, sou levada a crer que o sol brilhava ali.

         Brilhavam também os meus olhos e afagava meu coração que esqueceu a realidade que vive uma pandemia. A luz do sol reluzia em tela em um cenário do sertão, não exatamente, mas nos remete a um espaço e tempo no nordeste brasileiro. Uma cenografia peculiar, com figurino característico do cangaço e bem funcional na cena para o diálogo dos corpos com os violeiros, repentistas e todos os artistas que compunham a obra. 

         Há uma teatralidade, e uma composição estética definida. E, em um repente fui contagiada pelas sonoridades da viola, do triângulo, dos corpos que teatralizavam e bailavam na tela do meu celular. 

       Brinquei e ri com as entoações, me emocionei e adentrei em um espaço sonoro popular. Ou posso dizer, que notei as singularidades dos corpos que contavam estórias, e marcavam na dança um fragmento da história da cultura popular brasileira.

        Dancei e senti a dança. Me emocionei e me senti expandir por entre o sertão brasileiro, observei cada detalhe dos olhos e do cenário apresentado em tela: a rua, a estrutura por detrás das grades, os caixotes, a iluminação, as máscaras da Comédia Dell'arte.

      A noite de apresentação e bate papo não foi diferente, apesar de ter entrado pouco depois do início do debate, senti atravessar o sertão brasileiro e a poética estabelecida nas cenas. Havia potencialidades de rostos elaborando sorrisos e conversa leve, terminamos a noite com uma viola e brindes à vida.

          Posso dizer que foi como encontrar um poço de água no sertão.

       Complemento que isso é tudo, de verdade, o que tenho vontade de dizer. Desculpem, todos os que esperavam uma crítica, mas não quero e não posso elaborar, qualquer ideia que seja, diante de uma obra que me afetou em profundidade. Pois, com o grupo Lamira tive uma intensa vontade de viver e sair para conhecer esse nordeste brasileiro, e tudo mais que ainda não tive oportunidade de conhecer e com a arte, criar.

         Esses repentes só me fazem mesmo querer que a pandemia passe, que a vacina chegue o mais breve possível, para poder aglomerar com o teatro de rua, e me deliciar nas possibilidades poéticas de criar e (re)inventar nossa subjetividade, identidades e corpos na singularidade brasileira que somos. 



 

[1] Mãe, atriz, palhaça e Educadora da Linguagem Teatral. Pesquisa Palhaçaria hospitalar e Teatro para primeira infância. Inicia a produção crítica na Universidade como bolsista de extensão no projeto: TRIBUNA DO CRETINO: produção textual crítica sobre espetáculos de Teatro. (https://www.tribunadocretino.com.br

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