ano 3, n. 2, ago. 2021

UM ENCONTRO SUPERLATIVO

Márcio Braz[1]

Espetáculo Chica Fulô de Mandacaru.jpg

“Caminhar é deixar para trás

Deixar o que não se quer mais

Caminhar é seguir em frente

Em busca dos sonhos da gente”

(trecho do espetáculo)

 

 

“A linguagem amazônica aprecia superlativos” diz o etnólogo Claude Lévi-Strauss, e o rio, rua da gente amazônica, desemboca suas margens em outro superlativo, o sertão de “Chica, Fulô de Mandacaru” espetáculo da Cia Casa Circo de Artes Integradas, do Amapá, apresentado no último dia 24 de abril abrindo a programação da segunda edição do festival online PAN - Potência das Artes do Norte.

O espetáculo conta, segundo as vozes do próprio grupo, “de forma lúdica, a história da mulher de ontem e de hoje que luta para se afirmar em uma sociedade patriarcal”. Prometida compulsoriamente em casamento e violentada por José Aparício, Chica parte “com a coragem no peito, a esperança nas costas e a lembrança no bolso” deixando para trás “o que não se quer mais”, mas também o pai e a mãe, a quem se quer muito. Nesta saga, surgem personagens pelo caminho, como a fofoqueira Toinha, sua tia, aquela que de tão informada, propositalmente informada, faz o prefeito da vila se esconder e a batina do padre sacudir. O espetáculo trata da trajetória de Chica e a busca por sua liberdade.

“Chica, Fulô de Mandacaru” é uma história de partidas: é a saga de uma mulher dilacerada, partida, e que foge da violência e da língua do povo, este, sempre pronto a condenar ao invés de compreender e buscar a verdade dos fatos. Chica parte de sua cidade e leva consigo as marcas de um Brasil vergonhoso que assedia, maltrata, agride e mata mulheres. Sua história é a história de muitas mulheres que enfrentam os desígnios desta perversa situação. Mas o espetáculo também fala de resistência, palavra presente no vocabulário de toda a gente que luta contra as opressões. Resistência que permite olhar adentro, passear pelos sentidos e reverberar o fulcro da própria existência.

A cenografia reproduz um ambiente agreste, emoldurado por telas repletas de cactos e casas. Dois atores cruzam o espaço em um pouco mais de cinquenta minutos, contando, narrando e interpretando as personagens e situações desta saga libertária.

Mas a história de Chica poderia também ser lida como uma história de fuga: ela foge dos capangas do marido prometido e com isso caminha pelos rincões do sertão. Mas de modo algum a ideia de fuga se relaciona a algo pequeno, acorvadado, desonesto ou que diminua a força desta e de tantas outras mulheres. A fuga também é uma forma de resistência, assim como os seringueiros escravizados pelo sistema da borracha no qual já saíam do nordeste devendo os custos da viagem e a alimentação ao patrão. Ao chegar na Amazônia, esse custo aumentava, pois além da viagem e alimentação passavam a dever ainda os instrumentos de trabalho, a moradia e a sua “proteção”. A forma encontrada para resistir foram muitas, a começar pelo acréscimo de areia nas pélas de borracha para que, durante a pesagem, seu peso maior possibilitasse negociar a compra de mais alimentos, remédios e outros mantimentos. A fuga, segundo a historiadora Bárbara Weinstein, assim como a própria brincadeira do boi, bem retratada no romance “A selva” do português Ferreira de Castro, eram formas de resistência no traiçoeiro sistema de aviamento. Não havia passividade, omissão. Havia dor, mas também havia sorrisos, alegria, brincadeiras. O riso como álibi de luta.

Esse riso é o que contorna todo o espetáculo e diverte a plateia, ambos “libertos” do arquivo digital da peça filmada anos antes da pandemia, para ganhar uma nova relação acentuando ainda uma vez a persona do trabalho, em tons leves, mas cheios de movimento e denúncia.

As exibições de peças teatrais em cinemas, plataformas de streamings e, agora com mais contundência, nos canais de internet, não se constituem em algo novo, claro, mas uma novidade em tempos de pandemia marcando a quase totalidade das representações nos últimos dois anos, justamente pela restrição de público nos teatros. Um fato curioso diz respeito às primeiras imagens cinematográficas, compostas por cenas do cotidiano e pequenas cenas de teatro em câmera frontal com duração de menos de 1 minuto, apresentadas em intervalos de peças teatrais (geralmente vaudevilles) e encontros sociais até o surgimento, em 1905, dos nickelodeons, as primeiras salas de exibição cinematográfica. O cinema era completamente dependente do teatro popular, dos quadrinhos e outras formas de arte havendo inclusive a intervenção direta do exibidor junto a plateia, e a interpretação dos atores buscava exagerar nas formas, piscadelas e outros recursos dramáticos como forma de suprir a ausência de elementos narrativos naqueles primeiros anos do cinema.

Hoje é justamente este audiovisual, que um dia dependeu do teatro para compor parte de seu repertório, que nos possibilita mais uma reinvenção do teatro, como dizia o ator e diretor Julien Beck, mais uma forma de existência desta arte de mais de cinco mil anos.

A Chica da piauiense Ana Caroline é atravessada por veios de compreensão, onde se é perceptível ver em cena a racionalização da condição das mulheres traduzida em gestos, cantos e expressões. Mas seu companheiro também percebe essa contação. Jones Barsou, que além de ator, assina ainda a direção e dramaturgia do trabalho, carrega consigo uma partitura poética que combina perfeitamente com a energia emanada de Ana. Quase sempre acompanhado do violão ou rabeca, que hora pontua as falas e garante certa dramaticidade às cenas, ora confere a trilha para a saga, Barsou assimila o texto, com cantos e repentes, um Brincante, cuja potência reivindica aquilo que lhe dá sentido, ou seja, repertório dramático combinado com virtuosismos técnicos e compreensão temática, que ambos os atores se afetam.

Na metáfora do rio, com furos, curvas e paranás, a dramaturgia, assim como a linguagem do trabalho, é repleta de caminhos, onde não se evidencia com agressão nenhuma das situações, por si só, agressivas: tudo é muito teatralizado, com recursos de máscaras e figurinos em retalhos, em tons mais leves, mas assim como o rio, tal serenidade é só aparência. Em sua atmosfera, o conflito se apresenta, e o outrora calmo rio vira um turbilhão em nossas mentes, de onde saímos questionando e se indignando com esta história, história de muitas outras Chicas e Marias e Eloás...

            Neste encontro do norte, “Chica, Fulô de Mandacaru” possibilita uma leitura mais abrangente acerca da sociabilidade na Amazônia do norte brasileiro, para muito além do exótico que infelizmente insiste na sua reprodução. Para ver e ouvir, este espetáculo superlativo.

 

Ficha Técnica:

Direção: Jones Barsou

Elenco: Ana Caroline e Jones Barsou

Dramaturgia: Jones Barsou

Cenário: Cia Casa Circo/Paulo Rocha/Wallef Dias

Design de Figurino/costureira: Ana Caroline / Ilce Bestes

Design Iluminação: Eloy Pessoa

Operador de luz: Eloy Pessoa

Trilha Sonora: Jones Barsou e Paulo Bastos

Maquiagem: Cia Casa Circo

Vídeo Maker: Ramon Aquim

Edição de vídeo: Jones Barsou

Fotos: Luiza Nobre e Ramon Aquim

Confecção de Mascaras: Cia Casa Circo

 

          O Potência das Artes do Norte conta com patrocínio do Governo do Estado do Amazonas, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal. Lei Aldir Blanc - Prêmio Feliciano Lana.



 

[1] Márcio Braz é Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM, especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Cátedra UNESCO de Políticas Culturais em parceria com a Universidade de Girona e Instituto Itaú Cultural e Mestre em Ciências Humanas com ênfase em Teoria, História e Crítica da Cultura pela UEA.

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