ano 3, n. 2, ago. 2021

Um mergulho em águas ancestrais

Quemuel Costa[1]

Espetáculo Submersas no Gapó.JPG

“(...) Elas fugiram. A sereia contou. Elas mergulharam e foram parar em outro lugar, formando ilhas flutuantes (...) Ninguém soterrou elas”

 

 

         “Submersas no gapó” é um espetáculo de teatro feito coletivamente por mulheres, sendo elas as atrizes B.Onça, Fabíola Pena e Mônica Gouveia (também produtora da obra) junto a Carmim Oxorô, responsável pela filmagem. Trata-se de um trabalho realizado durante a pandemia no formato de gravação e disponibilizado no youtube. Assim como outros trabalhos que surgiram neste contexto, traz a mesclagem entre elementos do teatro com o audiovisual. 

     

      Apesar de se tratar de teatro filmado, é extremamente bonito perceber como se trata de uma experiência intimista. Mesmo separados por uma tela, é como se entrássemos na casa dessas mulheres. Com toda a certeza adentramos seus imaginários e suas memórias. De maneira fragmentada e não linear, as três mulheres nos falam e nos convidam para um mergulho em suas histórias.

         

         Talvez por ser uma obra tão atravessada e construída a partir de memórias, ela rememora um outro tempo. Um tempo onde a oralidade era a responsável por manter histórias vivas. A iluminação feita de candeeiros faz com que essa rememoração e esse espaço intimista cheguem com ainda mais força, já que a iluminação a partir do fogo exige mais proximidade para que se enxergue. Lembra a tradição de pessoas ao redor de fogueiras para ouvir histórias. Neste sentido, “Submersas no gapó” remete ao que há de mais primordial no teatro: o ato de contar histórias. 

     

      E não é à toa que a obra gera essa impressão de intimidade, seu processo também é atravessado por isso, uma vez que o espetáculo foi construído a partir das memórias das três artistas do elenco. Memórias essas que abordam seus locais de origem e suas ancestrais. A conexão com isso é tanto que parte do processo foi realizado na casa da avó da produtora Mônica Gouveia. Além disso, toda a ambientação para execução da peça faz com que nos sintamos em casa, pois toda a peça se passa em um cômodo, tratando-se de um site especif. 

       

       Mesmo apenas entre quatro paredes, a força da natureza e principalmente das águas se faz surpreendentemente presente, tanto na fala das mulheres e no som dos instrumentos, mas também de maneira sensorial. O local onde a obra se passa remete a um esconderijo mas principalmente a um abrigo. Úmido. Útero. Íntimo. Submerso. Ainda que, diferente do fogo, a água não apareça de forma material, ela encharca toda a peça. É um mergulho em águas profundas.

         

        Assistir a “Submersas do gapó” é quase como entrar em um transe, ou estado meditativo. É permitir-se ser inundado pelas memórias dessas mulheres e se perceber flutuando por elas. É como se a obra desaguasse em um outro tempo, em um ritmo mais calmo e lento. Há uma dilatação de tempo e de imagem, como uma vela que demora a apagar e ilumina pelo tempo necessário. Ou como mergulhar em águas tranquilas e por alguns instantes perder a noção do tempo. Ou habitar o tempo de forma mais leve. A forma como as atrizes utilizam suas vozes e os instrumentos contribuem para isso. Quase sempre falando em voz mais baixa, às vezes quase sussurrando, como quem convida o ouvinte a chegar mais perto para ouvir melhor. Até mesmo numa cena onde a agonia e a morte estão presentes, a calmaria, esse outro estado mais dilatado, está lá.

         

         Apesar da constância dessa calma, não se trata de um estado desatento ou frágil. Ao tratar de memórias, de ancestralidade e pedir licença às mais velhas, “Submersas no gapó” traz uma força avassaladora. É um ato de força e coragem se apropriar de si e dos seus, contar você mesmo suas próprias histórias. Tornar-se sujeito. Levando em consideração que das três mulheres em cena, duas são negras, e lembrando do estereótipo da mulher negra raivosa, é muito significativo que a obra ganhe um tom mais calmo. Que estas mulheres, até mesmo quando falando de suas dores e agonias, demonstrem plenitude. Domínio. Faz a calmaria ganhar outras camadas.

       

        A peça inicia com uma mulher negra acendendo uma vela, que logo é compartilhada com as outras duas mulheres em cena. Juntas elas multiplicam a luz, manipulam instrumentos, tecidos, memórias e futuros. E vão costurando esse tecido delicado que é a memória. Presentificam uma força  coletiva, feminina, negra e ancestral. Invocam a força de um presente que precisa ser coletivo. Ao invocar vozes ancestrais, remam em direção a um futuro possível, construído a várias mãos, construído por mulheres. Mantém os ancestrais vivos através de seus próprios corpos. Mantém a chama acesa. Mantém a água correndo. Não há aterramento capaz de contê-las. 

 

"(...) 

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

 

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade"

 

(Vozes-mulheres, Conceição Evaristo)



 

[1] Quemuel Costa é artista do teatro e desenvolve trabalhos nas áreas de atuação, pesquisa científica e crítica teatral. Iniciou uma pesquisa sobre o corpo preto e bicha e concebeu duas obras que partem dessas questões: "Todas as vezes que beberdes em memória de mim" (2021) e "O que pode o meu corpo falar?" (2021), ambas criadas com recursos da Lei Aldir Blanc através da Fundação José Augusto. Também é fundador e ator do Teatro da Margem, com o qual estreou o espetáculo virtual “Disque Q para Queer” (2021).
Licenciando em Teatro pela UFRN e crítico colaborador do Farofa Crítica a partir de 2019, já participou da cobertura crítica do Festival Internacional da Casa da Ribeira (2019) e da 1ª edição do Cenas do Nordeste (2020)

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