ano 3, n. 2, ago. 2021

Uma viagem à Amazônia imaginada em Lá Vem O Rio, do Coletivo Experimental de Teatro – CETA

Klara Cruz de Oliveira[1]

Espetáculo LÁ VEM O RIO - FOTO (1).jpg

         Antes mesmo da violenta chegada dos Europeus em terras indígenas, a Amazônia já era palco de diversos mitos, histórias e narrativas por parte dos povos ameríndios, que com suas crenças e religiosidades, disseminavam o imaginário dos povos aqui existentes. Por volta do chamado Período Pré-Colombiano Tardio, ocorrido entre os séculos XVI e XVII, em que ocorreu a chegada das expedições europeias ao norte do País, e consequentemente uma horda de exploração aos rios, florestas e riquezas naturais do território.

            Entretanto, diante de todos esses acontecimentos históricos, essa imensidão florestal parte da chamada Amazônia Legal, também pode compor e nutrir aspectos imaginativos, que busquem a contemplação da natureza e da biodiversidade que ali se convergem. Nesse caso, é fatídico que a geografia do conjunto de estados possui lendas regionais que são contadas de geração a geração, e são povoadas de provocações que formalizam aspectos históricos, sociais e mitológicos no contexto amazônico. Porém, diante das diversas contagens e recontagens de mitos já pré-estabelecidos e consolidados no imaginário popular do norte, e que constantemente se expandem para todo o resto do país e do mundo. Há também obras cênicas, que utilizam dessa vasta e ampla riqueza de narrativas construídas nessa região geográfica, para escoar em outros caminhos, acessando ao imaginário coletivo diante das informações e vivências experienciadas por quem as concebe, como é o caso de Lá Vem O Rio, do Coletivo Experimental de Teatralidades – CETA.

            A peça feita na linguagem do Teatro Lambe-Lambe, apresentada em 30 de Abril de 2020, através do serviço de conferência remota, conhecido popularmente como Zoom. Se inseriu, como componente do quadro de atrações do festival Potências das Artes do Norte – PAN. Entretanto, é sábio dizer que a obra já havia sido estreada meses antes, assim como grande parte das atrações do evento. O espetáculo possui direção de Iris Brasil, que também assina a dramaturgia, sonoplastia e edição. Victor Lucas Oliver, é responsável pela direção de arte e manipulação, realizando essa última função com Matheus Fontes, que também fica ao encargo da iluminação do projeto. O CETA surge na cidade de Manaus por volta do ano de 2019, e até a data de escrita dessa crítica conta com quatro integrantes.

            A obra é um respiro artesanal e condescendente de nostalgia, ambiguidade e sutileza diante da atual situação do mundo. Em primeiro momento, somos abraçados pela imensidão do azul que toma conta da caixa cênica em que a obra é apresentada, como uma alusão ao ensolarado e limpo céu das florestas, e isso se intensifica quando observamos a representação alegórica do sol, e algumas nuvens logo ao fundo. Posteriormente, é possível notar a presença da representação da floresta de várzea, comum na bacia amazônica. Até esse momento, é notório que isso é um vislumbre poético das imagens que permeiam as paisagens amazônicas, mas ao observamos no chão a pintura referente ao encontro das águas, em que o Rio Negro e o Rio Solimões se encontram, é uma interessante referência de como as imagens geradoras são fundamentais para o processo criativo em qualquer ato artístico.

            Algo a se observar, é a sonoplastia que junto de todo o arcabouço visual que ambienta a encenação, condensa uma experiência quase sinestésica em relação aos elementos observados. Somos tão afetados por todo o conjunto que se estabelece em primeira instância, que no momento em que o som do motor do barco se apresenta, seguindo da embarcação atravessando a caixa cênica, a sensação provocada é como se já estivéssemos imersos no meio daquele onirismo, fazendo parte de algum modo daquele ambiente cênico. O mesmo acontece quando observamos a interação entre a flora e a fauna, essa última representada pela arara, boto-cor-de-rosa, garça-branca-grande e capivara.

            A comunicação singela estabelecida entre a capivara e a garça-branca-grande, é um dos pontos chaves da obra. Pois, mesmo que conscientemente estejamos unificados acerca da cadeia alimentar que é ditada na selva, ali no jogo protagonizado pelas duas figuras representativas e feitas de materiais artesanais, há uma extrema desvanecida de compreender a complexidade que vai para além dos limites racionalizados pelo homem, e suas densas interações sociais. O que o CETA proporciona com a obra, é mostrar possíveis particularidades que não são delimitadas pela interferência humana. 

            Para além disso, quando as mãos humanas se fazem aparentes no espetáculo, é visivelmente como uma simbólica maneira de abordar os malefícios que o impacto que a interferência humana de forma desenfreada pode acarretar na vida selvagem, e como todo um ciclo que vai desde o barco no início do espetáculo, até à capivara que interage com a garça-branca-grande são afetados. Apesar da faceta pueril, e nostálgica que a obra propõe, seu viés ecológico, que se contextualiza de forma predominante ao contexto amazônico, fomenta discussões que nos dias de hoje são cruciais para termos consciência dos problemas ecológicos que com cada vez mais frequência, rondam os ciclos de discussões acerca da floresta amazônica.

            Diante disso, através da linguagem do teatro de Lambe-Lambe, o Lá Vem O Rio, reforça discussões sobre a sociedade, a indústria e o meio ambiente. É interessante notar que toda a estrutura do espetáculo é composta por materiais reaproveitados e de fácil acesso, como caixas de papelão, papel higiênico, arames, EVA, algodão, entre outros. E a construção da obra, se adequa com o que é proposto em uma das versões do Manifesto do Teatro Lambe-Lambe, escrito pelas criadoras dessa linguagem teatral, pois nesses ditos “O teatro lambe-lambe é uma intervenção feito parafuso na engrenagem do capitalismo [...] um teatro independente, feito a mão, no peito e na raça, para a rua, feiras e praças” (LIMA; SANTOS, 2020, p. 11).

            É notório que nessa crítica, não há elementos técnicos a serem titubeados com rigor, uma vez que estamos em um período histórico extremamente delicado, e a produção de feitos artísticos já é de uma imensa grandeza e austeridade. Além disso, complementa-se com o fato de que um mês antes da publicação desse escrito, houve um recorde histórico de desmatamento da Amazônia, sendo mais ou menos 581 km² de área desmatada apenas no mês de Abril. E somando os quatro primeiros meses do ano, o desmatamento foi de cerca 1.156 km². A nível de comparação, é como se estivéssemos falando de 36 Estádios Arena da Amazônia. Por fim, ainda no mês que esse respectivo texto acerca do espetáculo do CETA sair para a leitura e degustação dos leitores e apreciadores das artes, será votado um projeto de lei que extingue o licenciamento ambiental, em termos práticos, caso aprovado haverá uma livre abertura de início de obras em eixos florestais, sem quaisquer estudos prévios acerca dos impactos ambientais que estes possam vir a causar.

            Mediante a isso, vemos que Lá Vem O Rio nos conduz à uma viagem encantadora e poética acerca das belezas naturais encontradas na Amazônia. Através de suas coloridas riquezas naturais, nos fazem desfrutar de uma graciosa visualidade acalentadora. E ao ser transposta para a caixa de lambe lambe, a biodiversidade ali presente, envolve os espectadores e os condiciona em um momento contemplativo, quase nos fazendo remeter a memórias de infância, fato principalmente partilhado pelos artefatos criados com objetos de fácil manuseio. Portanto, aventurar-se nessa alegórica viagem às terras amazônicas é também reconhecer que podem haver redemoinhos de água que podem causar turbulências.

Algumas informações nessa crítica foram retiradas das seguintes fontes:

 

AGENZIA NAZIONALE STAMPA ASSOCIATA – ANSA. Desmatamento na Amazônia em abril bate recorde, mostra Inpe. Istoé. Disponível em: <https://istoe.com.br/desmatamento-na-amazonia-em-abril-bate-recorde-mostra-inpe/>

 

LIMA, Esmine; SANTOS, Denise di. Manifesto do Teatro Lambe Lambe. Teatro Lambe Lambe 30 anos. Salvador, v. 1, n. 1, p. 11, 2020.

 

REDAÇÃO. Dados de desmatamento de órgão do próprio governo desmentem discurso de Bolsonaro. Brasil de Fato: Uma visão popular do Brasil e do Mundo. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2021/05/07/dados-de-desmatamento-de-orgao-do-proprio-governo-desmentem-discurso-de-bolsonaro>



 

[1] pesquisadora em artes da cena, bacharela em teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (2018). Mestranda em Letras e Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Artes – PPGLA, e bacharelanda em Dança pela Universidade do Estado do Amazonas. Atua principalmente em pesquisas que buscam a observação do discurso imagético nas poéticas visuais nas artes da cena.

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