ano 3, n. 2, ago. 2021

Urbanidade, estética e dança-teatro na performance “A Bolha”

Paulo Tiago[1]

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         O Núcleo de Práticas Meditativas no Treinamento do Artista apresentou “A Bolha", de Manaus dirigida por Vanja Poty. A artista Daniely Peinado coloca seu corpo em risco na intervenção urbana com fortes influências da dança-teatro. A obra artística entoa diversas frases simbólicas narrando a trajetória de seus movimentos corporais em uma eterna coreografia que tem fim. Apesar de ter utilizado a palavra “eterna”, por essa ser a sensação ao fim da performance que ecoa no inconsciente, com as palavras ditas em diversas entonações.

 

       O debatedor Quemuel Costa enfatizou como uma de suas características, a interferência cotidiana da performance, registrada em vídeo, editada posteriormente e exibida na programação do festival PAN - Potência das Artes do Norte. Antes de continuar, ressalto ter tido contato anteriormente com o trabalho por conta da Mostra de Teatro do Amazonas que aconteceu simultaneamente ao festival PAN. A Federação de Teatro do Amazonas organizou o concurso de mini dramaturgias com o objetivo de levar os textos a outdoors da cidade de Manaus e, “A Bolha” foi contemplada na ocasião. 

 

       O direito do espaço urbano em voga: a cidade é nossa de fato? O espetáculo provoca além da poética na cena, a questão política também do lugar público, da arte teatral interferindo na experiência individual e coletiva, pois o teatro deve provocar na sociedade o entrecruzamento de culturas, pensamento e reflexão de percepção sobre o que é vivenciado no real orgânico do cotidiano. A vida na realidade é uma grande performance, caso vista de longe, sobretudo na atualidade, quando o virtual toma frentes e passamos a atribuir valores simbólicos instantâneos a acontecimentos gravados que foram ou não programados.

 

     As micros partículas cotidianas do espaço urbano interferem diretamente na composição de algo que está sendo desenvolvido há muito tempo em processo continuado de edificação. O performativo se faz presente na aderência do transeunte para com o extracotidiano provocado por “A Bolha”. Por exemplo, carros transitando na pista: a cor do automóvel ou a ausência dessa posse pode ser capaz de levar o espectador a compor sensações a partir da obra performática, daí encontra-se a contraposição ao poético presente nos movimentos da bailarina dentro da estrutura transparente circular com o real. 

 

      O cenário veda problematizações acerca do perigo de estar em público no contexto pandêmico, além de contribuir com a teatralidade sofisticada proposta pelo NUPRAMTA. A hibridez em “A Bolha”, sobretudo no formato virtual, proporciona ao espectador ouvir também a linguagem verbal do texto escrito por Daniely Peinado que elenca seu corpo multifacetado de mulher, atriz, mãe, professora, pesquisadora. Os movimentos corporais evocam repetição, intuitividade, relação com o presente e consolidam os anos de pesquisa da bailarina, com vividas ações e corporeidade consistente. 



 

[1] Paulo Tiago ou Ianque Ubiratan é bacharelando no curso de teatro da Escola Superior de Artes e Turismo da UEA, integrou ao Programa de Iniciação Científica pela FAPEAM entre 2018-2019 debruçando-se em pesquisas acerca do treinamento do performer e narrativa cênica a partir da vivência cotidiana, além disso, dirige espetáculos no Coletivo Erva Daninha e estagiou na Cia Ateliê23. Em 2020 integrou a equipe do Núcleo de práticas meditativas no treinamento do artista - NUPRAMTA, se debruça em estudos teórico-práticos acerca do treinamento psicofísico e antropologia da performance. As principais iniciativas do artista são “Estrangeiro”e “Rua 9” no Coletivo Erva Daninha; na graduação “Escorro”, “Angústia” e “A Balada da Independência Emocional”, além de contribuir em "Relicário", “Janta” e “Helena” da Cia Ateliê23. Atualmente participa em “Apneia: Ofélias”, “Entre Esmaltes e Trapaças” e “Amor-ta” no NUPRAMTA.

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