ano 3, n. 2, ago. 2021

VALE A PENA RIR DE NOVO! VALE A PENA PENSAR DE NOVO! VALE A

PENA CRIAR O NOVO!

PAULA ADRIANNA BARROS DA CRUZ1[1]

Espetáculo Vale a pena rir de novo.jpeg

“ O ator que se cobre com uma máscara se identifica, na aparência, ou por uma apropriação mágica, com o personagem representado. É um símbolo de identificação”

(CHEVALIER; GHEERBRANT, 2009, p. 598)

POR ONDE GERA

        Segunda-feira: 26/04/2021, 11h da manhã pelo horário de Brasília, entro (atrasada) na sala de reunião da plataforma Zoom (um aplicativo de chamadas de vídeos), para assistir ao espetáculo: “VALE A PENA RIR DE NOVO", pois com a Pandemia, desde 2020 temos trabalhado pelas plataformas virtuais e encontrado novas formas de encontros com as linguagens artísticas. O espetáculo é do Grupo Circo Matutagem (PA) composto por Ana Marceliano – Palhaça Marcelita; Rodolpho Sanchez- Palhaço Bolonhesa e Ruber Sarmento- Palhaço Rubervaldo pelo II Festival PAN – Potência das Artes do Norte realizado e organizado por artistas Manauaras, que foram contemplados pelo Edital Aldir Blanc no qual fui uma das quatro selecionadas para compor a equipe de críticos do Festival.

         Quem coordenou a conversa ao fim de cada apresentação foi Danielle Ávila Small[2] , pois as peças eram seguidas de debate entre os artistas, os críticos e quem mais quisesse participar. O primeiro espetáculo que decido debruçar-me para a escrita é o de Palhaçaria, pois foi um dos que mais me inquietou para produzir criticamente.

 

POR ONDE INQUIETA

 

         Inquieta por ser mãe, mulher, atriz, palhaça e Educadora em meio a uma pandemia. Trabalhar em casa é uma realidade singular, especificamente em uma realidade nortista, onde tudo parece mais distante, com difícil acesso, seja de Internet ou distância territorial, ao menos essa é a sensação para mim.

          Inquieta não ter recursos suficientes para isso e ainda sim, precisar reinventar a própria forma de fruir o Teatro.

       Inquieta o próprio Edital Aldir Blanc que seria para oferecer recurso emergencial para a categoria artística e se torna um edital de fomento, gerando burocracias, concorrências entre os grupos culturais e, ainda, descontos dos impostos.

          Inquieta as notícias principalmente sobre o feminicídio no Brasil, que aumentou consideravelmente durante o isolamento social, gerando angústia e medo.

        Inquieta a negligência em relação a inúmeras mortes e à vacinação no Brasil, ainda em estado letárgico e governos em completo desinteresse. Um governo federal genocida!

        Penso que estamos chegando em um nível grotesco das versões do ser humano. Então, a linguagem da palhaçaria talvez seja uma forma genuína de pensar a condição humana.

         O espetáculo apresentado pelo Grupo traz esquetes tradicionais de palhaços, que há gerações são repertório pelos circos do Brasil. São elas: “senhoras e senhores"; “A caçada” e “A banda”. A peça era uma gravação feita pelos artistas para a seleção do Festival e era o que assistíamos. O grupo gravou seu vídeo-teatro na horizontal, como se estivessem ao vivo. Entre as cenas, dialogavam com o público imaginando-o por detrás da tela.

         No debate os artistas falaram sobre o porquê escolher esquetes clássicas, uma delas foi a ausência do teatro ao vivo e a cores na rua, da presença e da participação do público devido a pandemia, precisando (re)pensar a cena. Outra que considero importante é em relação às suas pesquisas e estudos acadêmicos e como grupo, é também um meio de registro de suas elaborações cênicas paraenses, pois os mesmos constroem as cenas com uma referência da “matutagem” - característica de um folguedo da nossa região. Um exemplo: a história contada por Marcelita na cena “A caçada”, que mostra sua ida ao município do interior do estado do Pará - Colares. A cena é carregada de significados, pois na estória contada por Marcelita ela se embrenha na mata atrás de uma caça, com as mãos simboliza uma arma contando seu “causo". Nessa cena, penso que ela vai descaracterizando o que seria o “lugar de mulher". Esse lugar que menciono é construído histórica e socialmente, onde a ideia perpetuada é a de que nós mulheres “nascemos para procriar e cuidar dos afazeres domésticos”. Na palhaçaria, como nos outros âmbitos sociais, as mulheres não faziam parte desse cenário. Noto aí uma forma de trazer à Palhaçaria clássica  um “quê" de identidade e de mudanças sociais.

         Outro traço em destaque, que chamo de clássico identitário, é como eles trabalham os personagens palhaço do “Augusto” e do “Branco". Penso esses estilos a partir da própria ideia do grupo de trazer as cenas clássicas. Ana Marceliano, na construção da palhaça acentua os traços mais para o “Branco". Logo, percebo que há um processo de pensar a cena, partindo da realidade social, por dois motivos: o primeiro está na ideia que cito anteriormente sobre o papel da mulher e como esse papel se modifica com o passar no tempo. Visto também que essa oposição têm diluído com o tempo, partindo do pressuposto que somos todos um pouco dos dois, até a conclusão da cena: “a banda", esses lugares vão sendo esquecidos. Segundo é a junção das cenas “a caçada” e o “senhoras e senhores" quando Marcelita é colocada nessas cenas com características do “Branco", ela pontua na personagem as relações sociais de opressor e oprimido, bem como, descaracteriza novamente a ideia de que só o homem pode ser um opressor. Mesmo assim, ela me faz recordar, principalmente na cena “A caçada”, em que ela aponta a arma em direção à caça, a figura do atual presidente da República.

         Esse cenário da mulher palhaça em cena já vem se atenuando por todo mundo algum tempo, não exatamente caracterizando algum fenótipo dos palhaços “Branco” ou “Augusto”, como dito anteriormente. No entanto, a escolha é bem pontual, posso dizer, de acordo com Bolognesi, “No circo nada é permanente. A mobilidade e a transformação se estendem a todos os domínios”. Assim, vamos criando formas do fazer artístico, partindo das realidades existentes socialmente. A sociedade muda, logo, o Teatro e a Palhaçaria mudam também.

         Marcelita traz ainda uma barriga falsa , que descubro no bate papo que Ana coloca como estratégia de quando ela vai para rua, para jogar mais com o público curioso que questiona. Ou como forma de “proteção” em relação à necessidade de se imaginar ali na barriga uma criança sendo gestada, diz Ana que evita certos tipos de sexualização do corpo dela, servindo de desculpa para um maior cuidado de seu corpo exposto na rua.

        Ana Marceliano como Marcelita me traz um “acalanto" em relação ao que de início cito em relação as inquietações como mulher, mãe e palhaça, pois ver uma mulher em cena, me faz querer continuar a perpetuar minha arte da palhaçaria, ao mesmo tempo que marca um tempo outro de resistir à essa conjuntura política que nos massacra e hostiliza. Ana (re)existe na cena e eu (re)existo no texto crítico da cena.

          Poderia também trazer para pensar a própria arma simbólica de Marcelita em resposta a um desgoverno, simplesmente questionando: Com que arma lutamos? Com quem lutamos? Mas não estenderei essa conversa, deixarei por conta da mente do leitor do quanto é simbólica essa arma na mão dela.

 

POR ONDE SE PARIR

 

       Vou compreendendo a partir do que comenta Ruber Sarmento sobre os projetos do Grupo e a tentativa de experimentar e criar com os recursos tecnológicos, tateando e descobrindo esse lugar de linguagem própria também, como vamos sendo atravessados pela realidade e como digerimos e resolvemos essas questões seja na cena artística ou da vida. Ele comentou também sobre escolher cenas clássicas e cita sua pesquisa acadêmica, o que me fez refletir sobre o lugar que estamos. O lugar acadêmico e como ele nos atravessa a todo momento com a criação da pesquisa.

       Reflito sobre o que construímos nesse espaço e como trabalhamos esse lugar de criação, o que temos realizado de retorno para a sociedade, tendo em vista que frequentamos um espaço privilegiado que é a Universidade pública. Nessa análise, reconheço os esforços acadêmicos de permear nossa realidade social e o como as linguagens artísticas exprimem nosso cotidiano.

         Reflito também como a classe artística têm feito esse caminho de buscar a academia para gerar movimentos de criação, conhecimento e compartilhamento de ideias, reconheço a luta dos artistas que nos antecederam e que nos oportunizaram esse espaço.

        Do mesmo modo, em que há um paradoxo.   A mesma academia que nos alimenta e nos faz parir muitas criações é a mesma que tenta nos encaixar em um molde estabelecido em uma colônia de violência, é regida por leis arcaicas que nos prepara e expulsa do seu ventre. E nós somos os filhos indesejados expulsos, que vamos criando uma realidade e identidade própria, vamos buscando um modo próprio de vida, com grupos independentes, espaços dos mais diversos para apresentação e criação como: porões, apartamentos, casas, quintais, somos resistentes em muitos lugares e falo da realidade da Cidade de Belém que é de onde vêm esses artistas matutos do Circo Matutagem.

         É notório por aqui, a partir de como vão se estabelecendo os trabalhos artísticos, quanto é ausente um Estado e uma política pública que reconheça essa produção e os fazedores de arte (re) existentes na nossa cidade. Então, até questiono se toda essa EXAUSTÃO que vivo realmente é em decorrência da pandemia ou se aquela só se acentuou com esta.

        Fato é que vamos criando e nos expandindo na triangulação da Palhaçaria, olhando o público, o outro ou o objeto (que joga em cena) e nós (que agimos). Como vamos trabalhando e alcançando voos.

        É isso que enxergo agora. O Festival nos fez expandir nossos corpos e nossas pesquisas nortistas, nos fez mergulhar em aprofundamentos e compartilhar de ideias diferentes ou iguais, nos acentuou o que fazemos de melhor: a arte. E com esse espetáculo precisamente percebi o quanto é importante a gente rir e pensar o riso. Questionar o porquê  rimos, criamos, (re) criamos, nos encontramos, ouvimos e parimos.

[1]Mãe, atriz, palhaça e professora de Teatro. Pesquisa Palhaçaria hospitalar e Teatro para primeira infância. Inicia a produção crítica na Universidade como bolsista de extensão no projeto: TRIBUNA DO CRETINO: produção textual crítica sobre espetáculos de Teatro. (https://www.tribunadocretino.com.br/)

[2] Crítica teatral e autora do livro O crítico ignorante – uma negociação teórica meio complicada (Editora 7Letras, 2015) e da peça Garras curvas e um canto sedutor (Cobogó, 2015). É idealizadora e editora da Questão de Crítica, integra o Complexo Duplo e a DocumentaCena. É presidente da seção brasileira da Associação Internacional de Críticos de Teatro (IACT-AICT).

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